ANJOS: DOS ENSINAMENTOS DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

O trecho seguinte é dos ensinamentos de São Tomás de Aquino, do livro Suma Teológica Ia, A Primeira Parte, Questões: 50-64 e Questões: 106-114 como apresentado no livro Uma Excurção do Summa, escrito por Monsenhor Paul J. Glenn. Usado com permissão.


1. As criaturas existem em uma série de níveis. Elas participam e representam a bondade de Deus de várias maneiras. No mundo ao nosso redor existem três tipos de substâncias: mineral, vegetal e animal. Essas são todas substâncias corpóreas. Nós também achamos nesse mundo a substância humana que é mineral, vegetal, animal e ainda é algo mais; que não é totalmente físico; mas tem uma alma spiritual. Para entender a ordem das coisas, deve existir alguma forma de substância puramente espiritual ou substância não carnal. Então substâncias criadas são: a substância completamente física, a substância que é composta de corpo e espírito e a substância completamente espiritual. Substâncias completamente espirituais são chamadas de anjos.
2. Uma substância corpórea é composta de dois elementos substanciais, matéria primordial e forma material. Em anjos não existe uma combinação de matéria e forma. Matéria não existe em anjos; eles são pura forma substancial. Quer dizer, eles são puro espírito; eles são espírito sem adição ou mistura de matéria.
3. A Sagrada Escritura (Daniel 7:10) indica a existência de uma vasta multidão de anjos: "Milhares de milhares ministravam por Ele, e dez mil vezes cem mil estavam diante Dele." Em realidade, já que a intenção desde a criação é a da perfeição do universo compartilhando e representando a bondade divina; parece que as mais perfeitas criaturas devem se agrupar em grandes multidões. É assim então razoável supor que anjos existam em uma multidão excedendo de longe o número de coisas materiais.
4. Em substâncias corpóreas distinguimos sua espécie ou espécie essencial e seu status como indivíduo daquele grupo. Por exemplo, distinguimos em um homem, (a) o que fá-lo um ser humano, e (b) o que fá-lo tal ser humano. Agora, aquilo o qual define algo como sendo de uma espécie ou grupo é chamado de princípio da especificação. E aquilo o qual define algo em seu próprio item ou caso de sua espécie é chamado de princípio da individualização. Em todas as criaturas, o princípio da especificação é a forma substancial a qual faz da criatura uma coisa existente de seu próprio grupo essencial. E o princípio da individualização é matéria, corpo, visto que é marcada pela quantidade. Já que anjos não tem em si nenhuma matéria ou corpo, porque são puro espírito; eles não são individualizados. Quer dizer que cada anjo é o único da sua espécie. Sendo cada anjo é uma espécie ou espécie essencial de um ser substancial. Por essa razão cada anjo é essencialmente diferente de todos os outros anjos.
5. Os anjos são substâncias incorruptíveis. Isso quer dizer que não podem morrer, decair, quebrar ou ser substancialmente mudados. Por que a raíz da corruptibilidade em uma substância é a matéria e em anjos não há matéria.

1. Anjos não tem corpos. Uma natureza intelectual (quer dizer, uma substância essencial equipada para entender e pronta para agir) não requer um corpo. Em um homem, porque o corpo é substancialmente unido a alma espiritual, atividades intelectuais (entendimento e força de vontade) precisam do corpo e seus sentidos. Mas um intelecto em si, ou como tal, não requer nada corpóreo para sua atividade. Os anjos são puramente espírito sem um corpo, e suas operações intelectuais de compreensão e ação não dependem de maneira alguma de substância material.
2. Que os anjos as vezes assumem corpos, é sabido das Escrituras Sagradas. Anjos aparecerem em forma corpórea para Abraão a sua casa. O anjo Rafael veio disfarçado de um jovem para ser o acompanhante do pequeno Tobias.
3. Nos corpos assumidos, os anjos não exercitam as funções de vida corpórea verdadeira. Quando um anjo em formas humanas anda e fala, ele exercita seus poderes angelicais e usa os órgãos corpóreos como instrumentos. Mas ele não faz o corpo viver, ou o faz seu próprio corpo.

1. Já que um anjo pode estar em um lugar (por presence definitive), ele pode estar primeiro neste lugar e depois em outro lugar. É como dizer que um anjo pode mover localmente. Mas esse movimento local de um anjo não é como o movimento local de um corpo. Um anjo está em um lugar por exercitar seus poderes ali. El pode cessar a aplicação de seus poderes ali e começar a aplica-los em outro lugar. E isto é, pelo menos equivalente, um tipo de movimento local.
2. Através desse tipo de movimento local um anjo pode, se quiser, estar presente sucessivamente em diversos lugares e podendo-se dizer que passa através do espaço entre o primeiro e o ultimo lugar da série. Ou um anjo pode deixar de aplicar seus poderes no primeiro lugar e começar a aplica-los no último sem passar pelo espaço entre os dois.
3. Já que existe uma sucessão, ou seja, antes e depois, na aplicação dos poderes de um anjo. Hora aqui e hora acolá; deve-se dizer que o movimento local de um anjo ocorre no tempo e não é instantâneo. De qualquer maneira esse tempo não é mensurável em nossos minutos ou segundos; essas unidades de tempo são aplicadas somente a movimentos corpóreos.

1. Deus dá aos anjos o conhecimento das coisas quando Ele os traz existência. Este conhecimento não pode ser compreendido sendo do conhecimento de Deus somente.
2. As idéias de um anjo ou espécie inteligível são diretamente comunicadas pelo Criador. Assim um anjo não tem necessidade de aprender. Deus dá aos anjos a extensão de conhecimento que ele escolhe dar.
3. E a extensão do conhecimento não é a mesma em todos os anjos. Existem anjos mais acima e anjos mais abaixo. Cada um recebe o que compete e é necessário para seu escalão e serviço que deve realizar. Então alguns anjos sabem mais que outros. Como veremos adiante, a comunicação do saber de Deus para os anjos é comparável a uma luz que brilha através de uma sucessão de vidros. Um sob o outro. Assim que enquanto a luz se despeja de uma vez e penetra toda a série de vidros, pode-se dizer que na verdade os vidros debaixo recebem sua luz dos vidros de cima. Então os anjos mais abaixo (isto é, os de natureza angelical dotados de menos perfeição) são iluminados ou instruídos pelos anjos mais acima. Sem, como vemos, conflitar com o fato de que anjos recebem seu conhecimento de Deus logo que vem a existência.

1. Um intelecto angélico em seu saber natural, tem pleno conhecimento e não há nada para aprender. Mas ainda assim não está sempre considerando tudo o que sabe. A respeito de conhecimento supernatural, o intelecto angelical condiz sempre em realidade com a palavra Divina e pode estar em potencialidade com referências a revelações divinas especiais que lhe podem ser feitas.
2. Saber angelical, partindo da visão da Palavra Divina (a visão beatificada) é toda possuída de uma vez. No reino de seu conhecimento natural, entretanto, um anjo pode pensar muitas coisas ao mesmo tempo se essas coisas são abrangidas sob o mesmo conceito ou espécie, mas coisas abrangidas sob vários conceitos ou espécies não podem ser pensadas de uma só vez por nenhum intelecto criado.
3. O conhecimento intelectual humano é desenvolvido passo a passo. O homem avança do que ele sabe, mas que no começo não era sabido. O processo de aprendizagem humano é exemplificado na maneira na qual nós provamos um teorema de geometria. Essa maneira de pensar nas coisas, passo a passo, é chamada de pensamento discursivo ou razão. Agora, se a luz de uma verdade mestra nós pudéssemos ver tudo o que está encerrado em nossos pensamentos; não precisaríamos elaborar o conhecimento por pensamento discursivo. Não precisaríamos, por exemplo, trabalhar sobre o teorema de geometria. Porque absorveríamos toda a demonstração e entenderíamos inteiramente sem esforço. Um anjo tem esse tipo de conhecimento de verdade. Um anjo não precisa de pensamento discursivo. Em qualquer área de seu conhecimento natural, o intelecto angelical é empregado. Vê toda a figura. Ele tem a coisa pensada ao mesmo tempo com suas implicações e consequências. E então não precisa ir de ponto a ponto para concluir o conhecimento.
4. O intelecto humano forma idéias e conceitos, daí os compara e pronuncia julgamento estando de acordo ou não. Duas idéias estão na mente humana quando trazidas a comparação para julgamento em relação de sujeito e predicado. Quando a idéia predicado se acha de acordo com a idéia sujeito, a mente afirma o predicado do sujeito, assim, "Uma pedra é uma substância". A mente ou intlecto assim compõe ou acumula as duas idéias em um julgamento positivo. E quando o sujeito e predicado não concordam, a mente os divide por um julgamento negativo, assim, "Uma pedra não é uma substância espiritual". Tal intelecto humano trabalha seu conhecimento " compondo e dividindo". E através de seus julgamentos (feitos por compor e divider) trabalha outros julgamentos pela razão ou pensamento discursivo. Mas o intelecto angelical, como temos visto, não necessita desse processo de saber (de compor, dividir, raciocinar), pois seu conhecimento não é construído por abstração de achados dos sentidos pouco a pouco. A mente angelical é como um espelho que toma em si o complete significado daquilo em que se transforma. Apesar de que um anjo entende nossa maneira de pensar e sabe como passamos pelo processo de compor, dividir e raciocinar.
5. No saber natural de um anjo não pode haver falsidade ou erro. Um anjo realmente sabe tudo o que sabe e isso pode ser ditto da fonte do seu saber. E nem é preciso dizer que em sua sabedoria supernatural, um anjo sabe tudo aquilo que Deus deseja que ele saiba, sem erro ou falsidade. Mas os anjos caídos (ou demônios) estão totalmente separados da sabedoria divina, então, em coisas supernaturais pode haver erro ou falsidade em seu saber.
6. Sendo assim, como os anjos conhecem criaturas na Palavra de Deus, a visão beatificada, eles tem o que Santo Agostinho chama de "conhecimento da manhã". E dessa maneira como eles conhecem criaturas em seu próprio ser e natureza, eles tem "conhecimento da noite".
7. Parece que Santo Agostinho faz uma real distinção entre conhecimento diurno e noturno nos anjos, ele diz (Gen. ad lit. IV 24): " Há uma diferença muito grande entre saber uma coisa como ela é na palavra de Deus e como ela é na sua própria natureza."

1. Aonde há entendimento do bem, há uma tendência de entendimento para obtê-lo. Em outras palavras, anode há um intelecto, há vontade. Existe intelecto em anjos; consequentemente existe vontade também.
2. Em uma criatura, intelecto e vontade não são identificados. O intelecto de um anjo não é a mesma faculdade que o arbítrio do mesmo. Estas são duas faculdades e não uma.
3. E arbítrio significa livre arbítrio. Arbítrio é um apetite intelectual; é a faculdade de tender, ou escolher o que é proposto pelo intelecto como bom. O homem, que é menos perfeito que os anjos no reino das criaturas inteligentes, tem livre arbítrio. Certamente um anjo também o possui. Um anjo exercita livre arbítrio melhor que o homem.
4. O arbítrio do homem está sujeita a influências externas derivadas do apetite dos sentidos. O arbítrio é um apetite pelo bom tal como o bem em seus aspectos comuns. Mas os sentidos do homem se fixam sobre um bem em particular e tendem de encontro a ele. Esses sentidos-tendências humanas, quando são simples e descomplicadas tendencies chamam-se appetites concuspicientes. E quando essas tendencias involvem uma consciência da dificuldade de se obter o objeto (ou seja, a coisa que satisfaz, o produto que eles procuram) elas são chamadas apetites irascíveis. Assim a tendência sensível ou apetite chamado desejo é o apetite concuspicioso; ao passo que a tendência sensível ou coragem de desafiar a qual tende para um objeto obtível somente ao se encarar obstáculos, ameaças, ou perigo, é apetite irascível. Esses apetites seníveis trabalham na ordem intellectual no homem e exercitam uma influência no arbítrio e suas escolhas. Já que os anjos não tem elemento sensível, eles não estão sujeitos a apetites concuspiciosos ou irascíveis. Os anjos escolhem sem a influência de tais tendências não espirituais.

1. O amor é uma inclinação natural da vontade sobre seu objetivo. É a operação fundamental da vontade. Aonde há vontade há amor. Sendo assim há amor nos anjos.
2. O amor no anjo não é somente uma tendência natural, é uma tendência ciente da ordem intelectual e involve não somente inclinação, mas escolha.
3. Cada ser ama a si mesmo tanto que procura seu próprio bem. Criaturas livres amam a si mesmas dessa maneira e tendem, ou desejam o que lhe será de benefício próprio. E assim como criaturas livres exercitam pela escolha de lutar por um objeto benéfico, diz-se que amam a si mesmos por escolha. Anjos amam a si mesmos por ambas tendência natural e escolha.
4. O amor natural de uma criatura pela outra é baseado em um ponto de unidade ou igualdade do amante e amado. Já que os anjos são todos de uma mesma natureza espiritual, eles naturalmente amam uns aos outros. [Note que: Os anjos são genericamente um. Eles são do mesmo gene ou classe essencial . Já vimos que eles são especificamente distintos, que cada anjo é o único de seu específico tipo essencial.]
5. Pelo amor natural, os anjos amam a Deus mais do que a si mesmos. Todas as criaturas pertencem absolutamente a Deus. Eles se inclinam a Deus como seu destino final ou objetivo. As criaturas, que amam livremente, devem reconhecer a Deus como seu final ou objetivo e buscá-lo acima de tudo. O amor de Deus vem naturalmente (em criaturas livres) antes do amor a si mesmo e é o amor maior. Se não fosse assim, o amor natural seria uma contradição, porque não seria aperfeiçoado por atingir seu objetivo verdadeiro, mas seria sem frutos e auto-destruidor.

1. Anjos são criaturas. Eles existem, não por necessidade, mas a existência dada lhes dada. Ou seja, eles tem existência por participação. Agora, o que tem existência por participação recebe esta existência daquele que tem a existência como sua própria essência. Somente Deus existe por sua própria essência. Sendo assim, anjos tem sua existência de Deus; eles são criados.
2. Deus sozinho existe desde a eternidade. Eles cria coisas produzindo-as a partir do nada. Criaturas existem depois de nunca haverem existido. Então anjos não existem desde a eternidade.
3. O mais provável é que os anjos e o mundo tenham sido criados ao mesmo tempo, e não anjos primeiro (como um tipo de mundo independente dos espíritos) e mundo depois. Anjos são parte do universo, e nenhuma parte é perfeita se totalmente separada do todo, da totalidade a qual pertence.
4. Os anjos são criados no céu. E é cabível que criaturas da mais perfeita natureza devam ser criadas no lugar mais nobre.

1. Apesar dos anjos serem criados no céu, e com felicidade ou beatitude naturais, eles não foram criados na glória, ou seja, com posse da visão beatificada.
2. Para ter a Deus na visão beatificada os anjos requerem graça.
3. E, enquanto os anjos foram criados em estado de graça santificadora, esta não era a graça a qual confirma os anjos na glória. Se os anjos tivessem sido criados na graça confirmadora, nenhum poderia ter caído, e alguns caíram.
4. Anjos foram criados na graça e usando essa graça em seu primeiro ato de caridade (que é a amizade e amor a Deus) eles mereceram a visão beatificada e a beatitude celeste.
5. Logo que mereceram a beatitude celeste, os anjos a possuíram. A natureza angelical, sendo puramente espiritual, não se adequa a passos e degraus progressivos para a perfeição, como no caso de um homem.
6. Os anjos mais altos, aqueles de natureza mais perfeita e inteligência mais aguçada, tem dons maiores de graça que outros anjos; pois seus poderes mais perfeitos os torna mais poderosos e efetivos a Deus do que no caso dos anjos de menos capacidade.
7. A beatitude celeste desfrutada pelos anjos não destrói sua natureza ou suas operações naturais; então o conhecimento natural e amor dos anjos permanece neles depois que eles são beatificados.
8. Anjos beatificados não podem pecar. Sua natureza encontra preenchimento perfeito na visão de Deus; estão dispostos em direção a Deus exclusivamente. Em anjos beatificados não existe tendência possível do distanciamento de Deus, sendo assim não há pecado possível.
9. Anjos que tem a Deus na visão beatificada não são aumentados ou avançados em beatitude. Uma capacidade que é perfeitamente preenchida não pode ser ainda mais preenchida.

1. Uma criatura racional (ou seja, uma criatura com intelecto e vontade) pode pecar. Se incapaz de pecar, este é um dom da graça, não uma condição da natureza. Enquanto os anjos não eram ainda beatificados poderiam pecar. E alguns pecaram com frequencia.
2. Os anjos pecadores (ou demônios) são culpados de todos os pecados até que levem o homem a cometer todo tipo de pecado. Mas nos anjos maus não poderia haver tendência a pecados carnais, mas só aqueles pecados que poderiam ser cometidos por seres puramente espirituais. Estes pecados são somente dois: orgulho e inveja.
3.Lúcifer que se tornou Satanás, líder dos anjos caídos, desejou ser como Deus. Este desejo orgulhoso não era a vontade de ser igual a Deus, pois Satanás sabia por seu conhecimento natural que igualdade entre criatura e criador é absolutamente impossível. Além do que nenhuma criatura deseja se auto-destruir, até mesmo para tornar-se algo maior. Nesse ponto o homem algumas vezes engana a si mesmo com um truque de imaginação; ele se imagina outro e maior ser, e ainda é ele que é, de alguma maneira, esse outro ser. Mas um anjo não tem a faculdade da imaginação para abusar dessa maneira. O intelecto angelical, com seu conhecimento claro, torna esse truque de enganar a si mesmo impossível. Lúcifer sabia que para ser igual a Deus, ele teria que ser Deus, e ele sabia perfeitamente que isso não poderia acontecer. O que ele queria era ser como Deus; ele gostaria de ser como Deus de uma maneira não cabível a sua natureza, tais como criar coisas com seu próprio poder, ou alcançar total beatitude sem a ajuda de Deus, ou ter o comando sobre outros de maneira própria somente a Deus.
4. Toda natureza, isto é, cada essência em operação tende ao bem. Uma natureza intelectual tende ao bem em geral, o bem sob seus aspectos comuns, o bem como tal. Portanto os anjos caídos não são naturalmente maus.
5. O diabo não pecou no exato momento de sua criação. Quando uma causa perfeita faz uma natureza, a primeira operação daquela natureza deve estar em linha com a perfeição de sua causa. Portanto o demônio não foi criado na maldade. Ele, como todos os anjos, foi criado no estado de graça santificadora.
6. Mas o demônio, com seus companheiros, pecou imediatamente depois de sua criação. Ele rejeitou a graça na qual ele foi criado e a qual era designado a usar, como os anjos bons a usavam para merecer a beatitude. Se, no entanto, os anjos não foram criados na graça, mas tiveram a graça disponível logo depois de serem criados, então pode ter ocorrido um intervalo entre a criação e o pecado de Lúcifer e seus companheiros.
7. Lúcifer, chefe dos anjos pecadores, era provavelmente o mais alto de todos os anjos. Mas há quem pense que Lúcifer era o maior somente entre os anjos rebeldes.
8. O pecado do mais alto dos anjos foi um mau exemplo o qual atraiu os outros anjos rebeldes e foi, a esta extensão, a causa de seus pecados.
9. Os anjos fiéis são uma multidão maior que os anjos caídos. Pois pecado é contrário a ordem natural. Sendo que, o que opõe a ordem natural ocorre com menos frequencia, ou em menos exemplos, do que o que está de acordo com a ordem natural.

1. Os anjos caídos não perderam seu conhecimento natural pelo seu pecado; nem perderam seu intelecto angelical.
2. Os anjos caídos são obstinados no mal, não se arrependem, são inflexíveis em seu pecado. Isso segue de sua natureza como espíritos puros, pois a escolha de um espírito puro é necessariamente final e imutável.
3.Ainda, devemos dizer que há tristeza nos anjos caídos, embora não seja a tristeza do arrependimento. Eles tem tristeza na aflição de saber que não podem atingir a beatitude; que há barreiras sobre sua vontade má; que os homens, apesar de seus esforços contrários, podem chegar oa céu.
4. Os anjos caídos estão engajados em combater o homem contra sua salvação e em torturar almas perdidas no inferno. Os anjos caídos que rodeiam os homens na terra, carregam consigo sua própria escuridão e atmosfera de punição. E onde quer que estejam suportam as dores do inferno. [Nota: para maiores discussões sobre anjos, ver Qq. 106-114.]


1. Um anjo pode esclarecer outro. As manifestações verdadeiras de um anjo superior quais são perfeitamente compreendidas por um anjo inferior que tem menos compreensão. Isso concorda com a natureza intelectual das criaturas de mover ou afetar outras de seu tipo dessa maneira de um ensinar e o outro aprender.
2. Assim, fornecendo esclarecimento, um anjo pode mover o intelecto de outro anjo. Mas um anjo não pode mudar a vontade de outro. Somente Deus pode efetuar tal mudança.
3. Um anjo inferior não pode esclarecer um anjo superior como uma vela não pode trazer iluminação ao sol. Entre seres humanos, que aprenderem por etapas, por seu conhecimento estar relacionado a coisas materiais, pode acontecer de um que sabe muito aprender de outro que sabe pouco. Isto não acontece entre espíritos puros que não alcançam o conhecimento pouco a pouco como os seres humanos.
4. Quanto mais alto um anjo, mais ele participa da bondade divina; consequentemente, mais ele tende a comunicar seus dons a anjos inferiors. Os anjos superiors tendem a dar tudo o que sabem a anjos inferiors, mas estes não recebem perfeitamente tudo que lhes é dado. Então os anjos superiores permanecem superiores apesar de compartilharem seu conhecimento. Mais ou menos da mesma maneira o professor humano, que faz tudo o que pode para compartilhar seu próprio conhecimento completo para seus jovens alunos, continua superior em sabedoria ainda depois de ter ensinado a lição. Pois os alunos aderem com menor capacidade do que aquela do professor.

1. Anjos manifestam seu conhecimento um para o outro, falando um com o outro. Mas a fala dos anjos não é uma questão de sons vocais. A fala dos anjos é uma comunicação direta do saber de espírito para espírito.
2. Um anjo inferior pode falar com um anjo superior, apesar de, como temos visto, não esclarecer o anjo superior. Uma vela não pode iluminar o sol, mas pode queimar visivelmente a luz do sol. Um anjo fala direcionando seu pensamento de tais maneiras que se estes se tornam sabidos por outro anjo, superior ou inferior. Tal direcionamento é feito de acordo com o livre arbítrio do anjo de falar.
3. Certamente os anjos "falam" com Deus consultando sua vontade divina e contemplando com admiração Sua infinita excelência.
4. Nem tempo nem lugar tem influência sobre a fala angelical ou seu efeito. Distância local não impede a comunicação dos anjos.
5. A fala angelical é mandada de mente angélica a mente angélica através da vontade do anjo que fala. Mas pertence a perfeição da comunicação intelectual que essa fala seja privada. Até mesmo um ser humano pode falar com outro sozinho. No entanto, os anjos, que são superiores aos seres humanos, devem ser capazes de comunicar pensamentos, anjo a anjo, sem fazer sua comunicação sabida a todos os outros anjos. O âmbito da comunicação angélica depende da vontade do anjo que fala; isso determinará a comunicação para um outro anjo, para muitos ou para todos.

1. A hierarquia é um principado sagrado. E um principado significa um soberano e subordinados. Se falamos da hierarquia de Deus e suas criaturas, existe somente uma hierarquia. Mas se nós consideramos somente criaturas dotadas dos dons de Deus, existem muitas hierarquias. Há por exemplo, uma hierarquia humana, uma hierarquia angelical. De fato, entre os anjos, são três as hierarquias de acordo com três níveis de conhecimento angelical. Mas em Deus, ou seja, na Santíssima Trindade, não existe hierarquia. Pois não há maior ou menor entre as três Pessoas em Deus. Todas as três pessoas são uma e a mesma em Deus. A Trindade é uma ordem de Pessoas distintas, mas não é uma ordem hierárquica.
2. A natureza de uma hierarquia requer a classificação de ordens dentro dela. Estas podem ser levemente descritas como ordens superior, media e baixa. Em grupos políticos e sociais humanos nós temos a seguinte classificação: a nobreza ou aristocracia; a classe media e as pessoas comuns. Entre anjos existem três ordens em cada hierarquia (superior, media e baixa ordens) e desde que existem três ordens hierárquicas angelicais, existem ao todo nove ordens de anjos.
3. Como temos notado, nosso conhecimento humano dos anjos não é direto e perfeito; não podemos conhecer os anjos como eles são em si. Da nossa maneira imperfeita, nós designamos vários anjos a cada ordem, ainda quando percebemos que, sendo cada anjo uma espécie completa, ele tem seu escritório específico e a esta extensão, sua própria ordem. Nós não podemos discernir o que esses escritórios e ordens são. Se uma estrela difere de outra na glória, muito mais difere um anjo de outro anjo. Nossa classificação de ordens angelicais é, no entanto um tipo de classificação geral.
4. Entre os seres humanos, que são todos de uma espécie e natureza, a hierarquia em seu verdadeiro sentido de principado sagrado é uma hierarquia de santidade, ou seja, da graça de Deus. Mas como acabamos de lembrar; anjos são distintos uns dos outros, não só pelos dons da graça, mas por sua própria natureza. Pois cada anjo é o único ser de seu tipo específico. Cada anjo é essencialmente diferente de qualquer outro anjo. Ao passo que cada ser humano é essencialmente o mesmo que qualquer outro ser humano. Além do mais, os dons da graça são dados aos anjos de acordo com sua plena capacidade de recebê-los. Este não é o caso com seres humanos.
5. Existem três hierarquias angelicais. Cada hierarquia tem três ordens. Todos os espíritos celestiais de todas as hierarquias e ordens são chamados anjos. Assim, o termo anjo é comum e genérico. O mesmo nome, normalmente com uma letra maiúscula, é o nome coletivo adequado para a ordem mais baixa da hierarquia dos espíritos celestiais. Nós devemos portanto distinguir anjo, que significa qualquer espírito celestial do mais alto ao mais baixo, de "Anjo" que significa um membro da mais baixa de todas as ordens.
6. As seguintes hierarquias e ordens existem dentre os anjos: (a) A mais alta hierarquia inclui as ordens de (em ordem decrescente no ranque) Serafim, Querubim, Tronos. (b) A hierarquia média inclui (em ordem decrescente no ranque) a ordem de Dominações, Virtudes, Poderes. (c) A hierarquia mais baixa inclui (em ordem decrescente no ranque) Principados, Arcanjos, Anjos. Essa classificação é comumente aceita por médicos instruídos, mas não unanimemente.
7. Depois do fim deste mundo corpóreo, as ordens angelicais continuarão a existir, mas seus ofícios não serão mais o que são agora, pois eles já não terão a necessidade de ajudar os seres humanos a salvarem suas almas.
8. Através do don da graça, seres humanos podem merecer a glória a um grau que os faz iguais aos anjos de cada ordem. Portanto, seres humanos que chegam ao céu são levados as ordens angelicais. Mas esses seres humanos continuam sendo seres humanos. Eles não são transformados em anjos.

1. Os anjos que se rebelaram e se tornaram demônios não perderam seus dons naturais. Eles lançaram for a a graça na qual foram criados por conta de seus pecados. Eles não lançaram fora a visão beatificada, pois nunca a tiveram. Se pensarmos em ordens angélicas como ordens de anjos na glória, então, naturalmente que não há ordens de anjos maus. Mas se considerarmos ordens angélicas como ordem de simples natureza angélica, há ordens entre os demônios.
2. Certamente existe uma precedência entre anjos maus; existe uma sujeição de uns a outros.
3. Demônios de natureza superior não esclarecem demônios inferiores. Iluminação poderia somente significar a manifestação da verdade com referência a Deus. E os anjos caídos se desviaram de Deus perversamente e permanentemente. Mas demônios podem falar uns com os outros, ou seja, eles podem fazer seus pensamentos sabidos uns aos outros. Pois essa habilidade pertence a natureza angelical a qual os demônios retêm.
4. Quão mais perto estão as criaturas de Deus maior é seu governo sobre outras criaturas. Portanto, os anjos bons governam e controlam os demônios.

1. O superior governa o inferior. Então anjos controlam o mundo corpóreo. St. Gregório diz que no mundo visível, nada ocorre sem a ação de criaturas invisíveis.
2. Anjos, no entanto, não tem poder de produzir ou transformer corpos por vontade. Somente Deus dá existência as coisas. Depois da primeira criação, corpos vem de corpos. Mas anjos podem mexer com agentes corpóreos para produzir mudanças em corpos.
3. Anjos podem controlar diretamente o movimento local de corpos. Pois esta é uma mudança accidental em corpos, não uma produção substancial de corpos nem uma mudança substancial.
4. Anjos não podem, por si sós, fazer milagres. Um milagre, por definição, é algo adequado a Deus somente. Claro que anjos podem servir, como homens santos também podem servir, de ministros ou instrumentos na execução de milagres. Anjos, bons ou maus, podem fazer coisas maravilhosas. Mas dentro dos limites dos poderes da natureza angélica e um milagre ultrapassa os poderes de todas as naturezas criadas.

1. Sendo os anjos superiores aos homens, eles podem iluminar os homens. Eles podem reforçar o entendimento dos seres humanos e fazer o homem ciente, de uma maneira sensível, das verdades a serem comunicadas. Assim anjos podem agir sobre o intelecto humano.
2. Mas anjos não podem agir diretamente sobre a vontade humana; somente Deus pode faze-lo.
3. Não obstante, anjos, bons ou maus, podem exercitar uma influência direta na vontade humana mexendo com imagens na imaginação do homem. E anjos, bons ou maus, podem através de seu poder natural, despertar apetites e paixões da mesma maneira. Ou seja, produzindo imagens na imaginação humana.
4. Igualmente, um anjo pode trabalhar sobre os sentidos humanos, tanto por fora, como por exemplo: tomando uma forma visível. Ou por dentro; perturbando as funções sentidos eles mesmos, como por exemplo: fazendo um homem ver o que na realidade não está ali.

1. Deus envia anjos para ministrar seu objetivo entre as criaturas. Este envio ou missão não é o dispachar de anjos em uma jornada. Ser enviado significa estar presente em um lugar novo onde não se estava presente antes. Ou estar presente onde já se estava, mas de uma maneira diferente. Um anjo está presente onde eles exercita ou aplica seus poderes e não em outro lugar. Quando Deus tem um anjo a aplicar seus poderes a uma criatura, o anjo é enviado a essa criatura. Deus é quem envia e é o primeiro princípio do efeito produzido pelo anjo enviado. Deus é também a meta final ou causa final do trabalho produzido. O anjo é o ministro ou instrumento inteligente de Deus; sendo enviado ele entrega o ministério a Deus.
2. Parece que, das nove ordens de anjos, somente cinco são enviadas para o ministério externo, e que os anjos superiores nunca são enviados.
3. Diz-se que os anjos ajudam diante do trono de Deus. Todos os anjos ajudam visto que todos possuem permanentemente a visão beatificada. Mas em um sentido especial, somente os anjos superiores ajudam diante do trono de Deus. Estes anjos superiores, veem mistérios em Deus e comunicam o que veem aos anjos inferiores. Todos os anjos bons veem a Deus na visão beatificada, mas os anjos superiores veem mais profundos e amplos mistérios em Deus do que os anjos inferiores. Por seu conhecimento mais profundo e amplo dos mistérios divinos, os anjos superiores são ditos ajudantes.
4. Anjos enviados no ministério externo são aqueles cujos nomes indicam algum tipo de ofício administrativo ou executivo. Estes são, em ordem descendente: Virtudes, Poderes, Principado, Arcanjos, Anjos.

1. É compreensível que seres humanos, instáveis e falíveis, sejam vigiado por anjos e assim constantemente movidos e regulados para o bem.
2. São Jerônimo, em seu comentário em Matheus 8:10, diz "A dignidade das almas humanas é grande, pois cada uma tem um anjo designado para vigia-la." A providência de Deus se estende, não só a humanidade como um todo, mas a seres humanos individualmente. Cada ser humano tem, pela amorosa providência divina, seu próprio anjo guardião.
3. Parece que o ofício de ser guardião aos homens pertence a mais baixa ordem de espíritos celestes, ou seja, a nona ordem, a ordem dos Anjos.
4. Cada ser humano, sem exceção, tem um anjo guardião por toda sua vida terrestre. No céu o homem terá um anjo companheiro para reinar com ele, mas não um guardião. Não se necessita guardião quando a jornada foi completada com sucesso. No inferno, cada homem terá um anjo caído para puni-lo.
5. Cada ser humano tem seu anjo guardião desde o momento de seu nascimento e não como alguns ensinaram, somente a partir do momento do batismo.
6. O anjo guardião é um presente da divina providência. Ele nunca falha ou abandona seu trabalho. As vezes, nos trabalhos da providência, o homem deve passar por problemas. Isto não pode ser prevenido pelo anjo guardião.
7. Anjos guardiões não lamentam as doenças que sobressaem seus pupilos. Pois todos os anjos gozam constantemente da visão beatificada e são cheios de alegria e felicidade para sempre. Anjos guardiões não desejam o pecado que seus pupilos cometem, nem desejam diretamente a punição para esse pecado. Eles desejam o cumprimento da justiça divina, qual requer que ao homem seja permitido o livre arbítrio, para cometer pecados se ele assim escolher, suportar julgamentos e problemas e sofrer a punição.
8. Todos os anjos estão de pleno acordo com a vontade divina que lhes é revelada. Mas pode acontecer que nem todos os anjos tenham as mesmas revelações da vontade divina para seus diversos ministérios, e então, entre os anjos pode surgir um conflito, discórdia ou contenda. Isto explica o que está ditto em Daniel 10:13 sobre o anjo guardião dos Persas resistindo "por vinte e um dias" a oração de Daniel oferecida pelo Arcanjo Gabriel.

1. Tentar significa uma de duas coisas: (a) fazer um teste ou julgar; como "Deus tentou a Abraão" (Gen. 22:1); (b) convidar, incitar ou enganar alguém para cometer pecado. É no segundo sentido da palavra que anjos caídos tentam seres humanos. Deus permite esse ataque dos demônios sobre os homens e transforma isso em uma oportunidade humana e benefício. Deus dá aos homens toda ajuda requisitada para repelir os ataques dos demônios e avançar na graça e merecimento resistindo a tentação.
2. Ao diabo (que é Lúcifer caído, agora Satanás) pertence exclusivamente o plano e campanha dos ataques dos demônios sobre a humanidade.
3. De uma maneira o diabo é a causa de todo o pecado humano. Ele tentou a Adão e assim contribui para a queda que deixa o homem inclinado a pecar. Mas em um sentido estrito, a influência diabólica não entra em todo pecado do homem. Alguns pecados vem da fraqueza da natureza humana e de apetites fora do comum que o pecador permite prevalecer livremente.
4. Anjos não podem praticar milagres; portanto demônios também não. Mas demônios podem fazer coisas espantosas e podem causar real destruição.
5. Quando o ataque dos demônios é repelido, o diabo não é deixado incapaz de mais ataques. Mas parece que não pode retornar imediatamente ao ataque. Somente depois do lapso de um tempo definido. A misericórdia de Deus tão bem como a perspicácia do tentador parecem prometer tanto.