OS ANJOS – LIVRO DE DOM VONIER

Quem quer que pretenda expor o pensamento católico sobre a natureza dos anjos, a menos que se trate de trabalho estritamente técnico, depara-se com a feliz mistura do certo, do muito provável e do possível, que acabam por compor uma verdadeira filosofia. O espírito conservador e o espírito liberal fundem-se, naquela mistura, em um todo homogêneo. Assim, nas páginas que se seguem, nem tudo será matéria de fé. É impossível em opúsculo deste gênero fornecer para cada proposição sua precisa nota teológica, distinguindo o que é estritamente de fé das conclusões e das felizes inspirações de espíritos versados nas coisas divinas.

Por outro lado, podemos ficar edificados e colher real instrução nos ensinamentos de teólogos e pregadores, mesmo quando não sejam matéria de fé, mas legítima especulação de espíritos habitualmente em harmonia com a verdade revelada. A Sagrada Escritura é a mais elevada autoridade sobre a história, a vida e a natureza dos anjos. Há grande unidade na maneira pela qual os diversos livros da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, apresentam as notas características dos anjos. O tipo angélico jamais muda, sendo possível afirmar que ele não se desenvolve, como ocorre com os outros seres revelados que, de século em século, progridem e se afirma no que os anjos fazem em Betei fazem-no igualmente no tempo de Cristo. "Sobem e descem sobre o Filho do Homem" (Jo 1,51). O Querubim que "gira a sua espada flamejante na guarda do caminho da árvore da vida" (Gn 3/24) é visão tão formidável como as registradas nas angelofanias encontradas em Ezequiel ou no Apocalipse. Não encontramos na angelologia a revelação progressiva do mistério, característica de nossa Cristologia.

O mistério do Homem-Deus é revelado gradualmente ao espírito humano. Não se dá o mesmo com os anjos. Eles foram manifestados completamente desde o início, e, ainda que no decurso dos séculos eles ponham, em relevo este ou aquele gênero de atividade, sua conduta, sua atividade essencial é sempre a mesma.

Em nenhuma parte da Escritura encontramos um ensinamento ex-professo sobre os espíritos do mundo Invisível, nem qualquer revelação de sua misteriosa existência. Os escritores inspirados têm por admitida essa existência e citam os anjos unicamente em relação com a história humana, com a do povo de Deus, com a história de Cristo.

Nada é mais fortuito e inesperado, não importa em que parte da Sagrada Escritura, do que a menção dos anjos. Não se sabe se é necessário esperar ou não o aparecimento de um deles. Não há qualquer espécie de acontecimento do qual se possa afirmar que comportará a manifestação de um anjo. Um mesmo acontecimento ocorre tanto pelo ministério dos anjos como pelo curso natural das coisas.

É possível, pois, dizer que nossos livros inspirados iluminem o mundo angélico como poder completo, bastando-se a si mesmo, inexplicável, que não pode ser modificado pela sequência dos acontecimentos humanos, mas que, ao contrário, pode influenciar, à sua vontade, os acontecimentos. Consideremos ainda não distinguirem as Escrituras, claramente, em cada caso, a Intervenção angélica da intervenção divina.

O visitante celeste, que chamamos anjo, passa, às vezes subitamente, ao desempenho de uma missão manifestamente divina. Tal fato é particularmente observável na mais antiga das grandes angelofanias da Bíblia.

O anjo, que de bom grado chamaríamos anjo da família de Abraão, o mensageiro celeste que fala a Agar, mulher de condição servil, é, ao mesmo tempo, anjo e Senhor da vida: "O anjo de Javé encontrou Agar no deserto, nas proximidades de uma fonte, no caminho de Sur. E diz: Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para aonde vais? Respondeu ela: Fugi para longe de Sarai minha senhora. O anjo de Javé retruca: Volta para tua senhora e humilha-te sob sua mão. E o anjo acrescentou: Multiplicarei extraordinariamente tua posteridade. Será ela tão numerosa que não poderá ser contada!" (Gn 16,7-10).

Em compensação, a visão de Jacó é talvez o exemplo mais impressionante oferecido pelo Gênesis para diferenciar uma infestação angélica de uma manifestação divina. "E Jacó teve um sonho: via uma escada que, apoiando-se na terra, tocava o cimo do céu, e anjos de Deus subiam e desciam por ela. No alto estava Javé, que lhe dizia: Eu sou Javé, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaac. Darei a ti e à tua posteridade essa terra em que estais deitado" (Gn 28,12-13).

No grande período que precedeu o dilúvio, não houve manifestação de anjos, nem mesmo há menção de alguma ajuda que tivessem prestado a Noé em suas provações e perigos. O ministério dos anjos, como tal, começa com a história do povo judeu.

Na história da criação não há sequer vestígio de menção sobre eles. E o fato de falar-se do espírito do mal, antes de qualquer outro poder do mundo invisível, mostra, à evidência, que o escritor inspirado empenhou-se apenas em retratar a história do homem e de suas vicissitudes. A história dos espíritos não é tema bíblico.

Podemos comparar a atitude da Bíblia em relação aos espíritos, à sua atitude, relativamente a essa parcela da raça humana, que não pertencia nem ao povo judeu nem à Igreja de Cristo.

Os povos que não são da raça eleita, entram em contato muito frequentemente com essa raça e são, inclusive, chamados n ajudar o povo de Deus de maneiras diversas. As alusões a respeito disso nas Escrituras têm grande importância histórica, mas a Bíblia, que fornece tais informações sobre os povos não-judeus, não é, por isso, em sentido lato, uma história da humanidade.

De igual forma, os historiadores e escritores Inspirados, ao tratarem apenas da carreira sobrenatural do homem sobre a terra, revelaram, não obstante, muitas coisas concernentes ao mundo invisível. Mas, sempre acidentalmente e na medida em que tais coisas tinham vinculação com a felicidade eterna do homem Devemos ter sempre diante dos olhos essa relativíssima posição da angelologia na Escritura, e esperar dela apenas fragmentos da "história angélica", embora bem preciosos e extraordinariamente instrutivos.

Não está no plano desta obra citar e explicar todas as alusões escriturísticas a respeito dos espíritos. Cada leitor, por iniciativa própria, poderá encontrá-las. Podemos adotar como divisão geral para agrupar as referências feitas aos anjos, nas Escrituras, os quatro pontos; histórico, litúrgico, teológico, profético.

A angelofania histórica abarca todas passagens da Bíblia, relacionadas com um trabalho executado pelos anjos, em que estes transmitiram uma mensagem ou prestaram ajuda à humanidade, desde os tempos de Agar até os de Pedro, em sua prisão. Tais atividades são narradas como fatos históricos ordinários e jamais são colocadas em relação com os anjos, como multidão, mas unicamente como espíritos individuais.

Vêm, em seguida, as alusões litúrgicas à presença dos anjos diante da Majestade divina: esses textos abundam nos salmos. Davi fez profissão de fé de cantar os louvores de Deus na presença dos anjos. A "multidão dos exércitos celestes canta a glória de Deus", por ocasião da Natividade do Senhor. Ambas essas ocorrências podem ser consideradas sob esse aspecto litúrgico.

Do ponto de vista teológico, há as passagens em que 08 espíritos celestes são mencionados não mais em relação com a Majestade divina, nem com missão a cumprir, mas como parte do mundo sobrenatural. Assim ocorre, por exemplo, quando São Paulo afirma ter sido o Senhor elevado e colocado à direita de Deus nos céus, acima de todo o principado, de todo o poder, de toda a virtude e de toda a dominação (Ef 1,21); quando a Carta aos Hebreus registra ter o Cristo se aproximado da Montanha de Sião, da cidade de Deus vivo, da Jerusalém celeste e de milhões de anjos (Hb 12,22), ou ainda quando o próprio Cristo afirma que proclamará o nome de suas testemunhas fiéis diante dos anjos de Deus (Ap 3,5), ou que há alegria diante de Deus por um só pecador que se arrepende (Lc 15,10).

A função do anjo da guarda pode assim ser considerada, como fazendo parte do aspecto teológico da. angelologia, pois aqui, pelas palavras do Senhor: "Digo-vos que os seus anjos no céu veem sem cessar a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10), e as Escrituras nos revelam um lado do mundo espiritual que é mais que uma missão transitória.

As alusões proféticas são numerosas no Apocalipse, onde os anjos aparecem como cumpridores de grandes obras em misterioso futuro. Os próprios Evangelhos nos mostram, igualmente, certas referências proféticas como aquela de Cristo quando afirma, por exemplo, que "enviará seus anjos para reunir seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu" (Mc 13,27).

Se nos dermos ao trabalho de reunir todas as angelofanias das Escrituras, recolheremos, facilmente, uma impressão conforme o sentimento cristão tradicional no concernente aos anjos.

Como já disse, o caráter deles é claramente definido desde o começo. Não muda. A pressa que revelam no cumprimento das ordens de Deus iguala-se ao poder para bem conduzi-las. Nada resiste à vontade dos anjos, que jamais fracassam.

Fala-se sempre deles, como sendo o bem de Deus, e nunca o futuro deles inspira o menor temor. Executam as ordens divinas com implacável firmeza. Agem sem mercê, quando são enviados como ministros da justiça divina, e nada pode afastá-los de sua aparente severidade.

Os anjos permanecem diante do brilho da Face de Deus, mas, ao mesmo tempo, a mais humilde das coisas da terra toma-se objeto de sua solicitude, como quando Rafael, por exemplo, foi à cidade dos Medos para encontrar Gabael e pedir que reconhecesse e pagasse o que devia a Tobias (Tb 9).

Jamais é possível descrever os anjos em luta com o demônio: este é vencido sempre, unicamente pela força da presença angélica. A Escritura nos ensina ainda que os anjos nunca são tentados, nem experimentam sofrimento.

Estudá-los nos transporta a um mundo inteiramente diferente do nosso, mundo onde a norma é uma esplêndida riqueza espiritual, e onde a queda moral ou munlal é desconhecida.

Entretanto, nenhuma manifestação angélica descrita na Bíblia ensina algo de pessoal sobre um ou outro anjo.

Na verdade, há na Sagrada Escritura grande variedade desses seres espirituais, uns mais importantes ou que  missões de que os outros são excluídos. Não se pode, contudo, dizer que aprendemos bastante a respeito desses autores celestes na cena deste mundo, ao passo aprendemos a amar, a admirar a sofrer com atores humanos reais como Moisés, Elias, Paulo e, acima de tudo, çom o próprio Cristo.

O anjo mais próximo dos sentimentos humanos é aquele que reconfortou o Senhor, durante sua agonia no jardim das Oliveiras. "Então lhe apareceu um anjo do céu, que o consolava. E, estando em agonia, orava mais insistentemente" (Lc 22,43). Todavia, ainda nessa circunstância, o consolador celeste permanece divinamente anônimo!

Tudo isso confirma a verdade já registrada de não serem os anjos tema principal, mas exclusivamente um motivo acidental, acessório, nas Escrituras.

Há outra fonte muito autêntica de informações relativas à vida, ao poder e ao caráter angélicos: é o culto da Igreja, tanto sob o aspecto sacramental como sob o aspecto litúrgico.

Mas, ainda aí encontraremos os dois traços característicos aos quais as Escrituras nos acostumaram: a distância que separa o anjo do homem, de um lado e, de outro, a ajuda espiritual que dele recebe.

A Igreja considera os espíritos como colaboradores na santificação do mundo e como irmãos na adoração oferecida a Cristo. A fé que tem a Igreja nos anjos da guarda deve ser considerada à parte, pois, não se trata aí de decisão da Igreja, mas de lei do próprio Criador.

O que importa compreender é que, ao lado da guarda universal de que os homens gozam por parte dos anjos, e de que trataremos adiante, a Igreja os invoca com a maior liberdade, em seus sacramentos e em sua vida litúrgica.

A Igreja, parecendo ignorar toda restrição em seu poder de santificar as coisas visíveis, dirige-se a Deus para que envie os espíritos celestes, faça-os permanecer nos lugares abençoados por ela, confie-lhes a guarda do que ela santificou e leve-os a cumprir a promessa por ela feita de proteger contra os maus espíritos..

O antigo Ritual Romano é dos mais instrutivos sobre a matéria. As grandes bênçãos da Igreja, que, em suma, são.uma extensão do poder sacramental, são muito audaciosas no seu apelo à intervenção angélica.

Se a Igreja benze uma ponte lançada sobre um regato, conta, confiantemente, que um anjo do Senhor ficará encarregado de guardá-la. A Igreja roga a Deus que deixe um anjo guardando o veículo por ela abençoado. Os anjos são chamados à casa do doente, ao lar dos recém-casados, nos locais onde as crianças aprendem sua religião e o alfabeto. Dir-se-ia não haver aos olhos da Igreja quaisquer limites à possibilidade de delegar aos anjos o que quer que seja. Por toda a parte onde os espíritos malignos são expulsos, os bons espíritos ocupam seu lugar.

Na liturgia, propriamente dita, os anjos desempenham papel de destaque. Estão presentes no Sacrifício Eucarístico: uma das preces mais misteriosas e mais sagradas do antigó Cânon da missa referia-se a um anjo cuja identidade permanece desconhecida, decorridos embora numerosos séculos que essa prece era recitada: "Nós vos suplicamos, ó Deus Todo-Poderoso, ordenar esses dons conduzidos ao vosso altar sublime, em presença da vossa divina Majestade, pelas mãos de vosso Santo anjo, a fim de que todos nós sejamos repletos de graça e bênção celeste." Quando o incenso era queimado sobre as oferendas colocadas no altar, ocorria n Intercessão a São Miguel, "de pé, à direita do altar dos perfumes", o que emprestava doçura nova ao perfume daquele incenso que se evolava.

Finalmente, temos a glória de unir-nos com os anjos em cada Prefácio do ano litúrgico: "É por ele que os anjos louvam vossa Majestade, as Dominações a adoram, as Potências a reverenciam com temor, os Céus, as Virtudes dos Céus e os bem-aventurados Serafins celebram todos juntos vossa glória com transportes de alegria. Pedimos-vos conceder que, formando uma só voz, digamos humildemente com eles: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo..."

As liturgias ocidental e oriental podem fornecer-nos muitos outros testemunhos da fé da Igreja, na assistência dos espíritos celestes em redor do altar cristão.

Tais liturgias nos são seguríssimo guia para apreciar a natureza de nossa participação, na sociedade dos espíritos do mundo invisível.

Estamos absolutamente convencidos da cooperação desses espíritos em nossos trabalhos, e do amor que têm por nós, embora nos faltem detalhes sobre esse misterioso comércio.

Se a Sagrada Escritura é muito clara e precisa a respeito do caráter espiritual dos anjos, o mesmo na o ocorre, quando se trata de apresentar esses seres misteriosos às nossas faculdades humanas.

Ná há, na Bíblia, uniformidade em relação a representações dos anjos.

As mais detalhadas descrições como, por exemplo, a visão dos Serafins em Isaías e dos anjos em Daniel, de maneira absoluta, toda a pintura.

É dificílimo para nós "realizar" e ver as cenas, entretanto, tão cuidadosamente descritas pelos profetas, por faltar-nos experiência nessas matérias.

Os Anjos da Ressurreição e da Ascensão são os que nos parecem mais humanos: "Entrando, então, no sepulcro, viram eles um jovem assentado à direita, vestido com túnica branca" (Mc 16,5). "E, como fitassem o céu enquanto ele se ia, eis que apareceram junto deles dois homens vestidos de branco" (At 1,10).

No culto prestado pelos cristãos aos anjos, o primeiro ponto a ressaltar é precisamente o esforço de tomar visível o invisível, dando forma corporal a esses espíritos celestes.

As primeiras imagens cristãs dos anjos se relacionam com as aparições históricas desses espíritos, que tiveram, sob nome bem definido, uma missão no Novo Testamento. Até ao século V não existia outra imagem dos anjos na arte çristã.

Os anjos têm ordinariamente forma humana, e os seus nomes estão escritos ao lado deles para evitar todo o erro de identificação.

O mesmo foi feito com os apóstolos e os mártires. Não é senão pelo V século que começam a ser encontrados prosaicos, pinturas ou esculturas de anjos, em geral, sem referência histórica bem precisa. É por essa mesma época que começa a prevalecer o sinal bem distintivo das asas fixadas no corpo. Esse único fato encerra todo um capítulo do desenvolvimento religioso. É em Isaías que encontramos a primeira menção a asas nos espíritos: "No ano da morte do rei Ozias, vi o Senhor sentado sobre um Trono muito elevado, e as franjas de suas vestes enchiam o templo. Serafins se prostavam diante dele: um tinha seis asas e o outro igualmente seis. Cobriam suas faces com duas dessas asas, com duas cobriam os pés e de duas serviam-se para voar" (Is 6,1-2).

Não está, contudo, provado que o costume universal, de origem bizantina, de representar os anjos com asas, lenha-se inspirado na visão de Isaías.

Os Serafins, tal como nos descreve esse grande vidente, são um dos tem as mais difíceis de ser materializados pela arte.

Os anjos de duas asas são, antes de tudo, espontânea criação da imaginação cristã, que observou nessas matérias a tradição artística, o sentido e a intuição das antigas civilizações do Oriente.

A arte grega ou romana colocava, com grande frequência, asas em seres sobre-humanos. É assim que vemos a deusa Vitória invariavelmente dotada de um glorioso par de asas. O mesmo acontece com grande número de gênios.

Que artistas cristãos de todas as ordens tenham reproduzido seres sobre-humanos da mesma maneira que os pagãos não surpreende mais do que ver um hino a Zeus cantado em melodia mais tarde adaptada a hino cristão, ou constatar a métrica pagã adotada por hinólogos católicos.

Dois traços da arte clássica antiga, particularmente notáveis, foram utilizados para os anjos. Gênios ou semi - deuses são representados em antigas superfícies planas, ornadas de pinturas, e nos sarcófagos, conduzindo os privilegiados da raça humana às regiões etérias, ou ainda, pesando as almas dos homens nas balanças da Justiça.

Essas duas representações são das mais frequentes na arte cristã: os anjos conduzem os eleitos aos céus e pesam as almas nos pratos da balança, no julgamento final. Essas adaptações cristãs são observáveis, sobretudo, no período em que o paganismo cedia, enfim, lugar ao Evangelho, sob os primeiros imperadores cristãos. As estátuas da Vitória são frequentemente ornadas de símbolos cristãos como, por exemplo, o lábaro, e autênticos medalhões pagãos de Mercúrio trocam de significado, ao ser gravado neles o nome "Miguel". Talvez um colecionador de arte, penalizado de separar-se de uma peça de estimação, tivesse tido a ideia de assim cristianizar seus Hermes como arcanjos (cf. "Dictionnaire d'Archeólogie Chritienne, Anges")

A partir do século VI, fixou-se o tipo de anjo. Com exceção dos Serafins de Isaías, que foram sempre o desespero dos desenhistas, os anjos ostentam corpo, cujas linhas não acusam qualquer sexo. São revestidos de largos ornamentos, cujas dobras caem majestosamente.

As cabeças aladas, às vezes, encontradas são a expressão de uma beleza, que. não é nem masculina nem feminina.

Deve-se ao barroco e ao rococó do fim da Renascença a degradação do tipo majestoso do mais belo período da arte cristã.

Será possível chamar de anjos a essa legião de personagens nus, em gesso ou mármore, que povoam as Igrejas do continente, de um a outro extremo da Europa?

Dificilmente encontrar-se-ia qualquer princípio que justificasse essas obras de nossos artistas cristãos. Todavia, para nossa consolação nesse período de extravagâncias, no exato momento em que eram mais medíocres as representações artísticas dos seres espirituais, as escolas teológicas produziam na Igreja algumas das mais profundas especulações, sobre a natureza e o poder dos anjos.

Ao olhar as coisas de perto, nosso conhecimento do mundo angélico não fez os progressos constatados na arte. Não conhecemos outros anjos senão os já conhecidos no I século: Miguel, Gabriel e Rafael, que são os únicos nomes autênticos dos anjos.

No decurso dos primeiros séculos da Igreja encontramos, entretanto, com muita frequência, inclusive entre os ortodoxos, um outro anjo chamado Uriel. Ele é invocado em algumas das antigas litanias e passou por ser o anjo, que interditava a entrada do Paraíso terrestre perdido, empunhando a espada de fogo.

Em nossos dias, contudo, somente os nomes de Miguel, Gabriel e Rafael são admitidos.

O culto dos anjos também comportou superstições. Os antigos egípcios reconheciam um anjo da guarda do túmulo, encarregado de assegurar sua inviolabilidade. Os gnósticos tinham mistérios angélicos que lhes eram próprios: conhecer o verdadeiro nome dos "sete que se postavam diante de Deus" era um talismã. São Paulo faz alusão à deformação que já começava a atingir uma das principais verdades: "Que ninguém vos faça perder a palma do combate, por afetação de humildade e de culto dos anjos, enquanto se perde em coisas que nunca viu, e se enche de vão orgulho pelos pensamentos da carne" (Cl 2,18).

Na Igreja, o desenvolvimento intelectual do culto angélico ultrapassou de muito o desenvolvimento litúrgico e artístico. Se, algumas vezes, a arte andou bem perto de tomar os anjos vulgares, de fazer deles uma espécie de fadas, a teologia, tanto mística como especulativa, resgatou largamente esta degradação.

Tomaram-se os anjos, para o pensador cristão, uma espécie de seres infinitos, embora de segunda ordem, dotados de poder de espírito e de vontade quase ilimitados.

A obra clássica por excelência sobre angeologia, "A hierarquia celeste", data, provavelmente, da segunda metade do V século. É obra de autor anônimo conhecido como Dionísio Areopagita.

Nessa obra o autor classifica os espíritos angélicos em nove coros, e esses nove coros em três tríades. Voltaremos no assunto, mais de uma vez, ao longo desta obra.

A doutrina da iluminação hierárquica parece ser contribuição pessoal do autor. Não existe traço muito nítido dessa doutrina na Escritura.

Trata-se, porém, de feliz e genial aplicação a um caso particular, do princípio teológico, em toda a parte admitido, da interdependência das criaturas e da unidade do universo criado.

As manifestações angélicas relatadas na Escritura fazem parte da Fé Cristã tradicional e pertencem à mais autêntica história do povo de Deus.

Surge, contudo, a questão de saber se tais manifestações angélicas fazem parte da vida normal da Igreja cristã, em sua grandiosa marcha ao longo dos séculos. É evidente que, quaisquer que tenham podido ser as angelofanias, depois que foi escrito o último livro das Escrituras, essas manifestações não podem ser tomadas senão como fatos históricos e, de maneira nenhuma, como fazendo parte integrante do depósito revelado.

É de fé estarem os espíritos celestes, de uma ou outra forma, associados à vida dos cristãos neste mundo, como exporemos mais adiante. Todavia, a questão aqui colocada refere-se às angelofanias miraculosas, como aquela concedida a São Pedro no momento de sua libertação da prisão.

Há, nos anais da história da Igreja, intervenções certas e indubitáveis de espíritos celestes, em circunstâncias facilmente controláveis?

Existe certamente uma presunção a priori favorável a tais manifestações. Podemos mesmo afirmar pertencerem elas aos carismas ordinários da Igreja.

Os fenômenos espirituais que se produziam na Igreja primitiva eram a normal característica da vida comum da Igreja, porque a Igreja primitiva é a Igreja ideal.

E é por isso que se tomou possível escrever a história da intervenção angélica tanto quanto a dos mártires ou das expedições missionárias. Essa missão foi executada com grande cuidado e com método perfeitamente sábio por esses príncipes da hagiografia cristã, que são os Bolandistas.

Na Acta Sànctorum por eles composta, na data de 29 de setembro, festa do Arcanjo São Miguel, fazem os Bolandistas aprofundado estudo de todas as angelofanias conhecidas na história da Igreja. Esses sábios historiadores estudam, separadamente, cada época, a partir do II século, sob títulos muito sugestivos, como, por exemplo: "Beneficia angelorum saeculo quarto" (Os benefícios dos anjos no século quarto).

Nada é mais fácil, por conseguinte, de ter-se, graças ao estudo criativo e aproximado dos Bolandistas, uma Impressão geral das intervenções miraculosas que favoreceram o povo cristão, no decurso de sua longa história.

As intervenções de São Miguel foram consideradas à parte nas Acta Sanctorum , com caráter ligeiramente diferente das angelofanias comuns na Igreja Católica.

Mais de uma vez, embora menos frequentemente do que se pode imaginar, São Miguel, Chefe das milícias celestes, ajuda guerreiros cristãos a triunfar no campo de batalha. Aliás, São Miguel tem, na Europa Ocidental, dois grandes santuários onde os reis e os povos iam em peregrinação, da mesma forma que ao túmulo dos Apóstolos. O Monte Gárgano, no sul da Itália, e o Monte São Miguel, nas costas da Normandia, foram, desde a alta Idade Média, verdadeiros santuários, angélicos. Acreditava-se que o príncipe celeste distribuía, nesses sítios, seus favores e aí recebia o peregrino com toda a nobre graciosidade de um poderoso senhor.

Se examinarmos as outras angelofanias, século por século, somos tomados de admiração pela sua sobriedade o seu caráter humano muito acentuados.

Jamais, salvo raras exceções, encontraremos no decurso da história aspecto aterrorizante nas manifestações dos anjos, da mesma forma que não vemos os anjos tomarem, ostensivamente, parte nas grandes lutas do povo cristão. Mesmo as cruzadas, que teriam sido propícia ocasião para uma brilhante intervenção dos exércitos celestes, são notavelmente mudas a respeito de feitos tão gloriosos.

De tempos em tempos um grupo perdido de cruzados, sedentos e desencorajados, é tirado de um deserto sem saída por um misterioso estrangeiro, que desaparece, uma vez passado o perigo. No conjunto, contudo, o ministério dos anjos, tal como descrito na história da Igreja, assume caráter bem mais privado, íntimo mesmo.

Os anjos vêm consolar os mártires nas prisões e curam suas feridas como bons samaritanos. Cuidam dos corpos dos heróis cristãos, expostos pelos carrascos a vergonhoso abandono. São os anjos que alimentam os eremitas e indicam aos primeiros legisladores monásticos o que é sábio e o que é excesso no ascetismo cristão. São os anjos que ajudam o solitário a triunfar sobre a solidão habitada pelo demônio. São eles ainda que previnem da morte próxima alguns servidores de Deus, retirados do mundo. São os anjos, enfim, que transportam para os céus a alma de alguns santos.

Desde os primórdios da história eclesiástica, vemos os anjos intimamente associados ao Mistério Eucarístico. Assistem eles de forma visível ao Santo Sacrifício da Missa. Levam o Sacramento do Corpo do Senhor a cristãos solitários que, sem isso, teriam ficado privados desse alimento celeste. E, coisa ainda mais admirável, no coração mesmo do catolicismo, em uma comunidade religiosa, vê-se um anjo levar a Santa Comunhão a uma alma privilegiada como marca de especial favor. Santo Isidoro, o Lavrador, é ajudado em seu humilde trabalho por anjos que se tomam seus companheiros de labor. É um anjo, igualmente, que cinge os rins de São Tomás de Aquino com o misterioso cinto da perfeita castidade, fato absolutamente à parte na vida do grande doutor, porque não foi vista nenhuma inteligência celeste soprar-lhe nos ouvidos os segredos da teologia católica: o ministério angélico é, para ele, de natureza muito mais íntima e pessoal. Santa Francisca Romana é favorecida pela constante visão de um anjo, cujas atenções pela sua protegida são extremamente delicadas, tanto no espiritual como no temporal. Santa Teresa viu os anjos conduzirem, como em triunfo, o corpo virginal de uma de suas religiosas falecida, e Santo Estanislau Kotska, preso na casa de um herege em Viena, recebe o Santo Viático da mão de um anjo. É um anjo ainda quem leva ao enfermeiro de São Felipe Neri o pedaço de açúcar, permitindo dar ao santo o remédio de que tanto necessitava.

Muito frequentemente, em mais de uma abadia medieval, foram ouvidos anjos alternando com os monges na salmodia divina, quando estes necessitavam de encorajamento, durante a penosa vigília de uma fria noite de inverno.

Tais são as angelofanias características encontradas na história da Igreja. Há aí, em todos os tempos, uma doce uniformidade.

Não é, pois, admissível dizer-se que os anjos atravessam , entreabrindo o véu do m istério e se manifestam, não para assustar os cristãos e dominá-los, mas para sorrir-lhes com o sorriso do amor e da compaixão?  

É digna de nota a parcimônia com que as Escrituras se referem à natureza, à vida e à atividade desses seres maravilhosos, que chamamos anjos. Manifestam-se eles para cumprir missão bem definida, para transmitir uma mensagem e desaparecem tão repentinamente, como tinham entrado em cena. O único traço dos anjos que as Escrituras parecem distinguir com clareza é exatamente naquela agilidade de movimento, aquela liberdade em relação às rigorosas leis do espaço, precisamente a peculiaridade da natureza angélica que maior atração exerce sobre a imaginação humana.

Seria, todavia, inexato afirmar que tudo ignoramos da natureza dos anjos. A teologia católica tem seus próprios recursos e,no concernente às existências angélicas, chegou a determinadas conclusões que, em seu conjunto, podem ser consideradas como expressão da verdade.

O pensamento humano não se satisfaz em conferir desempenho puramente ministerial aos espíritos celestes. Os anjos são mais que ministros e mensageiros. Acima de tudo, são parte do universo, a parte mais nobre. E, muito cedo, na história do pensamento cristão, encontramos anjos ocupando importantíssima posição cósmica.

Há estabilidade de poder e de vida no mundo dos espíritos, e os anjos transformaram-se nos grandes seres sobre os quais, como sólidos fundamentos, repousa o mundo. Este ponto de vista é certamente esboçado nas epístolas de São Paulo, quando o apóstolo fala do Cristo elevado "muito acima de qualquer Principado e Autoridade e Poder e Soberania e de todo nome que se pode nomear não só neste século, mas também no vindouro" (Ef 1,21).

Nossa teologia parte do princípio de que os anjos são puros espíritos e podemos ter como verdade tudo quanto pode ser deduzido desse princípio. Não podemos, talvez, ir muito longe. Contudo, ao constatarmos as volumosas obras escritas pelos melhores teólogos sobre o assunto, devemos admitir a possibilidade de muito poder escrever sobre o assunto, sem cair em especulações extravagantes.

Certas épocas deixaram-se trair por essas especulações, o que pode acontecer a toda filosofia, mas tais excessos em nada atingem trabalhos de um gênio tão sóbrio como São Tomás de Aquino, para citar apenas um entre os maiores e humildes teóricos dos anjos.

A orle católica e a teologia parecem conflitantes a respeito dos seres angélicos. Com efeito, a arte católica lhes empresta cor física, beleza visível, enquanto que, de modo contrário

a teologia católica se esforça por esvaziá-los de todo elemento de materialidade e visibilidade. Basta, porém, ter bom senso para alcançar a paz nessa controvérsia insolúvel.

Tais como somos agora, em nosso estado mortal, não nos é possível pensar através de elementos puramente espirituais. Temos necessidade do socorro de nossa fantasia. E a imaginação mais rica será a que gerar a mais satisfatória visão dos mensageiros celestes.

Todavia, é absolutamente necessário admitirmos que a realidade angélica é diferente, incomparavelmente diferente e infinitamente mais bela do que podemos Imaginar. Não devemos ficar tristes ao tomar conhecimento de que nossa visão dos anjos, se é que temos uma, não representa o celeste visitante em seu estado real, pois ele nos aparece em traços tomados à imaginação.

Quais são as conclusões corretas a serem tiradas do princípio de que os anjos são espíritos? Os enunciados discriminados a seguir podem ser tomados como teses geralmente aceitas a respeito da existência dos anjos:

l — Os anjos têm começo, mas não podem perecer. Permanecem perpetuamente idênticos a eles mesmos.

2 — Os anjos não estão sujeitos às leis do tempo, mas têm uma medida de duração que lhes é própria.

3 — Os anjos situam-se de maneira absoluta acima do espaço, sem jamais poderem ser submetidos às suas leis.

4 — Os anjos exercem seu poder sobre o mundo material, diretamente pela vontade.

5 — A vida dos anjos é dotada apenas de duas faculdades: inteligência e vontade.

6 — No que toca à ordem natural, o anjo não pode errar, nem em sua inteligência nem em sua vontade.

7 — O anjo jamais volta atrás de uma decisão que tenha tomado.

8 — O espírito angélico não é como o espírito humano, sujeito a um desenvolvimento gradual. Desde o início surge com plenitude de conhecimento.

9 — O anjo pode influenciar diretamente uma outra inteligência criada, mas não pode agir diretamente sobre outra vontade criada.

10— Os anjos são dotados de livre-arbítrio. São capazes de amar e odiar.

11 — Os anjos conhecem as coisas materiais e individuais.

12 — Os anjos não conhecem o futuro, nem os pensamentos secretos das outras criaturas racionais, nem os mistérios da graça, a menos que tais coisas lhes sejam livremente reveladas por Deus ou por essas outras criaturas racionais.

Essas proposições relacionam-se com o estado de natureza dos anjos. Todavia, o anjo foi elevado ao estado sobrenatural, ao estado de graça, e em relação a esse estado, há outros princípios admitidos pelos teólogos; vamos reservá-los para o próximo capítulo, que trata de sua santidade.

() enunciado das referidas teses é absolutamente claro. É fácil compreender o sentido das palavras, apesar da existência de dificuldades em conformar a elas a visão habitual do nosso espírito. Tais teses abarcam praticamente todo o campo de teologia dos anjos. Tudo o que vai além não passa de sutileza.

Ensinam as Escrituras a existência de hierarquia entre os anjos. Há anjos maiores, talvez imensamente maiores, e outros menores; mas seria temerário, e até insensato, arriscar uma explicação para tais diferenças, em se tratando de substâncias espirituais.

Por que um espírito é maior que outro? Não sabemos dizê-lo. Podemos, bem entendido, afirmar que um espírito é maior, porque sua inteligência é mais poderosa, porque apreende as coisas de forma mais simples e mais límpida, porque vê, num único ato intelectual, o que outros espíritos de ordem inferior não podem perceber, senão através de diversos atos. É evidente, contudo, não nos dar tudo isso o fundamento da grandeza dos anjos. Os anjos maiores podem compreender e ver assim porque suas faculdades intelectuais são maiores. E por que são maiores? Porque sua natureza é maior. Mas como sua natureza é maior? Para tais perguntas os filhos dos homens não têm resposta.

Assim, nossa teologia dos anjos ocupa-se dos traços angélicos gerais e não de seus atributos especiais. Não sabemos mais dos anjos mais elevados do que dos menores. Conferimos aos anjos atributos genéricos, que pertencem a todas as substâncias espirituais finitas, com exceção da alma humana.

Podemos agora dar uma explicação sobre cada uma das proposições enunciadas anteriormente.

1 — OS ANJOS TÊM COMEÇO, MAS NÃO PODEM PERECER.

PERMANECEM PERPETUAMENTE IDÊNTICOS A ELES MESMOS.

Os espíritos, da mesma forma que a matéria, foram criados do nada pela onipotência de Deus. Não são parte da Substância divina, como não o são também uma pedra ou uma árvore, más se assemelham à divina Substância, de forma muito piais perfeita, de maneira que, comparativamente, podemos chamá-los divinos, pelo fato de a semelhança de Deus encontrar-se neles de uma maneira não encontrada no resto da criação.

Não sabemos se todos os espíritos atualmente existentes foram criados no mesmo momento ou em várias criações.

Nenhum espírito finito pode criar um outro, e é mais conforme ao pensamento católico afirmar que Deus criou todos os anjos no mesmo ato.

A distância que separa o momento presente do da criação do mundo dos espíritos não é evidentemente calculável por quaisquer medidas de tempo.

A substância espiritual, uma vez produzida por Deus não pode decair. Pode agir mal, tanto pela inteligência como pela vontade, mas sempre será substância perfeita. Não muda no que tem de essencial, nem se deteriora em natureza. Mal podemos dizer que ela é imortal, porque a palavra imortalidade não exprime exatamente o sentido dessa permanência.

Um espírito é simplesmente inalterável. Suas mudanças não apenas mudanças do pensamento ou da vontade.

2 — OS ANJOS NÃO ESTÃO SUJEITOS ÀS LEIS DO TEMPO, MAS

TÊM UMA MEDIDA QUE LHES É PRÓPRIA.

O cardeal Newman, de maneira belíssima, exprimiu isso no seu "Sonho de Geronte":

"Porque os espíritos e os homens contam por medidas diferentes o menos e o mais no decurso do tempo.

Pelo sol e a lua, leis primitivas, pelas estrelas que se levantam e harmoniosamente se deitam...

Pelo retomo das estações e o balanço, de um lado para outro, da haste do pêndulo.

Precisa e pontualmente os homens dividem as horas, iguais, contínuas, para seu uso comum.

Não ocorre, porém, assim entre nós no mundo imaterial, onde os intervalos, em sua sucessão, são unicamente medidos pelo pensamento vivo e crescem ou diminuem com sua intensidade.

E o tempo não é propriedade comum, mas o que é longo e curto e lento o que é rápido.

O que é próximo está longe, segundo o modo como é recebido e apreendido por este ou por outro espírito, e cada um é o regulador de sua própria cronologia e falta à memória seus naturais pontos de referência, que são os anos, os séculos e os períodos"

Newman traduziu nessa esplêndida linguagem o que a teologia escolástica apresenta de maneira técnica. Ainda que os anjos existam para sempre, não diremos que eles são eternos. A eternidade é a medida da existência de Deus: implica em negação, não somente do fim, mas igualmente de começo. Implica, também, na imutabilidade, sob todos os pontos de vista, inclusive imutabilidade da inteligência e da vontade, que é, precisamente, a eternidade pertencente exclusivamente a Deus.

3 — OS ANJOS SITUAM-SE, DE MANEIRA ABSOLUTA, ACIMA DO

ESPAÇO, SEM JAMAIS PODEREM SER SUBMETIDOS ÀS SUAS LEIS.

Nossa razão concorda mais facilmente com essa tese do que nossa imaginação. A razão nos diz que um espírito, pela própria definição de sua natureza, não tem, em sua composição, nada que se possa relacionar com o espaço. O movimento não pode ser atribuído aos espíritos no sentido corporal e mecânico do termo.

Os espíritos agem, exercem poder sobre as coisas materiais, ora num ponto do universo, ora em outro. Tais ações ou influências são sucessivas e não simultâneas. Entretanto, não se pode dizer que um espírito se deslocou ou que voou de um local para outro. Exerceu, simplesmente, dois diferentes atos de seu poder sobre objetos afastados um do outro.

4 — OS ANJOS EXERCEM SEU PODER SOBRE O MUNDO

MATERIAL, DIRETAMENTE PELA VONTADE.

O poder da vontade dos anjos é não apenas imanente, mas também executivo. Tal vontade pode mudar as coisas do universo material, seja por contato direto, seja por influência. Os espíritos podem fazer maravilhas ou prodígios, servindo-se, para isso, das forças da natureza, mas não se poderia dizer que eles sabem fazer milagres, no sentido próprio desse termo, como ressuscitar mortos: isto requer o poder divino.

As angelofanias, ou aparições de anjos ou de espíritos, em geral, podem ser explicadas pelo poder que possuem esses seres superiores de agir, sobre nossa percepção sensível e de transmitir-nos as fortes impressões relatadas nas Escrituras, em diversos exemplos: "Seu corpo tinha a aparência do crisólito e seu rosto o aspecto do relâmpago, seus olhos, como lâmpadas de fogo, seus braços e suas palavras, como o clamor de multidão" (Dn 10,6).

5 — A VIDA DOS ANJOS É DOTADA APENAS DE DUAS

FACULDADES: INTELIGÊNCIA E VONTADE.

Com essa proposição, excluímos da vida dos espíritos todo traço de vida sensível. Não se pode dizer que os anjos são dotados de imaginação, de paixão, de sensibilidade. Todas essas manifestações são essencialmente manifestação de vida orgânica e de poder sensível. É o que entendemos pela expressão corrente de "pureza angélica". Os anjos são isentos de toda sensualidade, não por virtude, mas por natureza. Se pecado existir neles, jamais será, ainda que na mais leve escala, um pecado sensual.

Nós, seres humanos, não temos absolutamente nenhuma experiência de semelhante vida. Entretanto, é uma das primeiras conclusões que é necessário admitir quando dizemos que os anjos são espíritos.

Por mais atraente que seja a noção dos anjos para a imaginação cristã, não há, contudo, nenhuma doçura mole, nenhuma sentimentalidade na verdadeira angelologia católica.

6 — NO QUE TOCA À ORDEM NATURAL, O ANJO NÃO PODE ERRAR,

NEM EM SUA INTELIGÊNCIA, NEM EM SUA VONTADE.

Esta afirmação pode parecer surpreendente, porque muito ouvimos falar da instablidade de toda a criação. Ela decorre, porém, diretamente da simplicidade da natureza espiritual. Não pode existir no anjo qualquer fonte de pecado ou de erro em sua própria esfera de existência, mas ele pode pecar e errar nos mistérios da graça, porque estes mistérios situam-se acima dele, o ultrapassam. Aqui, ainda devemos enviar o leitor ao capítulo da Santidade Angélica e ao do Pecado dos Espíritos.

7 - O ANJO JAMAIS VOLTA ATRÁS DE UMA DECISÃO QUE TENHA TOMADO.

É sem qualquer dificuldade que admitimos esse traço de caráter do anjo, porque o admiramos mesmo no homem. No homem há diferença entre obstinação e firmeza das resoluções. Com efeito, enquanto a obstinação provém da estreiteza de visão, a firmeza das decisões decorre realmente da largueza de visão, englobando fatos com suas circunstâncias e seus fundamentos e consequências.

O homem perspicaz não sente necessidade de mudar seus pontos de vista e decisões, porque, desde o início , viu claramente as verdadeiras consequências do assunto de sua atenção. No homem , as intenções vacilantes têm origem no predomínio, nele, do elemento sentimental sobre o intelectual. Entre os espíritos, essa fonte de fraqueza, essa hesitação quanto ao fim a atingir, não pode existir: é facilmente compreensível. Num relance os espíritos apreendem uma verdade, teórica ou prática. Eles veem todos os seus aspectos, todas as suas consequências e não existe neles nenhuma força inferior capaz de agir sob a influência de impressões mais movediças e de desviar sua razão advertida e sua vontade exclusivamente espiritual da sua primeira decisão.

8 — O ESPÍRITO ANGÉLICO NÃO É, COMO O ESPÍRITO HUMANO,

SUJEITO A UM DESENVOLVIMENTO GRADUAL. DESDE O INÍCIO

SURGE COM PLENITUDE DE CONHECIMENTO.

Está aqui definida a mais profunda diferença entre a inteligência do puro espírito e a inteligência humana. O puro espírito, desde o princípio de sua existência, é plenamente dotado de todo conhecimento. Jamais foi discípulo para aprender, no verdadeiro sentido da palavra, como o homem deve aprender, deve ser discípulo. Poder-se-á dizer que um anjo pode aplicar seu conhecimento a objetos novos, mas não adquire idéia que já não lhe tenha sido infundida pelo Criador, por ocasião de sua própria criação.

9 — O ANJO PODE INFLUENCIAR DIRETAMENTE UMA OUTRA

INTELIGÊNCIA CRIADA, MAS NÃO PODE AGIR DIRETAMENTE

SOBRE OUTRA VONTADE CRIADA.

A primeira parte dessa tese parece, à primeira vista, contradizer a precedente, ao dizer que os anjos jamais aprendem, no verdadeiro sentido da palavra.

Todavia, é ponto importante da teologia católica a recíproca iluminação dos anjos, em virtude da qual as faculdades intelectuais de um esclarecem o outro. A contradição é, aliás, apenas aparente.

A influência que o termo teológico iluminação implica não é um ensinamento ministrado a um ignorante, mas a comunicação de mensagens procedentes da esfera superior das vontades divinas, comunicação para a qual as faculdades intelectuais dos anjos estão preparadas e com as quais estão, de alguma forma, harmoniosamente sintonizadas.

Podemos afirmar que nenhuma comunicação procedente dos Conselhos de Deus surpreende os espíritos angélicos. Os espíritos podem, pois, agir sobre as faculdades intelectuais dos outros. Mas, é princípio intangível da teologia católica que somente Deus pode agir sobre uma vontade criada. A criatura poderá incitar, persuadir, tentar a vontade, mas não poderá jamais atingi-la diretamente.

10 — OS ANJOS SÃO CAPAZES DE LIVRE-ARBÍTRIO. SÃO CAPAZES

DE AMAR E ODIAR.

O livre-arbítrio é a própria essência da perfeição moral e sempre foi admitido que os anjos são moralmente bons.

É preciso, naquilo que lhe concerne, tomar o amor e o ódio não no sentido de uma paixão, de um sentimento, mas como traduzindo, seja a afinidade, seja a oposição da vontade que, aliás, desconhece todo o apego sensual.

11— OS ANJOS CONHECEM AS COISAS MATERIAIS E INDIVIDUAIS.

12 — OS ANJOS NÃO CONHECEM O FUTURO, NEM OS

PENSAMENTOS SECRETOS DAS OUTRAS CRIATURAS RACIONAIS,

NEM OS MISTÉRIOS DA GRAÇA, A MENOS QUE TAIS COISAS

LHES SEJAM LIVREMENTE REVELADAS POR DEUS OU POR ESSAS

OUTRAS CRIATURAS RACIONAIS.

Essas duas teses são evidentes por seus próprios enunciados.

O conhecimento dos anjos não abarca unicamente as coisas abstratas, mas também as concretas. Os atos livres e futuros das criaturas racionais não são objeto de conhecimento para a natureza criada. Somente Deus os contempla com a infalível segurança de sua visão, na luz de sua eternidade. Pelas mesmas razões que tornam impossível a um espírito agir diretamente sobre a vontade de uma criatura racional, os desejos secretos do coração do homem ou o pensamento de um espírito são ocultos aos outros esp íritos, a menos que, livrem ente, aquele que tem esse desejo ou esse pensamento os revele.

Em cada pensamento há um ato da vontade, pois penso quando quero e o que quero. Ora, o mistério que circunda a vontade envolve também meus pensamentos íntimos.

Os mistérios da graça são decisões, não de uma vontade criada, mas da vontade de Deus.

Será, pois, a fortiori, ainda mais impossível a um espírito criado descobrir o que Deus pensa, a menos que o próprio Deus se digne revelá-lo.  

A ideia de multidão sempre foi associada à ideia dos espíritos celestes.

Se bem que a Escritura jamais tenha mostrado uma multidão de anjos em obra a executar, eles são, todavia, sempre muitos, quando aparecem louvando a Deus, ou formando sua Corte. "E, "E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste a louvar a Deus, dizendo:

'Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que ele ama" (Lc 2,13-14).

Apenas um anjo anuncia a Natividade aos pastores, mas é uma multidão de anjos que é ouvida, cantando os louvores de Deus.

No livro de Daniel, são espíritos isolados que são enviados, munidos de grande poder. Mas, quando o profeta vê o Ancião dos Dias sentado em seu trono, vê uma multidão do mundo dos espíritos: "Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades se prostravam diante dele" (Dn 7,10).

De maneira idêntica vêem-se no Apocalipse quatro anjos: "Postados de pé, nos quatro cantos da terra, detêm eles os quatro ventos da terra, para que nenhum vento sopre sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre qualquer árvore" (Ap 7,1).

Lê-se, contudo, também: "Ouvi em tomo do trono, ao redor dos animais e dos anciãos a voz de uma multidão de anjos e seu número era de milhares de milhares" (Ap 5,11).

Vemos ainda no Apocalipse sete anjos exercer julgamento sobre a terra, cada um com uma taça cheia da cólera de Deus: sucessivamente, e não simultaneamente, despejam a taça sobre a terra. Quando, porém, o Cristo se aproxima triunfante, está rodeado pelos exércitos celestes: "Estava ele revestido de um manto embebido de sangue, e o nome com que é chamado é Verbo de Deus. Os exércitos o acompanham em cavalos brancos, vestidos com linho de resplandecente brancura" (Ap 19,13-14).

Podemos concluir que, no conceito escriturístico, a multidão dos espíritos tem especial significado, podendo ser tomada a partir de uma noção de sociedade; que os espíritos célestiais são a sociedade de Deus. E que a multidão não tem relação quanto à variedade das missões exteriores, mas quanto à contemplação do próprio Deus.

Por outras palavras, o conceito de multidão aplicado aos espíritos é inteiramente diferente do mesmo conceito aplicado às coisas materiais.

O número é, de fato, uma maravilha da natureza material. A própria raça humana tem esse fator espantoso do número, pois Deus multiplicou os filhos dos homens.

Observa muito bem São Tomás que, para as coisas materiais, nisso compreendido o homem, o número, supre a fraqueza da espécie. Uma espécie é salva da morte, da extinção, pelo seu número, e tanto mais fraca é uma espécie tanto maior é o número de seus representantes.

É evidente que, desde que entramos no mundo dos espíritos, a noção de número deve tomar sentido diferente. Quando dizemos que os anjos são inum eráveis, expressamos coisa muito diferente da idéia sugerida quando falamos, por exemplo, serem inumeráveis os grãos da areia do mar.

Nas coisas materiais o número é mais uma necessidade que uma perfeição. Nas coisas espirituais multidão significa perfeição e não pode significar outra coisa.

Ficarem os menos surpresos diante desse dado teológico, se tivermos presente em nosso espírito aquela indicação segundo a qual, nas Escrituras, a multidão dos espíritos está sempre em relação com a sociedade de Deus, com o louvor e a contemplação de sua Pessoa.

Os espíritos são multiplicados para permitir uma mais ampla e mais completa manifestação das perfeições de Deus.

Se nos colocamos nessa perspectiva, rapidamente percebemos a beleza da doutrina católica tradicional, segundo a qual o número dos espíritos ultrapassa o de toda coisa conhecida.

Toda a idéia que tínhamos de multidão foi mudada: um anjo reflete a glória de Deus de uma forma; outro a manifesta de maneira diferente; mas a multidão é algo de muito perfeito por ser a imagem de uma perfeição que é absolutamente inesgotável.

Tais noções nada têm de comum com o "sem-número" do mundo material. Não encontramos qualquer especial beleza nos "inumeráveis" do mundo físico. Mas, no mtmdo espiritual os "inumeráveis" são expressões sempre mais completas da beleza.

E assim somos conduzidos a empolgantes teorias sustentadas por teólogos, teorias que, algumas vezes, chocam certas inteligências, porque ainda por demais a serviço da imaginação.

Considera São Tomás como pedras angulares de sua angelologia que não há dois anjos da mesma espécie; que não há dois anjos iguais em natureza; que o mundo angélico constitui uma progressão sempre ascendente de substâncias espirituais, sendo uma sempre mais elevada que outra.

Por essa forma, ele mantém a tradicional tese segundo a qual os espíritos são inumeráveis, adotando como princípio que torna essa teoria perfeitamente aceitável: que é missão própria dos espíritos refletir a perfeição divina, segundo mn modo criado; que cada espírito o faz à sua maneira. E que uma hierarquia de espíritos sempre ascendente e infinita não pode esgotar a riqueza da beleza que se irradia de Deus.

Nessa filosofia o número torna-se algo muito diferente do que nos cálculos do físico e do naturalista. É uma questão de dignidade e não simples justaposição de diversos seres uns ao lado de outros.

Existe, e eu o avalio bem, um bom número de teólogos para os quais essa doutrina parece bastante ousada. Para eles seria melhor falar de anjos-irmãos, de diversos espíritos da mesma linha. No fundo, seriam como seres humanos glorificados e espiritualizados, que constituiriam uma nação celeste.

Entendo, todavia, que um pouco de reflexão mostrará desempenhar a imaginação grande papel nessa oposição à grandiosa doutrina tom ista dos anjos.

Assim, por exemplo, as multidões angélicas de um Fra Angélico são certamente uma multidão de irmãos e não hierarquias de espíritos.

Observamos que São Tomás deduziu a teoria da variação essencial de um anjo em relação a outro, do princípio último da natureza espiritual.

Não estando os anjos unidos a um invólucro corporal, é impossível aos olhos do grande metafísico distinguir um espírito do outro, a menos que se diferenciem todos uns dos outros como uma espécie difere de outra espécie. Um simples enunciado dessa idéia eqüivale dizer que não há dois anjos semelhantes, nem dois anjos da mesma linha.

Essa tese é bastante sustentável em metafísica e, ainda que, de certa forma, ela possa extraviar a imaginação, contribui, entretanto, para dar mais clara inteligência do que se significa a multidão angélica.

Não se trata de uma infindável repetição em uma ordem idêntica de seres, como no caso dos homens. Ao contrário, é uma adição sempre nova às belezas permanentes e essenciais do universo.

Essas considerações nos levam, naturalmente, ao exame da hierarquia entre os anjos. É uma das teorias mais solidamente estabelecidas na angelologia cristã a existência, entre os espíritos celestes, de uma diversidade de gradação hierárquica. Fornecem as Escrituras os nomes de nove Coros angélicos diferentes, classificados, normalmente, a começar pela hierarquia inferior: Anjos, Arcanjos, Principados, Potestades, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins.

Esses nove Coros são divididos em três ordens. Prevaleceu, na tradição cristã, o sentimento de atribuir certa comunidade de natureza, de gênio e de missão a cada um daqueles grupos. Esse parentesco é ordinariamente exprimido em três diferentes afinidades: Serafins, Querubins e Tronos formam um grupo. Dominações, Virtudes e Potestades, outro e, enfim. Principados, Arcanjos e Anjos.

Surge, então, a primeira questão. A hierarquia de nove Coros é completa de maneira a englobar a totalidade do mundo angélico?

A esse respeito, é impossível uma resposta categórica. Parece, entretanto, que atingimos, com os Querubins e Serafins, os limites do mundo dos espíritos, por terem sido sempre citados como sendo, de toda a criação, os mais próximos de Deus.

Mas, sem qualquer dúvida, essa pergunta teria resposta mais completa, se pudéssemos dar explicação satisfatória da própria hierarquia angélica.

É evidente que nenhum teólogo já admitiu que determinado coro angélico, o dos Anjos, por exemplo, é composto de espíritos da mesma linha.

Uma das melhores doutrinas teológicas, como dissemos, sustenta mesmo ser impossível a igualdade de linha entre os espíritos, porque cada um deles é uma hierarquia na escala sempre ascendente dos seres.

É necessário, pois, emprestar às idéias de hierarquia e de ordens angélicas um largo sentido, mesmo indefinido, e seria, uma vez mais, deixar-se dominar pela imaginação, tentar fazer dos nove coros classes diferentes de espíritos.

Os segredos que nos são revelados por aqueles nomes tradicionais dos coros angélicos são as únicas indicações que nos são dadas da gloriosa variedade existente no mundo espiritual de Deus.

Transformar esses nomes em categorias e compartimentos estanques contrariaria as intenções do Espírito, que nos murmurou esses segredos aos ouvidos.

Quando pensamos nos habitantes do céu, precisamos multiplicar e não dividir.

Não podemos dividi-los em classes, mas aceitar a idéia da existência de uma infinita variedade de esplendores espirituais.

A hierarquia no mundo angélico não é, de início, uma questão de graça, mas de natureza. Se os anjos diferem em graça, é porque diferem em natureza, pois a graça lhes é dada segundo a capacidade de sua natureza. Isso é que parece teologicamente mais provável.

São Tomás estende-se na exposição de seu pensamento sobre a hierarquia e as ordens angélicas nessa hierarquia. Diz ele que se dividimos em três os nove coros é devido ao nosso conhecimento imperfeito — propter confusam notitiam —, pois nosso conhecimento sobre eles não vai além de vagos contornos sobre suas funções. Se tivéssemos disso um conhecimento mais claro, veríamos, em toda a realidade, que cada anjo é uma ordem em si, porque ele realiza por si mesmo uma completa missão, que lhe é própria.

"Se conhecêssemos de forma perfeita as funções dos anjos e suas diferenças, saberíamos também que cada anjo tem, no universo, sua função e sua linha própria, bem mais realmente que qualquer estrela, embora isso nos seja escondido" (I.Q. CVIE, art. 3°).

Não temos senão vaga percepção do que possa ser a função atribuída a esses grandes nomes Serafins, Querubins, Tronos etc.

Os doutores em teologia podem divergir em matéria tão livre como essa. A títu lo de exem plo das especulações, que aqueles santos nomes ocasionaram, podemos citar São Tomás que, por sua vez, se reporta ao pseudo-Dionísio. "Examinemos, antes de tudo, diz ele, a razão da ordem assinalada por São Dionísio. Vemos aí que... a primeira hierarquia recebe as razões das coisas do próprio Deus; a segunda, nas causas universais; e a terceira, segundo se encontrem essas razões aplicadas a efeitos especiais. E, porque Deus é o fim, não somente dos ministérios angélicos, mas ainda de toda a criatura, segue-se que à primeira hierarquia pertence a consideração do fim; à segunda, a disposição universal de tudo o que se faz; à terceira, a aplicação dessa disposição às coisas a serem de fato realizadas, isto é, a execução da obra.

Aquelas três coisas, com efeito, se encontram , manifestamente, em toda obra que se executa. Assim, São Dionísio, descobrindo, nos nomes das diversas ordens, suas propriedades, colocou na primeira hierarquia as ordens cujo nome dizem de uma direta relação com Deus, isto é, os Serafins, os Querubins e os Tronos.

Ao contrário, na segunda hierarquia, aquele santo situou as ordens, cujos nomes designam certa ação geral no governo ou ordenamento das criaturas, a saber as Dominações, as Virtudes e as Potestades.

Enfim, na terceira hierarquia colocou as ordens, cujos nomes se referem à execução do governo divino, os Principados, os Arcanjos e os Anjos" (I.Q. CVm, art. 6°)

Embora seja comumente admitido, como veremos adiante, que entre os espíritos a ordem menos elevada é aquela que vela sobre os homens, a dos anjos da guarda nada nos obriga a crer que tal ordem se compõe de esp íritos de uma só categoria. Eles diferem essencialmente entre si, e não há um único espírito que possa verdadeiramente ser chamado de espírito menos elevado.

A guarda do homem pelos anjos não é tanto uma questão de dignidade pessoal de um espírito, quanto da influência que ele quer de boa vontade exercer sobre o homem.

Aquele que objetasse que todos os espíritos, pelo menos os da mesma hierarquia, devem ser iguais, porque tendo todos os homens um anjo, não conviria que guardas de seres tão semelhantes entre si fossem essencialmente diferentes, ver-se-ia diante da reposta de São Tomás, segundo a qual em realidade não se trata aqui tanto de uma questão de essência quanto de poder angélico. Os efeitos desse poder são os mesmos, qualquer que seja a grandeza do espírito que o exerce.

Poder-se-á igualm ente dizer que em diversas angelofanias registradas nas Escrituras a multidão dos anjos não terá sido senão uma impressão de multidão ocasionada nas faculdades dos humanos sem que, em realidade, tivesse havido multidão. Entretanto, as descrições da Bíblia insistem sobre o número dos espíritos e seria temerário apresentá-lo invariavelmente como pura impressão subjetiva sobre as faculdades dos videntes.

Por outro lado, há passagens da Escritura que não podem ser entendidas de outra maneira, a não ser como de um verdadeiro número no mundo dos espíritos. Assim, na carta aos Hebreus é mostrada a sociedade de muitos milhões de anjos como um dos elementos da vida dos eleitos: "Vós vos aproximastes do Monte Sião e da Cidade de Deus vivo, a Jerusalém celestial e de milhões de anjos reunidos em festa" (Hb 12,22).  

Uma tese cara a São Tomás é a que mostra todo o mundo físico inteiramente confiado por Deus à guarda dos anjos. As estrelas em seu curso são vigiadas por poderosos espíritos. As nações são confiadas aos cuidados de um príncipe celeste e nenhuma parte do universo está subtraída ao sopro desses espíritos que contemplam a face de Deus.

Um princípio que tudo abrange e governa a doutrina teológica do ministério dos espíritos sustenta que, na criação, tudo o que é inferior encontra-se invariavelmente sob tutela do que lhe é superior.

Essa grande Lei não sofre exceção.

O universo é mantido em sua coesão, tanto pelos fios de ouro do poder do espírito como pelos laços mais grosseiros da energia natural.

Enquanto princípio e sob sua forma categórica e indeterminada, aquela doutrina é muito bela e é de desejar não sejam ultrapassados os amplos contornos de sua grande verdade. Não podemos completá-la por numerosos detalhes ou fatos específicos, pelo bom motivo de que a potência espiritual, em bora manifestando-se, não pode ser objeto de observação do ponto de vista físico, precisam ente por ser ela transcendente a essa ordem física.

Não se trata de parar diante da objeção de que, admitindo semelhante hipótese, as leis físicas tornar-se-iam supérfluas pelo fato de se tomarem a atividade e a vontade dos espíritos os elementos reguladores do universo. A teoria teológica do universo deixa a teoria física absolutamente intacta. Supõe ela, entretanto, que há no universo físico uma tendência ao enfraquecimento, à --- e a um perigo de desordem, todavia afastado e fora do alcance dos fenômenos observáveis, e que influências de ordem superior se aplicam constantemente em corrigir.

Também é preciso não julgarmos supérflua a atividade criada daqueles espíritos, sob fundamento da onipresente vigilância de Deus sobre o universo. Se Deus multiplica as forças criadas, não é porque ele mesmo não possa produzir o efeito, mas porque o universo torna-se mais belo, se dotado de forças hierarquizadas.

A forma derradeira, a última aplicação desse grande princípio, está concretizada na doce e popular doutrina dos anjos da guarda. Cada ser humano está sob a proteção, a tutela de um espírito celeste, e isso em razão mesmo de uma lei natural.

Não é no momento do seu batismo, mas logo no seu nascimento, que cada filho de Adão é confiado à guarda de um anjo. Não obstante a grandeza dos privilégios reconhecidos pela fé cristã aos batizados, jamais ela creu que fosse privilégio dos regenerados em Cristo o fato de ser confiado à guarda de um anjo.

A criança não batizada partilha com a que recebeu o batismo o benefício da Providência divina. A guarda da raça humana exercida pelos anjos pertence à própria natureza.

É verdade que, no Evangelho, os anjos das criancinhas que se mencionam são anjos de crianças que crêem em Deus: "Seus anjos vêem a Face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10). Mas, a tradição cristã tem sido sempre muito firme em sua doutrina da guarda de todos os homens, porque, ao menos potencialmente, todos os homens são filhos de Deus.

Perguntar-se-á, sem dúvida, se cada ser humano é confiado a um anjo especial, individualmente distinto dos outros. Semelhante questão não pode absolutamente ser respondida, salvo por ensinamento autorizado.

Apenas o fato de guardar os homens não exigiria a presença de um anjo especial para o ser humano em particular.

Um só anjo é suficientemente poderoso para observar milhões de indivíduos, cercando cada um de perfeita vigilância.

Entretanto, a maioria das opiniões é favorável à teoria que aceita um anjo individual para cada homem e não uma proteção coletiva. Todavia, não nos é possível dar em favor dessa tese outra razão, a não ser que a vontade de Deus teria assim decidido.

A proteção pelos anjos deve ser concebida em um plano inteiramente espiritual. Não se presta serviço em uma matéria tão santa, misturando-lhe falsas idéias.

Por isso, não poderemos dizer com sombra de verdade que o anjo deixa seu belo céu por esta triste terra, a fim de aqui cuidar de nossa fraqueza, porque não ocorre, no caso, nenhum abandono das glórias da vida angélica para um anjo, quando este assume a tutela de um ser inferior.

É mais certo dizer que o ser inferior entra na esfera de atividade de um determinado anjo, como um planeta é mantido na órbita de um sol especial.

Conforme já foi dito, a guarda do homem pelos anjos não é senão a última manifestação da poderosa proteção do mundo dos anjos sobre o mundo material, com esta particularidade, entretanto, de que, estando em jogo o homem, é preciso contar com a vontade livre. Aqui também, ao invés de fatos precisos, devemos contentarnos com princípios genéricos.

Cumpre, desde logo, admitir que a raça humana teve a sorte que vem experimentando até o presente, precisamente porque esteve sob tutela dos anjos, tutela fiel, que abrange tudo e que é o elemento mais permanente da salvaguarda da raça humana.

Para melhor salientar esse fato, podemos afirmar que, se a raça humana não tivesse tido a proteção dos anjos, sua história teria sido muito diferente e infinitamente mais sombria, ainda que seja impossível indicar fatos e acontecimentos que possam ser diretamente atribuídos aos anjos encarregados de vigiar os homens.

E aquilo que é dito da raça humana aplica-se, igualmente, a cada ser humano em particular. Sua vida é o que é, porque em seu nascimento foi confiado a um anjo.

Na vida de um homem são raras as ocasiões em que é possível reconhecer a atividade de seu anjo da guarda e, até mesmo, de fato, a menos que ocorra revelação especial, nènhum acontecimento da vida pode ser considerado com certeza, como provocado pelo anjo da guarda.

Temos, contudo, algo melhor que isso. Temos a certeza dada pela nossa fé de que somos guardados. Jamais conhecemos outro gênero de existência. Podemos, pois, perfeitamente afirmar que não concebemos sequer o que seria existir sem o anjo da guarda, da mesma forma como ignoramos o que seria existir fora das leis da gravidade.

Permanece, a priori, a certeza de que, se os homens são individualmente confiados pelo Criador a um poderoso anjo, sua vida toda é por este influenciada, quer o percebam ou não.

Seria erro admitir fosse a guarda do homem assegurada unicamente como resultado da oração. Tal guarda lhe é dada de maneira absoluta, como irrevogável regra da providência de Deus.

E, antes de qualquer outra coisa, essa proteção que conserva a raça humana e seus indivíduos na sua perfeição de natureza, e podemos dizer, sem nenhum exagero, que a raça humana teria há muito tempo sucumbido diante de seus inimigos e das influências nefastas, não fora a contínua intervenção dessas forças benfazejas, sempre prontas a corrigir e a defender.

Rezar, pois, aos santos anjos é fazer obra de piedade, evidentemente muito recomendável e útil, porque compete a nós tirar proveito mais ou menos largamente dessa proteção, segundo a medida de boa vontade que anima cada um de nós. Da mesma forma que, em esfera diversa, a prece dirigida a Deus nos toma cada vez mais propícia a divina majestade, sem que se possa, todavia, afirmar que Deus se ocupa somente do homem que reza.

Há, da parte de Deus, uma providência absoluta independente da boa vontade do homem. No mesmo sentido existe uma tutela espiritual da raça humana e de cada ser em particular, que ultrapassa e domina as flutuações do estado moral do homem.

A raça humana é preservada da destruição e da dissolução interna em vista do fim que Deus lhe destinou, e pode-se dizer, com certeza, que a despeito dela mesma.

Os pecados dos homens não indicam que eles não sejam guardados por bons espíritos, porque, como bem o diz São Tomás (I.Q. CXIII, art. 1° ad 3), podemos agir de encontro às boas influências do espírito celeste que está fora de nós. Como podemos agir de encontro aos bons instintos que estão dentro de nós.

Os bons instintos permanecem como grande realidade a despeito de nossa prevaricação, e da mesma forma a inspiração angélica, ainda que, voluntariamente, não a escutemos. Não se pode mesmo asseverar que o anjo trabalhe em vão por aqueles que se perdem.

Não apenas é necessário supor, sempre com São Tomás, que os mais pervertidos dos homens evitam rhales ainda maiores, graças ao seu guardião celeste, mas também que o mal praticado por um homem é mantido sob controle por esses espíritos de santidade, para que não possa estender sua malignidade aos outros homens.

Tal proteção angélica é algo de natural, algo de normal, tanto quanto as grandes forças do mxmdo físico.

Os éspíritos celestiais não receberam missão de se imiscuir nos atos livres do homem, mas foram incumbidos de salvá-lo das consequencias dos atos maus praticados, tanto quanto o permitam as supremas decisões da justiça de Deus.

Quando um anjo manifesta exteriormente seu poder protetor, como, por exemplo, aquele que libertou São Pedro de sua prisão, ocorre uma intervenção miraculosa, que não deve ser tomada como regra ordinária da ação da proteção çJqs espíritos bem-aventurados.

Pode existir, em tais casos, milagres de intervenção angélica, da luesma maneira como pode haver milagres de intervenção divina. São, porém, exceções. É de forma contínua que Deus e seus anjos trabalham para o bem estar do homem.

A iluminação da inteligência humana é o mais direto e o mais cbrrente efeito da proteção angélica.

Não é exagerado dizer, segundo São Tomás (I.Q. CXIII, art. 5° ad 2), que a raça humana é mantida no equilíbrio mental, graças à incessante vigilância dos bons espíritos. A despeito das aberrações individuais, há uma retidão de pensamenta no conjunto da humanidade que faz com que todos os homens estejam de acordo com a aceitação de certos princípios universais. Não seria uma bela coisa

divisar, nessa unanimidade, o resultado de alta vigilância exercida pelos espíritos celestes? A teologia católica não experimentaria, certamente, repugnância em encorajar esse ponto de vista.

Depois, ainda há importantíssima função dos anjos protetores face à tenebrosa influência dos maus espíritos.

Até aqui falamos dos espíritos bons, mas a revelação cristã não permite, sob esse ponto de vista, um completo otimismo. Há espíritos maus, como existem os bons, como veremos em capítulo adiante.

Uma parte considerável do trabalho dos anjos em favor dos homens deve ser uma obra de defesa: o homem jamais saberá, exceto nos casos de revelação, de que perigos foi salvo.

Os espíritos celestes lutam por nós, em grande parte sem que o percebamos. Sua missão é essencialmente a guarda de um ser inferior e é cumprida de forma inteiramente independente da participação ou do reconhecimento desse ser.

É verdadeiramente um depósito, e o espírito celeste é responsável pela devolução integral desse depósito ao Pai celeste de quem o recebeu.

Até aqui temos considerado a guarda dos anjos em relação à vida natural unicamente como uma das grandes forças que mantém a coesão do universo. É evidente, porém, que não podemos separar o destino mais elevado, sobrenatural do homem, de sua vida natural.

Somos chamados ao reino dos céus, e os anjos vêem em nós seres que participam com eles das graças do Espírito Santo, seres que lhes incumbe conduzir ao céu.

Abordando esse fim sobrenatural da proteção angélica, São Tomás faz algumas sábias observações que justificam, de alguma maneira, a opinião comum da Igreja Católica, que atribui a cada homem a guarda de um espírito especial, negando toda a desproporção entre o depósito e seu guardador.

Pois que a felicidade eterna é o destino do homem não é supérfluo que ele esteja ele sob a vigilância de um ser cuja natureza não pode decair.

Os segredos da graça são os mais elevados, são o apanágio pessoal de Deus. A adorável Trindade comunica tais segredos não indistintamente em massa, mas individualmente a cada criatura racional. Somente Deus conhece as graças constitutivas da predestinação de cada eleito.

Não é, pois, para admirar, no sentido de São Tomás, que anjos distintos sejam escolhidos para vigiar sobre as almas humanas, objeto de tais preferências divinas.

Deus tem mensagens a comunicar a um anjo a respeito de determinado ser humano, e essas mensagens constituem verdadeiramente o segredo dos divinos conselhos: "Não são todos espíritos a serviço de Deus enviados como servidores para o bem daqueles que devem receber a herança da salvação?" (Hb 1,14).

São Tomás comenta de forma excelente essa passagem (I.Q. CXIII, art. 5° ad 1): "Se consideramos o último efeito da proteção dos anjos, que é a conquista da herança, o ministério angélico somente é eficaz para aqueles que efetivamente recebem essa herança. Não obstante, é preciso sustentar que o socorro dos anjos não é recusado aos outros homens, ainda que nesse caso esse ministério não atinja seu fim, que é o de conduzir à salvação. Entretanto, mesmo aí, o ministério dos anjos não se exerce sem uma certa eficácia, porque, graças a esse ministério, esses homens escapam de males ainda mais numerosos." 

Jamais veremos nas Escrituras, tão cheias, não obstante, de acontecimentos relativos aos anjos, qualquer vestígio de imperfeição moral em qualquer anjo, nem algum anjo desaprovado por qualquer ação que tenha praticado.

Os anjos são perfeitos sob todos os aspectos.

Para nós, cristãos, sua santidade é evidente, e nossa teologia oferece poderoso amparo a essa intuição, pois, baseando-se em alguns princípios claramente estabelecidos, ela nos revela as mais belas coisas sobre a pureza dos anjos e o eminente grau de sua santidade.

Aquilo que sabemos da natureza de um espírito e o que sabemos da graça nos é muito proveitoso quando estudamos a vida de nossos irmãos celestes.

Como espíritos, jamais podem os anjos fazer coisas de maneira incompleta. Não podem ser imperfeitos, não podem agir negligentemente, e a energia de sua inteligência e de sua vontade é inteiramente aplicada a cada um de seus movimentos de ordem moral, se essa palavra é permitida em relação aos espíritos.

O pecado venial é inconcebível na moralidade angélica.

É mais fácil para nós compreender um afundamento total da vontade angélica do que compreendermos um desfalecimento parcial, pois um espírito pode escolher um fim errôneo, mas sua escolha será feita com a inteira impetuosidade de sua natureza.

Nossos melhores teólogos, conhecedores da excelência da natureza espiritual, sustentam que, em sua esfera natural, no plano que lhe é próprio, um ser puramente espiritual não pode enganar-se nem pela inteligência e nem pela vontade. Pode, sim, errar em relação às coisas que lhe são superiores, por outras palavras, em relação ao sobrenatural.

Desenvolveremos esse ponto de forma mais extensa ao abordar o pecado angélico.

Contentemo-nos, por ora, em alegrar-nos com o pensamento de que os anjos não têm, em si mesmos, qualquer fraqueza, qualquer tentação, nenhuma divisão sobre motivos mais ou menos elevados, como ocorre conosco.

Neles não há nenhum conflito de concupiscência de qualquer espécie, nenhuma incerteza, nenhum perigo de julgamentos muito precipitados; isto, em virtude dos princípios mesmos de sua natureza.

Todavia, é ponto de fé que os espíritos celestes foram elevados à ordem sobrenatural e dotados da graça, e que possuem a graça santificante e os dons do Espírito Santo, da mesma maneira que o cristão neste mundo.

Neles não há divisão entre carne e espírito, entre natureza superior e inferior, mas sim entre natureza e sobre natureza. Foram elevados acima deles mesmos, para um destino que ultrapassa os de um espírito: são chamados a ver Deus, face a face, na visão beatífica, fim esse tão sublime que nenhum espírito, por excelente que seja, pode atingir sem a infusão gratuita dessa qualidade superior que se chama graça.

Para os anjos a graça não poderia ser remédio aplicado nas feridas de uma queda, como em tão grande escala ocorre para o homem. Tampouco poderia a graça ser um socorro dispensado a forças que, em si, careceriam de vigor, estariam anemiadas, porque os espíritos não conhecem em si mesmos feridas nem fraqueza.

A graça para os anjos é essencialmente a elevação de um ser perfeito a um plano ainda mais elevado, a iniciação de uma inteligência criada nos segredos da Inteligência Incriada.

Sem a graça, mesmo o mais elevado dos espíritos permaneceria incapaz dessa comunhão com Deus, que constitui a vida de caridade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Toma-se, pois, necessário admitir, de início, que, em relação à missão final e sobrenatural com Deus, os espíritos se encontram na mesma situação que os homens.

Pode-se afirmar que os espíritos, unidos ou não a uma carne, estão igualmente distantes do fim último, a Visão beatífica, e que, não mais que nós, os anjos não poderiam, sem a graça de Deus, alcançar a comunhão com Ele. E nisso reside a razão pela qual há uma verdadeira comunidade de condição entre o homem e os espíritos, comunidade realizada de um só jato, graças ao sobrenatural.

As diferenças de inteligência e de vontade entre os homens e os espíritos e entre os espíritos entre si, por profundas que sejam, desaparecem todas e a nada se reduzem diante desse verdadeiro infinito que é a visão de Deus.

Ocorre o mesmo em astronomia: não há diferenças reais quando se trata das distâncias chamadas infinitas. Assim, para nós, que nela habitamos, a superfície da terra pode parecer extremamente desigual. Com efeito, vemos as altas montanhas e os vales profundos. Vistas, porém, das estrelas, tais desigualdades são como se não existissem.

A despeito da diferença radical entre a ordem natural e a sobrenatural, mesmo entre os espíritos, a opinião mais corrente é a de que todos os espíritos foram criados, tendo o dom da graça. Isso equivale a dizer que entre a criação ou produção da natureza e a infusão da graça não há intervalo. Entretanto, a profunda e essencial diferença entre os dois elementos, natureza e graça, permanece sempre.

Não foram os espíritos criados com o gozo da clara visão de Deus. Este era o fim para o qual deviam tender, a recompensa de sua fidelidade. Eles foram criados em estado de graça, mas sem a visão de Deus, convidados, contudo, a subir até a essa visão suprema.

Segundo São Tomás, foram criados não no céu da Santa Trindade, mas no céu empíreo de onde eram chamados a elevar-se ao outro.

O "coelum Sanctae Trinitatis" — céu da Santa Trindade — (I.Q. LXI, art. 4° ad 3) é o céu da clara visão de Deus, contemplado face a face. Não é nesse céu que os anjos se encontraram desde o início. Encontraram-se nesse outro céu que pode ser chamado de lugar supremo do mundo natural, enquanto o céu da visão é o glorioso reino que, desde o começo do mundo, foi especialmente preparado para os eleitos: "Então o Rei dirá àqueles que estão à sua direita: 'vinde benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos foi preparado desde o início do mundo (M t 25,34).

Afirmamos, pois, terem os anjos merecido a vida gloriosa, da mesma forma como os homens a merecem, pela correspondência à graça sobrenatural que estava neles, pois, tanto quanto os homens, os espíritos tiveram seu dia de prova, enquanto viajores entre "sua" terra e "seu" céu, entre o céu empíreo e o céu da Trindade Santa.

Esses princípios são absolutamente certos. Qual teria sido a duração da sua prova? Sobre isso desconfiemos de nossa imaginação.

É certo que, qualquer que tenha sido o elemento de duração desse período em que os anjos foram viajores, atingiu em valor e intensidade espiritual à mais longa das vidas humanas.

Em linguagem teológica, o primeiro ato dos anjos foi tomar consciência de si mesmos; o segundo, cooperar plenamente com a graça que estava neles, e o terceiro foi a clara visão, ou melhor, o da transmigração do céu empíreo para o céu da Santa Trindade.

Lembremo-nos, porém, que séculos de atividade humana seriam bem insignificantes, comparados com a energia contida nesse ato único dos espíritos, realizado entre sua criação e sua glorificação.

Já falamos das profundas desigualdades existentes entre as naturezas angélicas. Dissemos formarem elas uma hierarquia sempre ascendente de substâncias espirituais.

Surge, então, a questão de saber se a graça e os dons sobrenaturais lhes foram concedidos segundo a capacidade de suas naturezas, de maneira que um anjo de condição mais elevada em natureza ocupe igualmente posição mais elevada em graça e em glória.

Podemos, sem dificuldade, admitir ser um Querubim mais elevado do que um espírito inferior, em todos os seus dons, tanto naturais como sobrenaturais.

Os seres humanos são todos da mesma natureza, mas recebem a graça segundo medidas diferentes: uns recebem um talento, outros, cinco.

Podemos, pois, dizer que, para os homens, a natureza não é a medida da graça. Não esqueçamos que um ser humano, a Santíssima Virgem Maria, a Mãe de Deus, recebeu a graça mais abundantemente que qualquer outra criatura.

Para os espíritos, ao contrário, parece conveniente que a graça siga exatamente a perfeição da natureza.

Enquanto os homens, apesar de uma mesma natureza para todos, trabalham com intensidade, variando de um ao outro, os espíritos, ao contrário, em sua operação, colocam sempre em exercício todos os recursos de suas faculdades, o que exclui intermitência, distensão ou progresso no sentido humano da palavra.

A partir daí parece mais prudente, teologicamente, pensar que a mais vasta inteligência, a mais firme vontade, recebe também uma mais ampla manifestação dos conselhos divinos de ordem sobrenatural.

Seja-nos permitido, depois dessas considerações teóricas sobre a santidade angélica, dar livre curso à nossa imaginação e deixá-la gozar do espetáculo dessa inexprimível santidade! Mesmo porque, o que quer que possamos imaginar, deixar-nos-á abaixo da realidade.

A mais esplêndida representação imaginativa da santidade angélica é a visão de Isaías: "No ano em que faleceu o rei Osias, vi o Senhor sentado sobre um trono alfo e elevado. A cauda de sua veste enchia o santuário. Acima dele, em pé, estavam serafins, cada um com seis asas: com duas cobriam a face, com duas cobriam os pés e com duas voavam. E clamavam uns para os outros e diziam: "Santo, Santo, Santo é Javé dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra." À voz dos seus clamores, os gonzos das portas oscilavam, enquanto o Templo se enchia de fumaça. Então disse eu: "Ai de mim, estou perdido! Com efeito, sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros, e os meus olhos viram o Rei, Javé dos Exércitos." Nisto, um dos serafins voou para junto de mim, trazendo na mão uma brasa, tirada do altar com uma tenaz. Com ela, tocou-me os lábios e disse: "Vê, isto tocou os teus lábios, a tua iniquidade está removida e perdoado teu pecado." Em seguida ouvi a voz do Senhor que dizia: "Quem hei de enviar? Quem irá por nós?", ao que respondi: "Eis-me aqui, envia-me a mim" (Is 6,1-8).

Observemos, ainda, um aspecto da santidade angélica, que podem os chamar de lado moral: representado, em geral, como a obediência dos anjos, poderíamos melhor chamá-la de sua "ordenação", sua "boa ordem" consiste isso em que os espíritos se mantêm na ordem em que foram criados, cumprem as missões que lhes são confiadas, permanecendo todas as suas poderosas atividades em contínua dependência da vontade de Deus; e, acima de tudo, em que aceitam a soberania de uma natureza inferior à sua.

Não se revoltaram contra a exaltação da natureza humana no Cristo Jesus, e a Igreja Católica fala continuamente da Mãe de Deus como Rainha dos Anjos.

Essa observância da ordem, estabelecida por Deus, constitui a verdadeira virtude dos anjos, o único ponto em que poderiam falhar: esta foi, pode-se dizer, sua tentação, e, vencida esta, foi também sua vitória.

Passagens várias das Escrituras provam esse triunfo. Os anjos são considerados como tendo saído de um grande combate espiritual, com brilhante triunfo de ordem moral:

"Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com seus anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada, foi expulso para a terra, e seus anjos foram expulsos com ele" (Ap 12,7-9).

A fidelidade a Deus, no nível de um grande plano asperamente debatido, aparece bem como parte essencial da santidade dos anjos.  

Quando o Senhor fala da recompensa dos eleitos, apresenta-a sob forma de convite, para tomar posse do Reino que lhes foi preparado, desde a origem do mundo (Mt2534). Relativamente ao castigo dos maus, fala como de um fogo que jamais se extingue, preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,41).

Ora, dessa terrível disposição penal não é dito tenha ela sido preparada como o foi a graciosa recompensa, "a constitutione mundi", desde a origem do mundo.

Satã e seus adeptos não foram criados demônios. Nas primeiras disposições de Deus, nenhum projeto havia de fogo eterno.

Se nenhum cristão duvida da existência de poderes do mal no mundo dos espíritos, também, nenhum considera esses poderes senão como resultantes de desvio ou de um revés imputável à criatura, no primeiro plano do Criador.

Não existe nenhum mau princípio que possua, por assim dizer, por si mesmo, essa propriedade que é o mal. Todo mal é uma apostasia de um ser, que primitivamente era bom; todo mal é mau uso dos dons de Deus.

Explicar o pecado nos espíritos é um dos pontos difíceis da teologia. Se a Escritura não contivesse tantos testemunhos da atividade dos espíritos maus, poderíamos ser tentados a considerar tudo o que é mau como fenômeno humano.

O fato de que o homem seja cheio de pecado é de experiência cotidiana, e explica-se pela natureza complexa do homem, por suas paixões e suas dificuldades.

Do ponto de vista moral, o homem é um pecador, da mesma forma que do ponto de vista social é um selvagem: tanto o pecado como a barbárie podem ser explicados.

Todavia, como chegar a uma explicação satisfatória para a queda dos espíritos?

Se considerássemos os espíritos como formas apenas mais ágeis de seres humanos, poderíamos dar-lhes paixões e instintos, cuja ação, cedo ou tarde, os colocaria em situações perigosas.

Mas os espíritos são perfeitos, pelo menos aqueles nos quais crê a teologia católica; é de sua própria essência ser natureza perfeita. Não podemos, pois, conceber neles qualquer atrativo capaz de os fazer desviar do caminho reto.

Uma primeira tentativa de explicação para uma possível queda no mundo dos espíritos é que, sendo seres criados, são finitos, limitados, e nenhum ser finito pode atribuir-se absoluta imunidade em relação a toda possibilidade de erro, na inteligência ou na vontade.

Tomado nesse sentido geral, esse princípio pode ser considerado como a causa longínqua do pecado em todo ser, exceto o próprio Deus. Mas, na teologia católica, tal princípio expHca apenas vagamente a queda dos anjos. Um espírito não tem qualquer ignorância, qualquer fraqueza de inteligência. Sua natureza é de tal forma perfeita que nada existe que ele possa desejar ou a que possa aspirar. Mesmo finito ele é completo em sua ordem.

São Tomás, muito sabiamente, afastou do pecado dos anjos toda espécie de motivo que não fosse inteiramente espiritual e que viria mais da imaginação que da inteligência. Seu insistente ensino é que, em sua esfera natural, nenhum espírito pode transgredir ou fraquejar de qualquer maneira que seja.

Todavia, se o espírito é elevado, por assim dizer, de sua esfera natural e colocado em ordem mais elevada, na ordem sobrenatural, então existe a possibilidade de runa recusa: o espírito pode recusar-se a aceitar ou a reter alguma coisa que ultrapasse sua ordem; ele pode, com efeito, revoltar-se contra a ordem estabelecida por Deus. Esta é a única explicação teológica admissível para a queda dos anjos. Toma-se necessário desenvolvê-la um pouco.

Pelo sobrenatural um espírito é elevado da sua a uma esfera superior. Mas essa esfera mais elevada significa, essencialmente, conformidade de vida com todos os outros espíritos favorecidos com a mesma elevação; conformidade com espíritos inferiores, comunidade também com o homem.

A graça mais elevada é, com efeito, o dom mais excelente, mas é também o dom mais universal.

Por outro lado, a grandeza natural de um anjo é glória sem igual, perfeição única, com a qual nenhum ser pode rivalizar.

Um espírito pode então escolher, seja entrar em comunhão com o sobrenatural, seja permanecer estacionado em sua própria esfera, preferindo sua própria excelência natural à comunhão com a grande família de Deus.

Ensina São Tomás que certos espíritos escolheram a segunda alternativa: preferiram sua glória natural, isolada à comunhão da caridade sobrenatural. E é nisso que consiste a queda dos anjos.

É orgulho, porque escolheram uma excelência sem levar em conta um bem ainda mais excelente. Foi rebelião, porque a vontade de Deus era que aceitassem o sobrenatural. Foi inveja, não no sentido da sombria paixão humana, mas no de oposição a uma coisa santa à graça de Deus.

Todos os outros pecados devem ser tomados, no caso dos anjos caídos, em sentido mais ou menos metafórico. Quando é afirmado que Satanás desejava ser semelhante a Deus, não podemos tomar essa acertiva como se, em sua razão, ele aspirasse ser tão grande como o Criador. Nenhum espírito é capaz de semelhante loucura, mas, como salienta São Tomás, Satanás "quis indevidamente ser semelhante a Deus, ao desejar, como fim último de sua beatitude, aquilo que ele poderia atingir pela virtude de sua natureza, desviando o seu desejo da beatitude sobrenatural, que tem por causa a graça de Deus. Ou se desejou como fim último a semelhança divina, que tem por causa a graça, ele a terá pretendido pela virtude de sua natureza e não pela ajuda de Deus, como Deus tinha determinado" (I.Q. LXIII, art. 3°).

Tudo isso é, de certa forma, muito claro. É a oposição à ordem sobrenatural que constitui a malícia angélica, o espírito de revolta.

Diz-se, às vezes, que o mistério da Encarnação foi revelado aos espíritos e que sua recusa de adorarem o homem-Deus foi o ponto onde falharam. Isso é apenas uma expressão diferente da mesma doutrina, segundo a qual os anjos caíram por sua deliberada oposição ao sobrenatural, cujo ponto supremo é a Encarnação.

Podemos, nessa matéria, adotar a sábia moderação da qual São Tomás nos dá exemplo: "O anjo pecou ao voltar-se por seu livre-arbítrio, para seu próprio bem, sem ordená-lo à regra superior que é a vontade divina" (LQ. LXIII, art. 1° ad 4).

Estima o grande teólogo que semelhante pecado é compatível com um inteiro conhecimento das causas e seus efeitos, dos princípios e de suas conseqüências e que ele pode existir em um ser que, ao ser criado, estava isento de toda inclinação perversa e de toda a paixão. É, essencialmente, a livre escolha de rim determinado estado, e uiria escolha definitiva.

Todas as demais perversidades atribuídas a Satanás decorrem dessa Hvre escolha, porque Satanás escolheu não um estado passivo de excelência pessoal, mas de toda necessidade, uma oposição ativa à ordem superior.

Portanto, todos os outros pecados são corretamente identificados nos espíritos maus, porque, por todos os meios em seu poder, fazem guerra à ordem sobrenatural. São os grandes perturbadores da ordem divina.

Satanás peca sempre. Satanás é mentiroso. Satanás é homicida, incita os homens aos pecados mais vergonhosos, não que ele próprio tenha qualquer prazer nas obras carnais, mas porque tais obras subtraem o homem à graça de Deus e o excluem da ordem sobrenatural.

E O fato de a Escritura definir, como principal ocupação de Satanás, a tarefa de enganar os homens e enganá-los da forma mais sutil, transformando-se em anjo de luz, é bem conforme a essas acertivas.

A diferença entre a excelência natural e a graça sobrenatural pode, com efeito, parecer mínima, e o grande erro dos homens consiste em que o esplendor dos dons naturais os leve a desprezar a graça de Deus.

Como consequência muito simples, é preciso admitir conservarem os anjos caídos todos os seus dons naturais, sem qualquer diminuição. Conservam mesmo sua ordem, mas permanecem no estado que escolheram e encontram -se, totalm ente, banidos da ordem sobrenatural.

E, como a ordem sobrenatural deve finalmente triunfar. Satanás e os seus estão verdadeiramente relegados às trevas eternas, ao fogo que será para sempre sua prisão. Tem a inteligência obscurecida em relação aos mistérios da graça ou às decisões da livre vontade de Deus, mas não no que concerne aos esplendores do universo natural: o conhecimento desse universo natural faz parte de seu próprio ser, e não poderiam perdê-lo sem que sua essência fosse, ao mesmo tempo, atingida.

Nessas considerações expressamo-nos como se o sobrenatural tivesse sido oferecido aos espíritos, e que uns o tivessem aceitado, e outros não.

No precedente capítulo, dávamos como opinião mais provável que todos os espíritos foram criados em estado sobrenatural e que, por conseguinte, não lhes foi dado escolher entre aceitação e recusa. O valor da opinião teológica não sofre qualquer modificação.

Se bem que, criados na ordem sobrenatural, os espíritos eram livres de nela permanecer ou não, porque isso era essencialmente algo acrescentado às suas propriedades de espírito e não alguma coisa inerente ao seu próprio ser.

Os demônios são chamados espíritos apóstatas, porque decaíram da vocação e da graça a que tinham sido chamados pelo Criador. Não perseveraram em sua eleição ao sobrenatural, como o fizeram os anjos bons.

É, de si, teologicamente evidente que, desde o momento em que um espírito criado é admitido à clara visão de Deus, toda a queda que dela o separasse seria impossível.

Os espíritos decaídos, portanto, jamais tinham atingido este estado de visão beatífica.  

A respeito dos destinos da raça humana, seria falso afirmar que a proteção dispensada ao homem por parte dos espíritos, graças a uma sábia disposição da Providência, tem contrapartida nas más influências exercidas pelos espíritos decaídos.

De fato, não somos colocados entre dois espíritos, um bom, à nossa direita, outro mau, à nossa esquerda. Importaria isso fazer exagerada idéia da atividade exercida sobre os homens pelos espíritos condenados.

A proteção dos anjos é uma disposição divina, diretam ente querida por Deus. As tentações dos demônios não são, evidentem ente, de disposição divina, mas situam-se no que se convencionou chamar de providência permissiva de Deus. Ele as permite, mas não as ordena.

Feita essa ressalva, poderemos levar muito longe nossa crença na realidade dos poderes demoníacos que agem no mundo.

E, antes de tudo, é preciso lembrar que, qualquer que seja a explicação para a presença dos espíritos malignos em nosso planeta, essa presença não é originalmente devida ao pecado do homem. O diabo tentou o homem quando este estava ainda em estado de inocência.

O espírito do mal estava nesta terra antes que o pecado do homem tivesse sido cometido.

Os pecados dos homens firmaram a posição de Satanás neste mundo, mas não se poderia afirmar que a criaram. A presença do Maligno na terra, no tempo em que o homem era ainda inocente, é um mistério insolúvel.

Nada é mais freqüente e explicitamente expressado pela Igreja Romana, em seus diferentes exorcismos e em suas bênçãos, do que a idéia de que os espíritos maus se escondem nas coisas materiais. A Igreja os expulsa por sua triunfante força de santificação e de consagração exercida sobre os elementos visíveis, base da vida humana.

O próprio corpo do homem pode tornar-se morada de um demônio. É o que podemos chamar de silenciosa ocupação desta terra por Satanás, fato misterioso e independente, em sua origem, do consentimento do homem às sugestões malévolas de Satanás.

Existe, contudo, por outro lado, uma presença mais manifesta desses seres tenebrosos. Seria temerário minimizar o que dizem os antigos padres do poder dos demônios nos tempos pagãos, nos ídolos, nos bosques e cavernas onde se realizam ritos pagãos.

Falavam livremente os demônios, pela boca dos ídolos, e são numerosos os incidentes na história da Igreja primitiva, provando que as nações pagãs estavam habituadas a manifestações de poderes invisíveis, de modo algum identificáveis com os poderes de luz.

Além disso, temos ao longo do secular combate espiritual dos cristãos os relatos absolutamente autênticos a respeito das manifestações da atividade demoníaca. Os servos de Deus são perseguidos por forças ferozes, visível e fisicamente, como em pleno dia. O caso mais conhecido na hagiografia moderna é o do Santo Cura d'Ars, que tanto sofreu no seu corpo da parte de seus adversários espirituais.

As mais escondidas tentações do demônio que intervém na vida religiosa do homem ocorrem entre a silenciosa ocupação desta terra por Satanás e as tumultuosas manifestações de seu poder nos casos de possessão ou de obsèssão.

Satanás instiga o homem ao pecado não de maneira manifesta, mas secretamente, tomando-lhe impossível descobrir se a má sugestão vem de sua própria natureza ou de um espírito estranho animado de vontade perversa.

O discernimento nessa questão supõe grandes dons espirituais. Poder-se-ia mesmo afirmar ser um carisma especial; concedido apenas a um bem reduzido número de privilegiados.

De fato, não é necessário sabermos se uma tendência má provém de um espírito exterior ou se é resultado do nosso próprio fundo pervertido. Evitar o pecado é a única coisa que importa e isso está sempre em nosso poder, pela graça de Deus e o socorro dos espíritos bem-aventurados.

No conjunto, é mais conforme com a tradição católica considerar o cristão revestido de sua gloriosa armadura espiritual como temível para os demônios do que viver em meio a temores e terrores causados pelos espíritos das trevas. "Não deis entrada ao diabo" (Ef 4,27) é o conselho do apóstolo, que revela a verdadeira psicologia da tentação diabólica em nossa vida espiritual.

Dá-se entrada ao diabo por todo desvio voluntário na ordem moral. O espírito mau entra em nossa vida, através dessas fraquezas das quais nos tomamos culpados pela nossa própria negligência.

A infidelidade à graça divina parece não poder permanecer como um assunto puramente humano, p ois tem prolongamentos que o homem não considera, mas que, nem por isso, deixam de ser suas inevitáveis conseqüências.

Somos, na expressão enérgica da oração do antigo Missal, no então 17° domingo depois de Pentecostes, expostos ao contágio diabólico: "diabólica contagio".

A influência do diabo sobre as massas humanas é, por outro lado, sem dúvida, muito mais forte que a sedução que ele opera sobre homens particulares. As massas são mais sujeitas à sugestão, e tudo quanto sabemos da psicologia das multidões leva-nos a temer que, posto à parte o povo cristão, seja fato muito real a influência de Satanás sobre a humanidade.

Os demônios são, segundo as palavras de São Paulo, "os dominadores deste mundo de trevas" (Ef 6,12). E não se trata aqui da escravidão exercida por Satanás sobre a humanidade, em conseqüência do pecado e da qual ela foi arrancada pela Cruz do Cristo. Tal aspecto do poder demoníaco pertence diretam ente ao Mistério da Redenção.

As relações do homem com os demônios não se assemelham às suas relações com os bons espíritos. Com estes não temos qualquer contato que não esteja perfeitamente na ordem querida por Deus, e isso em razão mesmo da definição da santidade angélica. Enquanto que os demônios, como espíritos revoltados, podemos, a justo título, indagar se está no poder do homem entrar em contato, para fins pessoais, com espíritos perversos mais poderosos.

Indagar-se-á, naturalmente, se o demônio jamais respondeu ao homem, quando este quis aproximar-se e manter contato com ele.

A magia negra sempre exerceu fascínio sobre certos espíritos, mas é fora de dúvida que a maioria dessas pretendidas realidades, senão todas, pertencem ao domínio da fábula. Consultar o diabo sempre foi considerado como um dos mais tremendos pecados que o homem possa cometer.

O espiritismo do tipo moderno é mais sério e mais alarmante. Não pertence, diretamente, nem à angelologia, nem à demonologia, porque o espírita se vangloria de entrar em relação com ôs espíritos humanos separados de seus corpos.

Há, entretanto, sólidas presuijções de que os fenômenos espíritas, quando não são imposturas, sejam de origem diabólica.

Encarado desse ângulo, o espiritismo não passa de uma subdivisão da demonologia. Sem dúvida, todos os espíritas modernos se defendem de ter contato com os poderes das trevas do mundo invisível. Insistem na pureza de suas intenções ao invocar o mundo invisível e, talvez, em certos casos, sejam sinceros. Pretendem tais pessoas aprender dos próprios espíritos aquilo que diz respeito aos espíritos, e entrar em contato, unicamente, com espíritos bem-aventurados que estão no além. Um espiritismo assim depurado é deveras sedutor e não se pode, ao que parece, refutá-lo, mostrar sua ilegalidade e sua imoralidade fora da revelação, salvo crença na autoridade diretiva da Igreja.

Todos os outros argumentos contra o espiritismo são baseados em certos aspectos maus e secundários da prática; ou, então, assumem como certa a coisa mesma que trata de estabelecer, ou seja, que o espiritismo é um comércio com os anjos decaídos.

Temos aqui admirável exemplo do benefício resultante da direção de uma Igreja viva, que nos coloca em posição de ver claro onde tantos são enganados e cativados pelo espírito do erro, transformado em anjo da luz.

Nada é mais triste que ver o número de gente honesta, homens e mulheres, caídos sob essa servidão, fascinados pelo espiritismo contemporâneo.

Sabemos, como católicos, que se tornaram joguetes dos espíritos que são mentirosos desde o princípio. Sua ignorância da perversidade moral de tal prática em nada diminui seu mal. Tomaram-se vítünas de uma pavorosa conspiração do mal nas altas esferas.

Quanto a nós, se disso escapamos e permanecemos imunes, é graças à nossa fidelidade à direção da Igreja viva.

Relativamente ao católico que se recusa a aceitar tal direção, em matérias tão graves, não vejo como uma exposição puramente especulativa do mal do espiritismo possa contribuir para salvá-lo dos piores excessos de sua curiosidade malsã.

É bom recordar ter a Igreja Católica sua própria doutrina cheia de saúde e de vida. Ela crê que cada alma, em estado de graça, está em comunhão espiritual com todas as outras almas ornadas do mesmo privilégio, e que tal comunhão se estende bem além desta vida mortal.

O cristão neste mundo tem afinidade das mais íntimas com todos os espíritos eleitos, angélicos e humanos, do mundo por vir.

A Igreja tem mesmo teorias muito precisas e muito práticas sobre a maneira pela qual podem os espíritos aproximar-se uns dos outros. Essa profunda doutrina não é senão um aspecto da grande verdade do Corpo Místico do Cristo.

Acrescentemos que um conhecimento mais aprofundado do estado de separação, inaugurado no momento da morte, entre o espírito do homem e seu corpo, facilitará grandemente a compreensão do pensamento católico, sobre o ponto de que nos ocupamos.

Para essas questões de alto interesse, recomendamos ao leitor os correspondentes capítulos da teologia católica.  

É evidente, segundo todas as leis, da vida espiritual, que os anjos devem desempenhar de uma ou de outra maneira importante papel na beatitude eterna do homem.

Possuir toda a verdade, estar em contato com toda a realidade e contemplar toda a beleza, eis em que consistirá, essencialmente, a felicidade do eleito.

Ver os anjos, contemplá-los, deve necessariamente constituir para o homem uma fonte de felicidade maior que todo o gozo que o mundo visível poderia oferecer-lhe. De fato, é a suprema fonte criada da felicidade a fonte incriada, sendo o próprio Deus visto sem véu na visão beatífica.

Estar com os anjos, vê-los em sua glória é um desejo muito legítimo do coração do homem, e os santos, frequentemente, deram livre curso à expressão desse ardente desejo.

Não percamos jamais de vista aquele princípio de vida essencialmente católico, segundo o qual a posse da suprema Bondade, isto é, o próprio Deus, não destrói, de forma alguma, a inclinação para a bondade criada, mas, ao contrário, a realça.

Contemplar Deus face a face produz na inteligência do eleito uma nova capacidade de vê-lo em suas criaturas. E onde vê-se isso melhor do que no mundo dos anjos, que reflete, como perfeito espelho, como uma força de brilho por assim dizer infinito, a glória do Deus invisível?

Ademais, pela comunhão da graça sobrenatural, o homem é aliado aos anjos pelos laços da caridade. Longe de lhes ser estrangeiro, o homem é seu concidadão.

Haverá, assim, entre o homem e os espíritos celestes uma realíssima troca de amor. O homem, além de contemplar os anjos em toda sua glória, estará em relação com eles, como cidadão do mesmo Reino e filho do mesmo Pai.

Esse relacionamento que unirá o homem aos espíritos celestes será o supremo escalão do amor criado. Não poderá existir maior amor a não ser na união do homem com o próprio Deus.

Entretanto, existe mais ainda do que essa associação do homem com os anjos na visão e no amor. Essa associação seria possível ainda que toda a raça humana — raça humana eleita, bem entendido — permanecesse em sua esfera própria e em seu nível inferior ao mundo angélico.

A raça humana poderia, nesse caso, ser considerada como a última região do mundo dos eleitos e sua porção menos elevada. Tal não é, contudo, a maneira tradicional pela qual o teólogo católico encara a questão. Numerosas opiniões consideram essa associação dos homens com os anjos como devendo ser muito mais íntima e mais profunda. Os eleitos da raça humana serão elevados, na própria hierarquia dos anjos, às fileiras dos Querubins, dos Serafins e das outras ordens.

Não serão simplesmente a franja exterior do mundo dos espíritos, mas, ao contrário, estrelas brilhantes em cada um dos diversos planos desse mundo.

Segundo a tradição católica, os homens estão destinados a ocupar o lugar dos espíritos decaídos, a preencher os vazios resultantes da apostasia dos anjos rebeldes.

Essa crença modifica profundamente as relações do homem com os anjos, colocando-o em pé de igualdade com esses espíritos poderosos, e isto constitui a mais admirável de todas as exaltações na ordem espiritual.

Ainda que não possamos dizer com certeza, se absolutamente todos os eleitos dentre os homens estão destinados a ocupar o lugar dos espíritos decaídos, nenhuma dúvida parece possível quanto à intenção de Deus de preencher com seres humanos os lugares vagos nas hierarquias espirituais.

Deus quer multiplicar suas graças e preparar seus santos em um tal desígnio de predestinação que nenhum dos tronos da vida espiritual encontre-se desocupado no dia em que o grandioso plano de Deus tenha recebido seu completo acabamento.

Que deva, pois, existir mais que simples associação entre os homens e os anjos na glória da eternidade, isso resulta ainda claramente das palavras do Senhor quando afirma, falando da ressurreição dos eleitos: "Também não podem mais morrer, pois são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição" (Lc 20,36).

Essa igualdade significa mais que simples semelhança, expressa uma comunidade de privilégios que faz dos homens e dos espíritos eleitos uma só sociedade. Essa igualdade é inteiramente baseada na graça.

A natureza humana permanecerá sempre o que ela é, de longe inferior à natureza angélica. Tão grande é, contudo, o poder da graça que ela lança como uma ponte sobre a desigualdade das naturezas, fazendo possível a um eleito da raça humana tornar-se, em todo rigor do termo, igual ao mais elevado dos anjos e, por conseguinte, muito superior aos outros anjos de nível inferior.

Nessa matéria, como na maior parte de nossos raciocínios filosóficos concernentes aos espíritos, devemos limitar-nos aos princípios gerais. Pela natureza mesma das coisas, os detalhes nos escapam. Assim, ignoramos a proporção dos espíritos decaídos, tanto quanto a dos que entraram na imutável glória da Visão bem-aventurada.

Não sabemos, com maior segurança, a direção tomada pelo grande cisma no mundo celeste, quando sobreveio o deslizamento que levou para longe de Deus tão grande número de espíritos. Teriam todas as ordens de anjos estado representadas nessa queda? Teria havido maioria de rebeldes em um ou outro coro? Foram muito mais numerosos os apóstatas entre os anjos inferiores do que entre os superiores?

É impossível responder, com alguma certeza, a essas questões.

São Tomás inclina-se a pensar que caiu apenas uma minoria de espíritos, porque, como observa sabiamente, a queda é para um espírito, contrária à sua natureza, e as coisas contrárias à natureza acontecem, de ordinário, antes como exceção que como regra geral.

Parece, todavia, que caiu o mais elevado dos espíritos, e que esse poderoso príncipe de luz foi, assim, causa da apostasia de muitos outros. Pensa-se, ordinariamente, ter sido Lúcifer esse mais elevado espírito que se transformou em príncipe das trevas.

Não vamos, porém, fazer aqui estudo especial da demonologia. Nosso objetivo é mais consolador. Guardemos, contudo, que qualquer que seja a altura que tivesse ocupado um espírito decaído na escala dos seres, a graça de Deus pode elevar um homem até essa posição, de forma que mesmo o trono desertado por Lúcifer poderá tornar-se herança de uma santa alma humana.

Como insinuávamos antes, não somos evidentemente obrigados a admitir que todos os seres humanos salvos pela graça do Cristo estejam destinados a ser elevados entre as hierarquias angélicas.

Cajetano (in I.Q. CVIII, art. 8°), o rigoroso teólogo da época da Reforma, acredita que as crianças que morrem, salvas pela graça batismal, sem nenhum mérito pessoal, estarão abaixo da ordem dos anjos eleitos. Serão a parte da raça humana que permanece no lugar que lhe é próprio. Serão semelhantes aos anjos, sem ser seus iguais.

De maneira contrária, haverá também seres humanos que, pelas leis mesmas de sua predestinação, serão absolutamente superiores a toda ordem angélica. Entre tais criaturas, a Santíssima Mãe de Deus é certamente a primeira.

O princípio de aplicação geral é o seguinte; a graça é mais elevada que a natureza; mais elevada mesmo que a mais elevada das naturezas espirituais e sua extensão é mais vasta que o mais vasto dos mundos.

A título de confirmação da doutrina que pretende substituir nos escalões angélicos os anjos decaídos pelos homens, pode-se citar o texto de São Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios: "Não sabeis que julgaremos os anjos? Por que, com maior razão, não julgaríamos os negócios desta vida?" (ICor 6,3). O apostolado e, evidentemente, ao grande julgamento do final dos tempos. O direito de julgar será dado aos santos, e eles o exercerão não apenas em relação a este mundo, mas também em relação aos anjos — os anjos decaídos, é claro. Esse poder de julgar pressupõe, naturalmente, não apenas igualdade, mas superioridade.

Na Igreja Ocidental é a virgindade que é tida por representar mais particularmente a vida angélica entre os homens; enquanto a Igreja Oriental identifica, mais comumente, a vida angélica com a renúncia aos bens temporais.

A luta para atingir uma mais alta perfeição e levar vida angélica sob todos os aspectos é, na espiritualidade cristã, uma preparação para subir aos mais altos lugares entre os anjos, no século futuro.

Os mártires, por sua vez, estão entre aqueles que serão julgados dignos de ver seus nomes confessados pelo Filho de Deus, em presença de seus santos anjos. O heroísmo sob qualquer forma, praticado pelos cristãos durante sua peregrinação nesta terra, lhes confere direito a uma recompensa expressa, muito adequadamente pela palavra "trono".

"Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, como eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono" (Ap 3,21)  

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