I PARTE

Como já se tem dito a respeito da religiosidade popular, o culto dos anjos tem diminuído muito na piedade do povo, estando quase desaparecido, embora se note uma certa renovação devido às aparições do anjo aos pastorinhos de Fátima.

É realmente uma lacuna, ao haver o culto a Cristo, à Virgem e aos santos, faltar infelizmente o culto dos anjos, que até em sermões, catequese etc. está muito escasso. É uma consequência da falta de fé e da espiritualidade, pois tanta falta nos faz o "oxigénio da espiritualidade" e, quanto maior for a presença de anjos na nossa vida, maior será a nossa consciência de Deus.

Mas o ambiente demasiado materialista que levamos, leva para segundo lugar até desaparecer mesmo o culto aos anjos: o ambiente de pensarmos que nos bastamos a nós mesmos sem necessidade de Deus ou da oração, a ilusão dos bens e progresso material, a mentalidade televisiva da imagem concreta que vai criando em nós a impressão de que só existe o que se vê, o paraíso artificial do consumismo e das belas liturgias desportivas nos estádios juntamente com o mundo da vida fácil e dos prazeres da droga, sexo, prestígio e carreira e emoções de choque na música e outras actividades, todo este ambiente leva a esquecer e a apagar a vida espiritual e culto dos anjos que são precisamente puros espiritos.

Ainda no ambiente das emoções ou sentimentos materialistas de choque lembre-se o excesso de ruído na vida moderna que não favorece a vida contemplativa e artística da poesia e da oração, além do facto de a cultura moderna do passageiro desinteressar-se dos valores da vida e da eternidade tanto no sector familiar como do respeito pelas pessoas, resultando daí indiferença ou falta de interesse pelas virtudes familiares e relações verticais com Deus e ideias espirituais perante a preocupação exclusiva pelas relações horizontais de tipo social e político e económico e daí que surjam modernamente muitas religiões a preencher este vazio da cultura moderna. A caridade a resfriar, a fé a enfraquecer, a libertinagem a crescer, as devoções cristãs a diminuir são fracos sinais dos tempos. Como diz São João Paulo II, "os anjos são os grandes desconhecidos nestes tempos de cosmolatria" em que se adoram as realidades mundanas temporais, não se dando valor às espirituais.

Por outro lado, desacreditou-se o culto dos anjos, com a banalização, tornando-os adornos e enfeites de chocolates, postais e outras miudezas bem como ainda certas imagens de anjos gordanchudos nas igrejas e também o uso de chamar-se "anjinho" a um simplório e por estas e outras razões mais é que se criou a impressão em muitas pessoas de que os anjos são uma espécie de fadas ou de Pai-Natal.

Além da realidade dos anjos propriamente ditos, tem-se chamado anjos, na linguagem vulgar e em obras literárias, a pessoas que realmente não são os anjos nem o podem ser mas que se parecem com eles nalguma qualidade, como a dizer-se "a mãe é um anjo para mim". Ora esta comparação, que tem um fundo de verdade embora não seja a própria realidade angélica, deve acautelar-nos de querermos ter a pura espiritualidade dos anjos, embora a devamos imitar. É que, doutra forma, iríamos cair num grande fracasso, por não termos tido também em conta o corpo material.

As pessoas humanas, ao contrário dos anjos, são pessoas mistas, por terem espírito ou alma como os anjos e por terem também corpo como os animais. O mal de não se ter tido em conta estas duas realidades já se mostrou em pessoas desejosas de serem muito espirituais, que acabaram por desprezar o matrimónio (onde o corpo é importante para a geração dos filhos). Estas mesmas pessoas, por gostarem de estar unidas a Deus muito espiritualmente, acabaram por dispensar e não querer receber os sacramentos, por neles haver coisas materiais (o corpo era também material) como é a água no baptismo, o pão na eucaristia, etc. De tão espirituais, que eram, abandonaram tudo o que fosse material onde viam ambiente de pecado (a virtude era só no espiritual).

Ao esquecerem e ao abandonarem a materialidade como que se vinga, fazendo as pessoas regressar a ela, esquecendo ao mesmo tempo o espiritual, o que é sair de um extremo para cair noutro e ainda pior. Portanto, uma pura espiritualização angélica nas pessoas é um mal como ainda pior é ser-se uma pessoa materialista e animalesca. É que, com alma e corpo, devemos ter a espiritualidade na Encarnação.

Para evitar estes dois males ou extremos, há a notar o seguinte. A pessoa humana é um espírito incarnado num corpo e o corpo pertence ao mundo material. Por isso é que o Filho de Deus, de puríssimo espírito que era, passou a ser também homem, incarnado na Virgem Maria, da qual recebeu um corpo humano e incarnou para ser o melhor e mais perfeito modelo para os homens imitarem. Por Ele os homens veriam a Deus que Ele sempre fora e por Ele Deus tinha um rosto humano para os homens se sentirem à vontade diante de Deus. Assim é que em 1953 dizia, na Sé do Porto, o pensador António Ferreira Gomes: "O Verbo humanou-se; fora d´Ele o homem se angeliza ou se animaliza; melhor, querendo angelizar-se, animaliza-se". É que a pura espiritualização é o chamado pecado do angelismo como o ser-se materialista animalesco é outro pecado ainda pior. Embora escritas a outro propósito, ainda interessam para este caso as seguintes palavras do mesmo pensador em 1956: "não há salvação para o homem que não seja no nome do único Senhor e Salvador Jesus Cristo; fora d´Ele, o homem sempre aspirará ao super-homem e sempre realizará o infra-homem".

Então como é que se pode imitar a espiritualidade angélica? É o que vamos agora ver. Dos dois elementos humanos, corpo e espírito ou alma, o elemento de mais dignidade e primazia (embora os dois sejam sempre importantes), é o espírito por ser o de mais valor e por causa do nosso espírito a espiritualidade angélica tem grande valor, desde que se aproveite também o corpo. É que a religião cristã não é uma religião unicamente espiritualista como pode parecer, e muito menos é uma religião materialista mas ela abrange as duas coisas, começando pelo lado mais importante do espírito para chegar também a atingir o corpo e o restante mundo material. É uma religião portanto total, de espírito incarnado em corpo tal como é a pessoa humana. É, portanto, uma religião não apenas espiritualista embora comece por aí, mas é principalmente uma religião sacramental a abranger o espiritual e o material, pois no sacramento o elemento material está unido e a serviço do elemento espiritual como no baptismo a água material está a lembrar a vida e a limpeza da graça espiritual de filhos de Deus, havendo assim uma caminhada (chamada Fé) do elemento material para a vivência espiritual e cada dia é sempre uma partida na fé. Se houver paragem, então esquecemos o fim ou destino espiritual e fazemos então das coisas os nossos deuses ou ídolos, em vez de fazermos delas escada para Deus, pois elas são, de certo modo, uma imitação de Deus enquanto são amostras da sabedoria e poder de Deus e criadas por Deus para nos ajudarem a irmos para Deus.

Se elas têm algumas perfeições, então Deus é a própria perfeição em pessoa. S. Francisco de Assis, ao olhar para as coisas materiais criadas, estava a ter, através delas, mais uma ideia de Deus e a gostar cada vez mais de Deus. As coisas, espirituais como até as materiais, são amostras ou sacramentos de Deus ou sinais para Deus. Se ao vê-las, não somos capaz de estar também a ver Deus, então estamos parados a adorá-las, como nosso ídolo, em vez de caminharmos para Deus através delas. Sacramento quer dizer amostra de Deus, e que as coisas são, embora os grandes sacramentos sejam Cristo que é a amostra perfeita de Deus e, a seguir, os 7 sacramentos da graça divina incarnada em coisas materiais como a água material no sacramento do baptismo, etc.

Ora saber descobrir no mundo material esta beleza de Deus, é estar a criar um ambiente divino no mundo, é estar, pois, a louvar Deus no mundo, é estar a consagrar o mundo material a Deus. As bênçãos (benzer um campo, benzer uma coisa qualquer) é consagrá-la para o bem e não para o mal, é estar a dar uma aragem de graça ou a dar um aroma ou cheirinho eucarístico ao mundo material. Assim, com os dons espirituais da graça e da espiritualidade o mundo fica mais belo.

É nesta aproximação do mundo para Deus, consagrando-o através duma espiritualização, que está o caminho a seguir. Assim é que será uma espiritualização incarnada no mundo e na vida e nunca abandono ou desprezo do mundo. É claro que as coisas más do mundo também chamadas coisas mundanas, essas são claramente de abandonar e desprezar, pois as coisas boas é que devem ser o nosso ideal.

Agora o contrário que é, em vez de irmos para Deus, querermos que Deus se torne mundano como nós, adaptando-O a nós, fazendo Deus à nossa maneira, então estamos a pecar, fazendo d´Ele um ídolo. Ora nunca devemos nem fugir a Deus ou esquecê-Lo nem devemos dominá-Lo fazendo-O à nossa maneira mas procurando sempre encontrá-Lo cada vez mais.

Nesta peregrinação para Deus, convém nunca nos contentarmos com o mundo, por melhor e mais belo e consagrado que possa estar, mas ter sempre fome de mais e melhor como são os valores espirituais a que Deus nos chama a cada hora e momento que passa.

Todo este programa de elevação de tudo a Deus ou programa de sacramentalização, já foi apresentado pelo Papa Pio XII a 10-02-1952, ao dizer: "É todo um mundo, que é preciso refazer desde os seus fundamentos, que é preciso transformar de selvagem em humano, de humano em divino, isto é, segundo o coração de Deus".

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Para sermos seres incarnados com espírito e corpo, ao contrário dos anjos que são só puros espíritos, é que representamos, os anjos de forma incarnada: jovens vestidos de branco, com vários olhos e com asas. Não é que eles tenham isso pois são apenas espirituais, mas, comparando-os com as coisas humanas ou materiais, usamos as asas para significar "rapidez", a cor branca para mostrar a sua "beleza e inocência" e a sua juventude para indicar a sua "vida".

Por sermos seres incarnados, devemos evitar, pois, dois extremos opostos: o do angelismo, desprezando o corpo, e o do mundanismo, esquecendo o espírito, como dizia José Maria Cabodevilla por estas palavras: incarnar sem mundanizar com o materialismo.

Desenvolver uma espiritualização mais incarnada é em que consiste a nossa imitação (mas nunca igualização) dos anjos, pois parecendo-nos com os anjos, vamo-nos parecendo com Deus. Os anjos estão entre a nossa imanência e a transcendência de Deus. Quanto menos levarmos uma vida de materialismo e uma cultura de sentidos, mais abertos estamos ao ambiente angélico e o convívio com os anjos torna-nos melhores.

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Noutros tempos, falava-se muito da virtude da pureza e dizia-se ser a virtude dos anjos, isto é, uma virtude angélica. Havia nesses tempos alguns defeitos, pondo-se até o 6.º e o 9.º mandamentos da lei de Deus, que tratam dessa virtude, como mais importantes que os outros mandamentos, o que era um exagero, pois a virtude da caridade é a mais importante de todas as virtudes. Actualmente esta virtude anda de rastos. Dum extremo passou-se, mais uma vez, para outro extremo.

A respeito da virtude da pureza, uma vez que ela está relacionada com a sexualidade e a geração da vida humana segundo a maneira natural como Deus dispôs as coisas, podemos dizer o seguinte.

Por um lado, podíamos dizer que esta virtude, como afirmou F. Sheen, é o respeito pelo dom da vida tal como Deus entende de destinou. Como actualmente, há pouca ou nenhuma fé, quase se não liga a Deus, compreende-se, pois, o triste estado e falta de respeito a que se chegou em tudo isto.

José Maria Cabodevilla disse que esta virtude era a virtude da humanização da sexualidade, isto é, não uma sexualidade de instintos animalescos mas sim sexualidade de respeito, amor e compreensão a serviço do plano criador de Deus, tal como acima disse o Papa Pio XII: transformar o mundo de selvagem em humano e de humano em mundo divinizado.

A sexualidade nas pessoas é uma realidade muito delicada, pois é nela que o espírito e o corpo mais se interlaçam, sendo pois uma realidade psico-somática. É, pois, uma realidade muito delicada, muito pessoal e íntima, nunca devendo ser banalizada, escancarada publicamente como se vê modernamente em namoros, sem qualquer respeito pelo mínimo pudor. Além destes aspectos humanos, deve ser também e ainda amostra das realidades divinas, ou seja, sacramento. Só assim reflectindo e amostrando aragem divina sacramental é que será virtude angélica até certo ponto, pois os anjos como puros espíritos não têm sexualidade material.

São ainda virtudes angélicas as da humildade, obediência, simplicidade, longanimidade, harmonia de contemplação com acção.

Sobre o que se pensa modernamente dos anjos há um excelente resumo feito por Ignacio Maria Suarez Ricondo, com o título de "La Teologia Moderna sobre los Ângeles y el Magisterio de Juan Pablo II", tese de licenciatura, em 1996, em Roma, no Pontifício Ateneu Romano de Santa Cruz. Aí se mostra a validade da doutrina tradicional perante outras maneiras diferentes e defeituosas de pensar. Segundo o ensino tradicional, os anjos são puros espíritos, com inteligência e vontade, criados por Deus e que estão ao serviço de Cristo sendo mensageiros de Deus para os homens e, por outro lado estando encarregados de aproximar os homens de Deus como são os anjos da guarda, prestando ajuda e protecção às pessoas, apresentando as orações das pessoas a Deus.

São, pois, mediadores e intermediários entre Deus e os homens e, abaixo de Jesus e Maria, são a imagem mais perfeita de Deus e são merecedores da nossa veneração. Esta doutrina tradicional dos anjos é mesmo dogma de Fé pelo 4.º Concílio de Latrão de 1215 e 1 Concílio Vaticano além de constar no Credo de Niceia – Constantinopla. O ofício dos anjos é, pois, adorar a Deus com o seu louvor e serem intermediários entre Deus e os homens. Os anjos, sendo muitos, formam diversos grupos de acordo com os seus dons e actividade: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, principados, como também diz S. Paulo (Col 1.17, Efésios 1.21). Entre os homens (seres mistos de materialidade e espiritualidade) e Deus (puro espírito) estão os anjos que são puros espíritos, "senadores do céu", "príncipes da criação", nossos futuros "companheiros da eternidade", "os braços e a mão de Deus" no mundo como "ministros de Deus" que são, mensageiros e embaixadores de Deus.