Como já se tem dito a respeito da
religiosidade popular, o culto dos anjos tem diminuído muito na
piedade do povo, estando quase desaparecido, embora se note uma certa
renovação devido às aparições do anjo aos pastorinhos de Fátima.
É realmente uma lacuna, ao haver o
culto a Cristo, à Virgem e aos santos, faltar infelizmente o culto
dos anjos, que até em sermões, catequese etc. está muito escasso.
É uma consequência da falta de fé e da espiritualidade, pois tanta
falta nos faz o "oxigénio da espiritualidade" e, quanto maior
for a presença de anjos na nossa vida, maior será a nossa
consciência de Deus.
Mas o ambiente demasiado materialista
que levamos, leva para segundo lugar até desaparecer mesmo o culto
aos anjos: o ambiente de pensarmos que nos bastamos a nós mesmos sem
necessidade de Deus ou da oração, a ilusão dos bens e progresso
material, a mentalidade televisiva da imagem concreta que vai criando
em nós a impressão de que só existe o que se vê, o paraíso
artificial do consumismo e das belas liturgias desportivas nos
estádios juntamente com o mundo da vida fácil e dos prazeres da
droga, sexo, prestígio e carreira e emoções de choque na música e
outras actividades, todo este ambiente leva a esquecer e a apagar a
vida espiritual e culto dos anjos que são precisamente puros
espiritos.
Ainda no ambiente das emoções ou
sentimentos materialistas de choque lembre-se o excesso de ruído na
vida moderna que não favorece a vida contemplativa e artística da
poesia e da oração, além do facto de a cultura moderna do
passageiro desinteressar-se dos valores da vida e da eternidade tanto
no sector familiar como do respeito pelas pessoas, resultando daí
indiferença ou falta de interesse pelas virtudes familiares e
relações verticais com Deus e ideias espirituais perante a
preocupação exclusiva pelas relações horizontais de tipo social e
político e económico e daí que surjam modernamente muitas
religiões a preencher este vazio da cultura moderna. A caridade a
resfriar, a fé a enfraquecer, a libertinagem a crescer, as devoções
cristãs a diminuir são fracos sinais dos tempos. Como diz São João
Paulo II, "os anjos são os grandes desconhecidos nestes tempos de
cosmolatria" em que se adoram as realidades mundanas temporais, não
se dando valor às espirituais.
Por outro lado, desacreditou-se o culto
dos anjos, com a banalização, tornando-os adornos e enfeites de
chocolates, postais e outras miudezas bem como ainda certas imagens
de anjos gordanchudos nas igrejas e também o uso de chamar-se
"anjinho" a um simplório e por estas e outras razões mais é
que se criou a impressão em muitas pessoas de que os anjos são uma
espécie de fadas ou de Pai-Natal.
Além da realidade dos anjos
propriamente ditos, tem-se chamado anjos, na linguagem vulgar e em
obras literárias, a pessoas que realmente não são os anjos nem o
podem ser mas que se parecem com eles nalguma qualidade, como a
dizer-se "a mãe é um anjo para mim". Ora esta comparação, que
tem um fundo de verdade embora não seja a própria realidade
angélica, deve acautelar-nos de querermos ter a pura espiritualidade
dos anjos, embora a devamos imitar. É que, doutra forma, iríamos
cair num grande fracasso, por não termos tido também em conta o
corpo material.
As pessoas humanas, ao contrário dos
anjos, são pessoas mistas, por terem espírito ou alma como os anjos
e por terem também corpo como os animais. O mal de não se ter tido
em conta estas duas realidades já se mostrou em pessoas desejosas de
serem muito espirituais, que acabaram por desprezar o matrimónio
(onde o corpo é importante para a geração dos filhos). Estas
mesmas pessoas, por gostarem de estar unidas a Deus muito
espiritualmente, acabaram por dispensar e não querer receber os
sacramentos, por neles haver coisas materiais (o corpo era também
material) como é a água no baptismo, o pão na eucaristia, etc. De
tão espirituais, que eram, abandonaram tudo o que fosse material
onde viam ambiente de pecado (a virtude era só no espiritual).
Ao esquecerem e ao abandonarem a
materialidade como que se vinga, fazendo as pessoas regressar a ela,
esquecendo ao mesmo tempo o espiritual, o que é sair de um extremo
para cair noutro e ainda pior. Portanto, uma pura espiritualização
angélica nas pessoas é um mal como ainda pior é ser-se uma pessoa
materialista e animalesca. É que, com alma e corpo, devemos ter a
espiritualidade na Encarnação.
Para evitar estes dois males ou
extremos, há a notar o seguinte. A pessoa humana é um espírito
incarnado num corpo e o corpo pertence ao mundo material. Por isso é
que o Filho de Deus, de puríssimo espírito que era, passou a ser
também homem, incarnado na Virgem Maria, da qual recebeu um corpo
humano e incarnou para ser o melhor e mais perfeito modelo para os
homens imitarem. Por Ele os homens veriam a Deus que Ele sempre fora
e por Ele Deus tinha um rosto humano para os homens se sentirem à
vontade diante de Deus. Assim é que em 1953 dizia, na Sé do Porto,
o pensador António Ferreira Gomes: "O Verbo humanou-se; fora d´Ele
o homem se angeliza ou se animaliza; melhor, querendo angelizar-se,
animaliza-se". É que a pura espiritualização é o chamado pecado
do angelismo como o ser-se materialista animalesco é outro pecado
ainda pior. Embora escritas a outro propósito, ainda interessam para
este caso as seguintes palavras do mesmo pensador em 1956: "não há
salvação para o homem que não seja no nome do único Senhor e
Salvador Jesus Cristo; fora d´Ele, o homem sempre aspirará ao
super-homem e sempre realizará o infra-homem".
Então como é que se pode imitar a
espiritualidade angélica? É o que vamos agora ver. Dos dois
elementos humanos, corpo e espírito ou alma, o elemento de mais
dignidade e primazia (embora os dois sejam sempre importantes), é o
espírito por ser o de mais valor e por causa do nosso espírito a
espiritualidade angélica tem grande valor, desde que se aproveite
também o corpo. É que a religião cristã não é uma religião
unicamente espiritualista como pode parecer, e muito menos é uma
religião materialista mas ela abrange as duas coisas, começando
pelo lado mais importante do espírito para chegar também a atingir
o corpo e o restante mundo material. É uma religião portanto total,
de espírito incarnado em corpo tal como é a pessoa humana. É,
portanto, uma religião não apenas espiritualista embora comece por
aí, mas é principalmente uma religião sacramental a abranger o
espiritual e o material, pois no sacramento o elemento material está
unido e a serviço do elemento espiritual como no baptismo a água
material está a lembrar a vida e a limpeza da graça espiritual de
filhos de Deus, havendo assim uma caminhada (chamada Fé) do elemento
material para a vivência espiritual e cada dia é sempre uma partida
na fé. Se houver paragem, então esquecemos o fim ou destino
espiritual e fazemos então das coisas os nossos deuses ou ídolos,
em vez de fazermos delas escada para Deus, pois elas são, de certo
modo, uma imitação de Deus enquanto são amostras da sabedoria e
poder de Deus e criadas por Deus para nos ajudarem a irmos para Deus.
Se elas têm algumas perfeições,
então Deus é a própria perfeição em pessoa. S. Francisco de
Assis, ao olhar para as coisas materiais criadas, estava a ter,
através delas, mais uma ideia de Deus e a gostar cada vez mais de
Deus. As coisas, espirituais como até as materiais, são amostras ou
sacramentos de Deus ou sinais para Deus. Se ao vê-las, não somos
capaz de estar também a ver Deus, então estamos parados a
adorá-las, como nosso ídolo, em vez de caminharmos para Deus
através delas. Sacramento quer dizer amostra de Deus, e que as
coisas são, embora os grandes sacramentos sejam Cristo que é a
amostra perfeita de Deus e, a seguir, os 7 sacramentos da graça
divina incarnada em coisas materiais como a água material no
sacramento do baptismo, etc.
Ora saber descobrir no mundo material
esta beleza de Deus, é estar a criar um ambiente divino no mundo, é
estar, pois, a louvar Deus no mundo, é estar a consagrar o mundo
material a Deus. As bênçãos (benzer um campo, benzer uma coisa
qualquer) é consagrá-la para o bem e não para o mal, é estar a
dar uma aragem de graça ou a dar um aroma ou cheirinho eucarístico
ao mundo material. Assim, com os dons espirituais da graça e da
espiritualidade o mundo fica mais belo.
É nesta aproximação do mundo para
Deus, consagrando-o através duma espiritualização, que está o
caminho a seguir. Assim é que será uma espiritualização incarnada
no mundo e na vida e nunca abandono ou desprezo do mundo. É claro
que as coisas más do mundo também chamadas coisas mundanas, essas
são claramente de abandonar e desprezar, pois as coisas boas é que
devem ser o nosso ideal.
Agora o contrário que é, em vez de
irmos para Deus, querermos que Deus se torne mundano como nós,
adaptando-O a nós, fazendo Deus à nossa maneira, então estamos a
pecar, fazendo d´Ele um ídolo. Ora nunca devemos nem fugir a Deus
ou esquecê-Lo nem devemos dominá-Lo fazendo-O à nossa maneira mas
procurando sempre encontrá-Lo cada vez mais.
Nesta peregrinação para Deus, convém
nunca nos contentarmos com o mundo, por melhor e mais belo e
consagrado que possa estar, mas ter sempre fome de mais e melhor como
são os valores espirituais a que Deus nos chama a cada hora e
momento que passa.
Todo este programa de elevação de
tudo a Deus ou programa de sacramentalização, já foi apresentado
pelo Papa Pio XII a 10-02-1952, ao dizer: "É todo um mundo, que é
preciso refazer desde os seus fundamentos, que é preciso transformar
de selvagem em humano, de humano em divino, isto é, segundo o
coração de Deus".
* * *
Para sermos seres incarnados com
espírito e corpo, ao contrário dos anjos que são só puros
espíritos, é que representamos, os anjos de forma incarnada: jovens
vestidos de branco, com vários olhos e com asas. Não é que eles
tenham isso pois são apenas espirituais, mas, comparando-os com as
coisas humanas ou materiais, usamos as asas para significar
"rapidez", a cor branca para mostrar a sua "beleza e inocência"
e a sua juventude para indicar a sua "vida".
Por sermos seres incarnados, devemos
evitar, pois, dois extremos opostos: o do angelismo, desprezando o
corpo, e o do mundanismo, esquecendo o espírito, como dizia José
Maria Cabodevilla por estas palavras: incarnar sem mundanizar com o
materialismo.
Desenvolver uma espiritualização mais
incarnada é em que consiste a nossa imitação (mas nunca
igualização) dos anjos, pois parecendo-nos com os anjos, vamo-nos
parecendo com Deus. Os anjos estão entre a nossa imanência e a
transcendência de Deus. Quanto menos levarmos uma vida de
materialismo e uma cultura de sentidos, mais abertos estamos ao
ambiente angélico e o convívio com os anjos torna-nos melhores.
* * *
Noutros tempos, falava-se muito da
virtude da pureza e dizia-se ser a virtude dos anjos, isto é, uma
virtude angélica. Havia nesses tempos alguns defeitos, pondo-se até
o 6.º e o 9.º mandamentos da lei de Deus, que tratam dessa virtude,
como mais importantes que os outros mandamentos, o que era um
exagero, pois a virtude da caridade é a mais importante de todas as
virtudes. Actualmente esta virtude anda de rastos. Dum extremo
passou-se, mais uma vez, para outro extremo.
A respeito da virtude da pureza, uma
vez que ela está relacionada com a sexualidade e a geração da vida
humana segundo a maneira natural como Deus dispôs as coisas, podemos
dizer o seguinte.
Por um lado, podíamos dizer que esta
virtude, como afirmou F. Sheen, é o respeito pelo dom da vida tal
como Deus entende de destinou. Como actualmente, há pouca ou nenhuma
fé, quase se não liga a Deus, compreende-se, pois, o triste estado
e falta de respeito a que se chegou em tudo isto.
José Maria Cabodevilla disse que esta
virtude era a virtude da humanização da sexualidade, isto é, não
uma sexualidade de instintos animalescos mas sim sexualidade de
respeito, amor e compreensão a serviço do plano criador de Deus,
tal como acima disse o Papa Pio XII: transformar o mundo de selvagem
em humano e de humano em mundo divinizado.
A sexualidade nas pessoas é uma
realidade muito delicada, pois é nela que o espírito e o corpo mais
se interlaçam, sendo pois uma realidade psico-somática. É, pois,
uma realidade muito delicada, muito pessoal e íntima, nunca devendo
ser banalizada, escancarada publicamente como se vê modernamente em
namoros, sem qualquer respeito pelo mínimo pudor. Além destes
aspectos humanos, deve ser também e ainda amostra das realidades
divinas, ou seja, sacramento. Só assim reflectindo e amostrando
aragem divina sacramental é que será virtude angélica até certo
ponto, pois os anjos como puros espíritos não têm sexualidade
material.
São ainda virtudes angélicas as da
humildade, obediência, simplicidade, longanimidade, harmonia de
contemplação com acção.
Sobre o que se pensa modernamente dos
anjos há um excelente resumo feito por Ignacio Maria Suarez Ricondo,
com o título de "La Teologia Moderna sobre los Ângeles y el
Magisterio de Juan Pablo II", tese de licenciatura, em 1996, em
Roma, no Pontifício Ateneu Romano de Santa Cruz. Aí se mostra a
validade da doutrina tradicional perante outras maneiras diferentes e
defeituosas de pensar. Segundo o ensino tradicional, os anjos são
puros espíritos, com inteligência e vontade, criados por Deus e que
estão ao serviço de Cristo sendo mensageiros de Deus para os homens
e, por outro lado estando encarregados de aproximar os homens de Deus
como são os anjos da guarda, prestando ajuda e protecção às
pessoas, apresentando as orações das pessoas a Deus.
São, pois, mediadores e intermediários
entre Deus e os homens e, abaixo de Jesus e Maria, são a imagem mais
perfeita de Deus e são merecedores da nossa veneração. Esta
doutrina tradicional dos anjos é mesmo dogma de Fé pelo 4.º
Concílio de Latrão de 1215 e 1 Concílio Vaticano além de constar
no Credo de Niceia – Constantinopla. O ofício dos anjos é, pois,
adorar a Deus com o seu louvor e serem intermediários entre Deus e
os homens. Os anjos, sendo muitos, formam diversos grupos de acordo
com os seus dons e actividade: anjos, arcanjos, querubins, serafins,
tronos, potestades, dominações, principados, como também diz S.
Paulo (Col 1.17, Efésios 1.21). Entre os homens (seres mistos de
materialidade e espiritualidade) e Deus (puro espírito) estão os
anjos que são puros espíritos, "senadores do céu", "príncipes
da criação", nossos futuros "companheiros da eternidade", "os
braços e a mão de Deus" no mundo como "ministros de Deus" que
são, mensageiros e embaixadores de Deus.