1.ª
FASE (PURIFICAÇÃO OU INICIAÇÃO)
Esta
primeira fase de iniciação é de carácter sobretudo negativo, pois
trata de afastar as dificuldades e impedimentos à iniciação da
espiritualidade angélica. É uma fase de purificação,
"purgatório", conversão, mortificação de tipo quaresmal,
temor de Deus, em suma uma fase de ter Fé em Deus, vivendo-a e
desenvolvendo-a. É uma fase de desprendimento ou renúncia ao que
for de pouco ou nenhum valor a fim de alcançar os bens superiores da
espiritualidade, ou seja, trata-se da desintoxicação da vida de
materialismo, muito ou pouco acentuado, para entrar no ambiente
espiritual dos anjos e de Deus. A beleza alcançada pela purificação
da Cruz tem um valor que não possui a beleza angélica.
Diz
S. Paulo (1 Cor, 4,9) que estamos a servir de espectáculo para os
anjos (ao olharem para nós, para nos ajudarem na virtude) e a servir
também de espectáculo para os homens (ao observarem o nosso modo de
ser e proceder, verificando se está bem e vale a pena). Se formos
como o mundo gosta, a nossa vida não interessa a ninguém, pois nada
traz de novo. Se formos algo de distinto e melhor, o caso já é
diferente. Realmente, o caminho do céu não é o das facilidades
mundanas mas o caminho das exigências dos deveres, a estrada da cruz
dos desapegos de pecadilhos e até de certos gostos pessoais como são
os falsos deuses e outros apegos mundanos. Há aqui uma renúncia até
à maneira agradável mas defeituosa de rezar, um desprendimento de
amizades, pouco ou nada recomendáveis, um desapego a sacrifícios
artificiais ou mal entendidos e feitos só por conveniências, o que
lhes faz retirar o seu valor, por não passarem de orgulho
disfarçado. O mesmo se diz da renúncia a uma piedade docinha, pois
importa desapegar-se também de si mesmo, para Deus passar a ter o
primeiro lugar na nossa vida e não apenas o nosso gosto, mas
procurando ser sempre de Deus, tendo-O sempre no nosso horizonte
tanto nos momentos bons como nos momentos difíceis e maus. Assim nos
vamos aproximando mais do ambiente angélico e divino.
Realmente,
os anjos ficam com mais alegria por um pecador que se converte do que
por 99 justos (Lc. 15.7). Essa alegria deve-se ao facto de, ao sermos
já imagem de Deus, nos tornar-mos ainda imagem mais bela de Deus
através de toda esta purifição. Demais, importa que uma alma,
sendo imagem única insubstituível de Deus, nunca chegue a perder-se
mas seja salva, por todos os meios possíveis, correspondendo assim à
vocação e missão que Deus lhe confiou. Mesmo que a pessoa ande
desligada de Deus por pecado mortal, o anjo da guarda não desiste
até ao fim da vida dela com as suas inspirações tanto através de
si como indirectamente através dos outros.
Todas
as pessoas são imagem e semelhança de Deus (Gén. 1,26). O anjo do
Senhor impediu, por isso, Abraão de sacrificar o seu filho Isac
(Gen. 22,12). Por isso, por amor a Deus, devemos respeitar e amar
estas imagens, apesar das manchas pecaminosas que possam ter, mesmo
grandes e as mais graves.
Nas
pessoas mais novas, como crianças e jovens e velhinhos, deficientes
ou doente, devemos ter o mesmo respeito e amor, mesmo com sacrifício
e grande sacrifício por vezes.
Ora
importa não estarmos a sacrificar, seja quem for. Que o anjo de Deus
nos ajude a evitarmos o pecado de estarmos a sacrificar os outros à
nossa vaidade, ao nosso orgulho, à nossa mania de superioridade de
querermos ficar por cima, ao nosso desejo de torná-los objectos do
nosso prazer ou do nosso lucro ao manipulá-los para nosso interesse
abusando tantas vezes da sua bondade e paciência para nosso proveito
egoísta.
Que
o anjo de Deus nos livre de querermos sacrificar os demais com a
nossa condenação para sempre, cortando toda e qualquer fala para o
futuro, tendo-os, como totalmente maus como o demónio e sem nada de
aproveitável e, por isso, sem qualquer recuperação possível,
atirando-os para o inferno.
Que
o anjo de Deus nos livre de os sacrificarmos às nossas opiniões e
caprichos pessoais, não respeitando a sua vocação pessoal e missão
própria no mundo, mas escravizando-os aos nossos gostos pessoais.
Que
o anjo de Deus nos faça compreender melhor como fez a Abraão, as
coisas da realidade da vida, abrindo-nos os olhos e mostrando-nos o
verdadeiro "carneiro" que devemos então sacrificar, que só pode
ser a nossa posição defeituosa.
O
ponto de partida desta primeira fase purificatória de caminhada
espiritual é a virtude da humildade, que deve crescer, diminuindo ao
mesmo tempo o orgulho e a auto-importância vaidosa duma pretensa
superioridade pessoal. Quando Tobias encontrou, sem saber, um anjo a
indicar-lhe o caminho da sua viagem (Tob 5. 4-6), foi humilde, ao
saber aceitar a ajuda desse desconhecido. Assim, a obediência, que é
também humildade, longe de ser para ele uma baixeza, foi antes uma
segurança nas suas dificuldades. Na vida, as pessoas gostam muitas
vezes de ir pelos caminhos mais fáceis e agradáveis aos seus
gostos, embora quantas vezes inseguros e ilusórios, evitando assim o
que é difícil apesar de ser o único verdadeiro. Também foi por
desobediência que muitas seitas se separaram da religião cristã.
Todo o pecado não passa de desobediência a Deus. Por isso, importa
muito consultar a Deus através do ambiente de oração para nos
despertar a luz de melhores ideias para tomarmos a melhor atitude
nesta tempestade de nervos, amadurecendo bem as ideias em ordem a uma
solução mais acertada.
A
humildade é uma espécie de caminho da cruz, pois não pode ser
artificial ou fingida e foi assim neste condicionalismo que o anjo
ajudou os Macabeus no seu combate (2 Mac. 11,8-10). Importa, pois,
deixar o orgulho, imitando a Deus, como já tinha lembrado um anjo às
nações orgulhosas pelo seu mal (Zac. 1,14-16). A vaidade de acções,
mesmo religiosas, devido até à elevada ciência e tecnologia, não
deixa de ser orgulho, pois essas maravilhas mão deixam de ser também
dons de Deus, a quem a nossa colaboração permitiu serem realizadas.
Até a nossa humildade pode tornar-se orgulhosa, se nos envaidecermos
de ser já santos. Mesmo quando contamos as nossas humilhações,
estamos tantas vezes a faltar à caridade para quem nos ofendeu,
pretendendo, com este ar de vítimas, passar por mais santos que os
outros.
Na
posse já de alguma humildade, uma vez que os anjos das crianças
contemplam noite e dia o rosto de Deus (Mat. 18,10), devemos nós
também contemplar a Deus na medida do possível, desejando-O e
amando-O, o que já é também oração, procurando aprofundar cada
vez mais este encontro com Deus e evitando andar a saltitar
superficialmente duma coisa religiosa para outra numa verdadeira
inconstância e dispersão do espírito, à busca de novidades
passageiras. Importa não termos a pretensão de conseguirmos tudo de
Deus na terra mas termos a humildade de rogarmos a sua graça para O
contemplarmos cada vez melhor. Em vez de desanimarmos por falta de
devoção, o que é prova duma pontinha de orgulho na nossa
pretensão, alegremo-nos até um pouco, por isso nos mostrar a
necessidade que temos de Deus para fazermos qualquer bem que seja e
ainda da necessidade da sua graça até para O contemplarmos.
Outro
motivo de humildade é reconhecermo-nos pecadores, pois a nossa
dispersão quase nos dá a impressão de não termos pecados, quando
geralmente nos leva mesmo a facilitar quase sempre nos chamados
pecados veniais, acabando por irmos mais longe, com este
enfraquecimento progressivo, até não nos importarmos com o pecado
mortal, ainda às claras, pois ele brilha e até nos seduz, não
sendo nós capazes de lhe resistirmos. Quantas vezes nos deixamos
levar pelo agrado na oração, ficando já com vaidade espiritual de
santos à pressa, quando afinal ainda resta tanto para nos
aperfeiçoarmos. Até, por isso, devemos evitar julgarmo-nos melhor
que aqueles por quem rezamos nas suas dificuldades e quedas. O
arrependimento das nossas falhas e faltas em ordem à perfeição é
razão para vivermos sempre na virtude da humildade, agradando assim
aos anjos e obedecendo assim a Deus o que é humildade.
Viver
em atitude de humildade perante Deus é viver em atitude de adoração.
O anjo do Senhor tinha mandao Filipe ir para sul (Act. 8,26) e este
soube humildemente obedecer, adorando o plano de Deus, ao ir por essa
estrada que não era praça pública de diversões mas sim uma via
praticamente silenciosa. A presença de Deus, sempre indispensável
na atitude da adoração, só pode ser descoberta e vivida no
recolhimento e no ambiente de silêncio físico e psicológico, para
ser possível a passagem do amor do coração de Deus para o nosso
coração. Já Petrarca no seu livro sobre a vida solitária dizia
que a vida é uma estrada para a nossa casa da eternidade. A adoração
contínua (e até especial ou mais intensa em certos momentos) é a
grande oração à partida no nosso caminho para Deus. "Meu Deus,
eu creio, adoro" era a oração do anjo ensinada aos pastorinhos de
Fátima.
Foi
no silêncio da noite que o anjo do Senhor disse a S. José (Mat.
2,12) para fugir para o Egipto. Era de noite que Jesus gostava mais
de falar com o Pai.
Só
num ambiente de simplicidade e de paz interior, em que consiste a
pobreza de coração, sem divagações e sem ambições de querer
brilhar, é que podemos estar mais perto dos anjos e mais próximos
de Deus.
Na
estrada da vida importa não ir logo atrás do que é vistoso,
espectacular e agradável, pois isto tantas vezes não passa de
ilusão momentânea, nada tendo de durável mas só superficialidade,
quando realmente só a verdade é que é filha de Deus, como diz o
povo, e assim também o proclamam os anjos no seu belo cântico:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o céu e a terra estão
cheios da vossa glória (Is. 6,1-8). Por isso, o culto do
exteriorismo ou da fachada religiosa é mais que perigoso. O
importante e seguro é a vida interior que, não devendo manter-se
presa na intimidade da pessoa, bem pode transparecer exteriormente em
modalidades sacramentais diversificadas, evitando cair no extremo da
vaidade mundana e oca. Realmente, os anjos são enviados para a
salvação dos homens (Hebreus 1,14) e só a vida interior é que nos
permite dar pela sua presença e podermos aproveitar o seu auxílio.
Lá por ser bom o lugar em que estamos ou o que podemos fazer, pode
bem ser outro o plano de Deus a nosso respeito, quer dizer, pode não
ser bem essa a vocação e missão que Deus nos quer confiar para
sermos felizes e, para conseguirmos descobrir este segredo de Deus a
nosso respeito, temos de começar pelo ambiente de encontro ou oração
na presença dos anjos e de Deus, o que é muito difícil ou mesmo
impossível num género de vida distraída, banal ou demasiado
ocupada. Estas falhas de presença angélica e divina na nossa vida
são verdadeiras folhas em branco no filme da nossa vida. Demais, uma
vida profunda é uma defesa para evitar ilusões religiosas, pois o
espírito diabólico do mal também se sabe revestir de anjo de luz
para iludir os incautos e facilitórios, para alcançar os seus fins.
Por isso é que os livros que falam de anjos são verdadeiramente de
recomendar e merecedores de toda a confiança sem reservas.
Além
da atitude de humildade e adoração através de um ambiente de
verdadeira e profunda vida interior, interessa dispormos de cultura e
interesse consciente e sempre atento, isto é, uma vigilância
consciente e corajosa perante as opções a fazer neste mundo de
tentações mais para o mal do que para o bem, fruto do antigo pecado
original entranhado na natureza humana. Se não colaborarmos com Deus
através da oração e demais actos de vida interior, a graça divina
para nos fortalecer nestas dificuldades das tentações não nos
chega a valer. Conhecer a doutrina da Igreja é importante, mas mais
importante que a informação doutrinal, sempre necessária e
fundamental, é a formação moral e espiritual. Se a Igreja é
mestra da verdade, os seus santos como facetas diversificadas de
santidade do Divino Mestre são os nossos professores, devendo a sua
espiritualidade (que não tratamos neste livro) ser bem aproveitada
por nós, além da superior espiritualidade mariana e ainda
infinitamente mais a espiritualidade de Cristo que abrange também a
espiritualidade angélica do louvor, (Hebreus, 2.2) de que estamos
tratando neste livro.
Tudo
isto é trabalhoso, é cruz e assim o lamentar-se das dificuldades,
sofrimentos e fracassos é, mais uma vez, falta de humildade, pois a
aceitação da cruz é também humildade. Por isso, importa ser-se
alma de silêncio e o desabafar deve ser, de preferência, mais com
Maria. A oração deve ser vida de amor e não simples acto de rotina
ou simples cerimónia religiosa. O coração deve estar livre dos
pensamentos não apenas dos maus mas também dos inúteis, pois eles,
como entradas ou portas da alma podem-na ir asfixiando acabando por a
matar espiritualmente.
Tobias
(Tob. 5,10) tirou proveito da alegria e esperança dada pelo anjo,
pois já era uma pessoa atenta e interessada, com vida interior, para
poder saber apreciar os grandes ideais e valores da vida,
afastando-se das vulgares banalidades e gabarolices, estando assim
vacinado contra as tentações no caminho da vida. Só com esta
vigilância atenta e consciente se vai a caminho da santidade de Deus
através da ajuda dos anjos. Um dia também Deus virá, no Juízo
Final, acompanhado de seus anjos para recolher os seus eleitos (Mat.
25,31) que nesta vida souberam ter uma vida agradável aos anjos.
Deus no seu trono de glória levará consigo os seus eleitos e, por
isso, cada um de nós deve fazer do seu coração um Trono de Deus
cada vez mais aperfeiçoado, pois somos sempre imperfeitos, e todo
este trabalho de aperfeiçoamento só termina, melhor, só
desabrochará na eternidade. Lá é que seremos final e seguramente
santos.
Nós,
nesta vida, não conhecemos os grande santos que vivem no mundo, pois
ignoramos os planos particulares de Deus a respeito de cada pessoa,
para podermos avaliar do grau de correspondência dessa pessoa às
missões próprias de Deus, por Ele confiadas a cada um. A santidade
está nessa total correspondência, na dedicação inteira da pessoa
aos planos de Deus. Nós por termos pouco amor, já achamos difícil
e custoso, acabando por fazer coisas cheias de imperfeições como
vaidade e andando com ideias incompletas ou até erradas. Importa
crescer cada vez mais em generosidade, a fim de o amor já alcançado
despertar ainda mais amor. Só Deus e a sua graça é o grande valor
a ter sempre diante dos nossos olhos. Assim a nossa perfeição
depende do nosso amor cada vez mais perfeito a Deus, pois também o
valor dos anjos não está propriamente neles mas na graça, luz e
fortaleza que receberam de Deus para difundirem pelos homens e até,
por isso, diz o salmo 103 (102).20 que bendigam o Senhor todos os
seus anjos.
Para
conseguirmos estes resultados de perfeição ou santidade, temos de
colaborar, temos de ter força de vontade e coragem para isso. Quando
o anjo do Senhor foi ao encontro de Agar (Gen. 16,8), dando-lhe
fortaleza para ela vencer as dificuldades e acompanhado-a sempre, foi
porque ela já dava o seu melhor para isso. Também nós devemos ser
para os que sofrem anjos de esperança a fazê-los reviver. Também
Jacob (Gen 28,12), desanimado, andava fugido da vida, que estava
destroçada como um inferno sem qualquer esperança de saída. Então
apareceu-lhe o anjo, como também pode acontecer a nós em casos
semelhantes, pelo menos invisivelmente com as suas inspirações, e
vai a fazer desse desânimo uma escada de esperança para o céu,
abrindo novos horizontes e novas maneiras de encarar positivamente a
vida. Aquela pedra onde Jacob jazia caído, passou a ser o altar, ali
construído, do sacrifício da cruz da sua vida a levar para Deus, em
suma, a escada da vida nova onde desciam do céu os anjos até ele
para o elevar depois até Deus. É assim que os anjos nos descobrem
uma rota nova para o céu.
Também
Elias, desanimado, é reanimado e acompanhado por um anjo (1 Reis
19,5-8), aprendendo assim a amadurecer na vida, ao ser-lhe dito ainda
que Deus não é uma coisa vistosa como terramotos, trovões e
tempestades mas uma brisa suave dum mundo interior no íntimo da
alma. Realmente na vida há tantas pessoas a verem ir pela água
abaixo os seus planos, ficando tudo esfrangalhado sem se ver qualquer
saída. Ora nestes momentos a oração e a meditação põe-nos no
ambiente dos anjos e na presença de Deus, abrindo-nos os olhos para
possibilidades novas esquecidas ou adormecidas. Quantas vezes
pensámos ir fazer melhor que os outros e, afinal, ainda fazemos
pior. Por isso, é importante estarmos e vivermos na presença dos
anjos e de Deus, como também acontecera aos hebreus em combate (2
Mac. 11.8-10).
Tudo
isto é cruz, é sacrifício, é a voz do dever que nem sempre nos
soa docinha. Aqui a coragem e força de vontade devem dar o seu
melhor. É a forma de martírio ao alcance de todos. Abraão, a
quando do projectado sacrifício do seu filho Isac (Gen. 22.12),
mostrou heroicamente toda a sua coragem. Também o anjo do Senhor, ao
anunciar o nascimento do grande Sansão (Juízes 12.2-5), lembrou à
mãe a cruz dos seus deveres e cuidados a ter com o seu próximo
filho. A linguagem do anjo da guarda também não é diferente para
connosco. Também Jesus, ao falar do dever de enfrentar a cruz da
vida, diz que, ao vir, na companhia dos seus anjos, a julgar os vivos
e os mortos, se envergonhará daqueles que fugiram ao cumprimento do
dever da cruz da vida (Marcos 8.34). A paciência na vida, saber
esperar, dar tempo ao tempo, é a forma mais usual da cruz.
2.ª
FASE (ILUMINAÇÃO)
Esta
segunda fase, ao contrário um pouco da anterior, é mais positiva
que negativa. Do temor de Deus vai-se passando cada vez mais para o
amor de Deus. Enquanto na fase anterior era muito cultivada a virtude
da Fé, nesta fase passa a ser cultivada a virtude da esperança, que
é uma Fé em movimento. A oração passa a ter uma grande
importância nesta fase, que é um aperfeiçoamento da anterior e uma
certa antecipação da 3ª fase. O temor de Deus como desgosto de
ofender a Deus leva a haver mais o gosto por Deus que é a oração
em geral e especialmente a meditação que é outra espécie de
oração, a fim de se praticar ou viver a Fé. Realmente pensar
devagar ou meditar para pensar bem é muito importante. Nos problemas
que a vida nos traz, também o sossego do sono faz amadurecer o nosso
conhecimento das coisas, o que é, no dizer do povo, consultar o
travesseiro. Também foi em sonhos que o anjo do Senhor tranquilizou
S. José nas suas preocupações. (Mat. 1.20).
A
oração, como dissemos, é importantíssima. O arcanjo S. Rafael
manda louvar e dar graças a Deus (Tob 12,6-7). Assim deve ser também
a nossa vida em relação a Deus e na amabilidade ao próximo, tudo
sempre num ambiente de amor, sem nos perdermos na vida distraída e
agitada do mundo. Os próprios anjos apresentam a Deus as nossas
orações como aconteceu a Tobias (Tob. 12,12-15), sendo fundamental
para isso o ambiente de recolhimento físico e psicológico, para a
oração não ficar murcha e estragada com misturas mundanas. Mesmo
no caso de orações bem feitas, não devemos ficar muito contentes,
pois isso foi devido mais à graça de Deus do que a nós, o que é
mais uma razão para sermos humildes. E, se rezar bem é custoso para
nós, então isso é mais uma prova de fé. E, se rezar a Deus é
bom, rezar com Cristo a Deus é melhor ainda como sucede na oração
litúrgica.
Deus
tinha enviado o seu anjo para defender Daniel (Daniel 6.23) nos
perigos que o rodeavam. Ter fé, aparte o caso especial e heróico,
dos grandes mártires, é geralmente ser fiel a Deus no meio do mundo
que segue outras modas e ideais. Se Deus não socorre fisicamente os
mártires, é porque espera dar-lhes algo melhor que a própria vida
terrena e que é a felicidade celeste. Por isso não devemos
desanimar com o aparente desinteresse ou silêncio de Deus às nossas
preces e aflições. O que importa é viver sempre na presença de
Deus, isto é, em adoração e oração, tanto da igreja como fora
dela na vida.
Como
se disse, é próprio desta segunda fase progredirmos duma atitude
inicial de respeito como é a do temor de Deus, para uma atitude mais
de dedicação e amor a Deus, como foi a do centurião Cornélio ao
receber um aviso do anjo (Actos 10,22). O centurião era uma pessoa
aberta e, por isso, Deus deu-lhe a conhecer as suas maravilhas e
fá-lo sempre a quem é assim. Quem nem sequer possui o temor de
Deus, julga-se independente e auto-suficiente, passa a criticar tudo
e todos e até a vontade de Deus ou a entendê-lo à sua maneira. Um
amor inicial, ainda pequeno, como é o do respeito ou temor, passa
então, nesta segunda fase, a ser maior e mais perfeito. Depois das
suas devoções e gostos pessoais como pessoa religiosa que até liga
pouco a pecados veniais, passa nesta segunda fase a ter grande amor,
tornando-se verdadeiramente cristão a sério. Ser religioso por
temor do castigo, por medo ou moda social vale pouco ou até nada. Só
por gosto e amor é que é mais perfeito e tem maior valor.
A
nossa colaboração ou desejo de perfeição santificadora ou de amor
é importante nesta segunda fase da caminhada para a espiritualidade
angélica. Realmente Jesus virá, com os seus anjos, a recompensar
cada um pelas suas obras (Mt. 16,27). Por isso é que há todo o
interesse em descobrirmos os nossos pecados, reconhecendo-nos como
pecadores, para partirmos daí para a perfeição. As pessoas
mundanas, pecadoras como são todos os homens, pois perfeito é só
Deus, consideram-se sem pecado ou justas mas os verdadeiros justos, à
medida que se aproximam de Deus, é que vêem melhor, pela sua
comparação com Deus, que ainda têm mais para aperfeiçoar do que
antes lhes parecia e assim vão vendo cada vez mais defeciências,
defeitos e pecados do que supunham, tendo sempre cada vez mais coisas
para aperfeiçoar.
Muitas
vezes o próprio bem que fazemos não é de grande valor como parece,
por ter sido feito em momentos de boa disposição ou então com
alguma pontinha de vaidade, segundas intenções de manha. Em
momentos de aborrecimento já não éramos capazes de o fazer, por
não sermos capazes de enfrentar a cruz do dever. E, mesmo a fazê-lo,
quantas vezes acontece ser feito quase à sorte, meio distraídos e a
pensar ou ocupados noutras coisas. Há, pois, muito ainda a melhorar,
o que naturalmente exige atenção e esforço, o que é precisamente
sacrifício e cruz. Mas, por outro lado, importa não cair em
sacrifícios artificiais e inventados à nossa maneira mas saber
enfrentar os que a Providência e a vida nos oferecem,
transformando-os então, em ocasiões de amor, até mesmo os simples
pensamentos.
Deus
tem a respeito de cada pessoa, como já se disse, uma imagem que Ele
sonhou para ela e daí que todos, mesmo não tendo o cargo oficial de
educadores, devemos respeitar essa vocação ou missão de Deus a
respeito de cada um, evitando tornar defeituoso esse sonho do ideal
de Deus com a nossa má companhia ou convivência desonesta com as
pessoas.
Esta
aproximação para o ideal angélico e para Deus lembra até certo
ponto a ida do pobre Lázaro, levado pelos anjos para o seio de
Abraão (Lc. 16, 19-22). Esta felicidade celeste é um dom de Deus e
não um direito nosso a exigir a Deus, apresentando-lhe a factura das
nossas boas obras para Ele pagar. Para sermos dignos da felicidade
celeste, devemos tê-la na melhor das nossas aspirações, evitando
andarmos distraídos e esquecidos disso mas sempre lembrados de que
nem tudo o que tem barulho ou dá nas vistas neste mundo é que tem
valor. Além disso, a santificação, não é igual para todos mas
própria de cada pessoa segundo a própria vocação recebida de
Deus. Ninguém entra numa casa a olhar para o lado mas sim de frente.
Assim é irmos para o seio de Abraão através da oração, da nossa
disponibilidade a Deus e ao próximo, mesmo com sacrifício. Ora
viver em amor é ser como os anjos do céu (Mt. 22.30). Não é
passar a ser anjo, o que é impossível, mas parecer-se com eles na
inocência e santidade, pela beleza e graça de Deus, como até se
costuma dizer: "Fulano é um anjo"! Amar e louvar a Deus é a
vida dos anjos e é também a nossa melhor preparação para a morte,
como disse Evely. Daí o interesse de aproveitar bem o tempo ainda ao
nosso dispor neste mundo para a preparação da eternidade,
procurando aproveitar o passado, mesmo através da reparação, e as
graças das indulgências da Igreja.
A
descida dos anjos para junto de Cristo (João,1.51) dá uma ideia do
paraíso. Para se viver lá, há caminhos que nunca lá vão dar.
Assim, negar a existência do inferno ou do demónio é a melhor
maneira para se andar à vontade, fazer o que apetece sem respeito
por ninguém e com todo este facilitismo, agora tão em moda, o pior
avanço à vontade, por se julgar tudo permitido, não havendo sequer
qualquer pecado. Outras cautelas importa ainda ter em conta, como
deixar a vaidade e outras imperfeições do género, como desconhecer
os perigos, expondo-se facilmente a eles sem necessidade. Além
disso, é importante ter presente na vida a presença de Deus e dos
anjos, vivendo a sua mensagem. Infelizmente até na igreja se liga
pouco ou nada à presença de Deus no sacrário, fazendo da igreja
local de conversa e até de espectáculo, ficando Deus marginalizado
ou mesmo esquecido, para nós estarmos bem evidenciados e afirmados,
nenhum respeito tendo por Deus, o que é falta de fé e do menor
respeito. O anjo do Senhor bem quer levar a pessoa para o ambiente
divino mas fica impossibilitado de o fazer por a pessoa não lhe
estar a ligar, por falta de gosto ou por distração.
O
amor é uma garantia de mais graças ainda a receber de Deus. Na
manhã da ressurreição de Cristo dois anjos apareceram às santas
mulheres (Luc. 24. 1-4). Foi o amor que tinham a Jesus, que as levou
a ir ao seu sepulcro. Esse amor é que evitou elas ficarem
esquecidas, distraídas ou atrasadas ou até com medo de irem lá.
Para quem verdadeiramente ama, nenhum caminho parece longo ou
difícil. Quando não é possível ir visitar a Cristo no sacrário,
pode-se rezar a Jesus, presente até no nosso coração, como é o
caso das mães em relação aos seus filhos. Muito há ainda a fazer
por Jesus, o amor ainda pode ser maior. Quem pensa já amar muito, já
está a amar menos, pois esse muito amor que supõe ter, é antes
devido ao apoio da graça de Deus. Ora amar sem esse apoio de
consolação é amar mais e melhor. Foi esse amor das santas mulheres
que lhes trouxe depois a graça de serem apóstolos de Jesus
ressuscitado.
Os
anjos, falando aos apóstolos no dia da Ascenção (Actos 1, 10-11),
não lhes disseram para abandonar a oração mas sim que ela era
precisa e depois não ficassem parados, sem mais, mas seguissem com o
ideal da oração para o trabalho, isto é, activando a vida
contemplativa da oração no Cenáculo. É que interessa deixar a
preguiça e enfrentar a cruz da vida. A tentação de ficar parado é
própria das pessoas que gostam de saborear coisas religiosas
agradáveis, lindas e espectaculares, não se importando de cumprir a
religião na vida e de enfrentar a cruz.
O
caminho para Cristo não é o das coisas espectaculares, dos milagres
e visões extraordinárias, mas primeiramente e ordinariamente o de
seguir o caminho estreito e difícil da cruz do dia a dia. Deus
bate-nos à porta todos os dias e sempre com pedidos sempre difíceis
e próprios de cada hora como são as diversas missões de que nos
encarrega. Não ligando a isto, estamos a perder graças que Deus põe
a circular e a passar junto de nós. Não devemos, pois, estar a
olhar para o céu dos nossos gostos espirituais, não passando disso.
É claro que precisamos da oração do Cenáculo para evitarmos a
estrada das ilusões agradáveis e mundanas em nós. Na vida usual, o
doce da sobremesa nunca serviu de verdadeiro sustento.
Na
vida, nem qualquer amor a Deus é o melhor. Uma coisa é amar a Deus
por causa do nosso interesse e outra é amar só por amor a Ele e sem
qualquer condição e isto é o que tem mais valor, ou seja, a doação
da própria pessoa, indo até ao ponto de ser capaz de sacrificar os
seus gostos e sofrer desilusões por amor a Deus, isto é, com um
amor a sério e não de manhas que são um contrabando espiritual. Se
o amor é só por interesse ou gostos pessoais, então já está a
ser egoísmo. Publicar sacrifícios feitos, fazer propaganda ou
publicidade religiosa de si já não é ligar a Deus. Fazer tudo só
por amor a Deus, mesmo que custe, é que é o verdadeiro amor como
aquele que procura cumprir o dever com perfeição sem aldrabar. Os
pecados veniais são mesmo essas aldrabices.
Para
haver rendimento no amor, isto é, aperfeiçoamento, temos de ser
corajosos e foi para isso que o anjo do Senhor deu coragem a S. Paulo
(Actos 27,23-24). Paulo ia num barco e nós também viajamos no barco
da vida, que é o mundo em que estamos. Para o amor divino e angélico
entrar no nosso coração, ele deve estar pobre e esvaziado de
mundanismos e coisas de pouco ou nenhum valor, o que é a virtude da
pobreza evangélica, e ter sede da santidade de Deus. Precisamos de
estar livres de toda essa escória como humilhações que fazem
despertar o nosso orgulho bem como livres dessas mentiras ditas sem
prejuízo, faltas de caridade nas críticas, pensamentos de inveja e
ressentimentos antigos, empurrar os deveres e responsabilidades para
os outros, adiar os deveres por sistema, manter uma vida de
impaciência, vaidade da própria virtude, pouca vivência pessoal da
comunhão, indiferença diante do Santíssimo Sacramento, substituir
a oração pelos programas de televisão, gosto de ser promovido na
vida de apostolado, evitar o peso da cruz por tudo e por nada,
desculpar-se com o próprio feitio pela preguiça de corrigir-se,
etc. O mesmo é ainda o estratagema de considerar-se sem pecados para
se dispensar de conhecer-se melhor a si e a Deus.
Vale
a pena sermos bons para com os anjos (Heb 13,1-2) e neste ponto há
muito a aperfeiçoar. Podemos ter amor mas não passa ainda dum amor
de casca ou amor superficial, que se parte com facilidade, como certo
amor que por qualquer coisa se desfaz com os familiares e se mostra
atencioso com os de fora, o que acontece também com uma piedade doce
que se desfaz na hora difícil da cruz. O amor de casca é ainda um
tanto egoísta, sentimental e próprio de curiosidade infantil. O
amor, quando é verdadeiro, queima os vícios. Por isso, a oração
de consolação mal chega a dar honra a Deus, porque é feita só
para dar consolação à pessoa, pouco ou nada ligando a Deus. O amor
não está na doçura mas sim no bem realizado, desde que seja bem
feito, a sério e para valer. Se a pessoa tem verdadeiro amor, reza
mesmo sem sentir gosto para isso. Rezar, tendo o sentido noutra
coisa, é rezar sem grande respeito e, por isso, com fraco amor.
Esta
segunda fase, que é a da iluminação na espiritualidade angélica,
resume-se, no dizer de S. Agostinho, em conhecermos melhor a Deus e a
nós, para nos compararmos com Ele, vendo assim melhor o pouquíssimo
ou nada que éramos sem o sabermos bem e vermos melhor tudo o que é
Deus, verificando assim que ainda nos falta muito mais que supúnhamos
para nos parecermos com Ele um pouco mais.
3.ª
FASE (UNIÃO A DEUS ATRAVÉS DOS ANJOS)
Esta
é a grande fase de desenvolvimento e, com o auxílio dos santos, de
Maria e dos anjos, põe-nos às portas de Deus. É a fase em que a
virtude da caridade mais reina.
Nesta
3.ª fase a humildade ainda continua a ser uma constante de partida.
Os anjos das crianças estão sempre a contemplar a face de Deus (Mt.
18,19) e, por isso, devemos ter sempre perante Deus a virtude da
humildade ou simplicidade ou inocência de criança, magnificamente
exemplificada por Santa Teresinha do Menino Jesus, evitando
tornarmo-nos pessoas complicadas sem razão de ser, sempre a saltitar
superficialmente de novidade em novidade sem nada aprofundar.
Importa, nas ocasiões difíceis, não desanimar mas, pelo contrário,
ter até a satisfação de vermos que realmente ainda precisamos de
ajuda e graça de Deus para fazermos qualquer bem. Roguemos, pois,
com toda a humildade a Deus a graça de O podermos começar a
contemplar já a partir desta vida com uma vida espiritual cada vez
melhor.
Não
ficando num amor de casca, como acima foi dito, importa chegar
deveras a um verdadeiro amor a Deus como aquele que tiveram as santas
mulheres ao irem ao túmulo de Cristo onde estavam dois anjos (João
20. 11-12). Elas tinham renunciado a tudo o mais, pois o seu amor era
irem lá. O ambiente mundano não favorece a aproximação com Deus.
O ideal é estar no mundo, sem ser do mundo. O mal não está em as
coisas serem boas, agradáveis e atraentes mas sem a pessoa ficar
presa a elas, como que vendida e escrava, sendo por isso incapaz de
se voltar e seguir para coisas mais difíceis, e importantes. Por
isso é que também as coisas espirituais, apesar de boas em si,
podem ser perigosas, ao tornar-se uma tentação para quem só gosta
do agradável e foge ao sacrifício ou para quem faz delas motivo de
vaidade pessoal. Por isso é que às vezes na igreja há oração que
no fundo não chega a ser sequer oração digna deste nome perante
Deus. O gosto agradável pode ser uma ajuda no começo da vida
espiritual, na primeira fase, mas depois pode tornar-se um empecilho,
se a pessoa passa a ficar-lhe presa e dependente como de uma chupeta.
Na hora difícil da cruz, a paciência e confiança em Deus é tudo
como o foi no caso dos três jovens na fornalha ardente socorridos
pelo anjo (Daniel 3, 49-50). Quantas vezes a tentação do desespero
ou da ira nos abala mas a confiança em Deus é tudo, mesmo que não
nos pareça, pois o Senhor sabe sempre encaminhar as coisas no
sentido do melhor. A bênção dos anjos nestas horas amargas como já
aconteceu noutros casos (Gen. 48,16) vem ao nosso encontro a
animar-nos a tirar proveito no caminho da santa cruz da nossa vida.
Na hora terrível em que o desânimo tenta e falta toda a disposição,
apareceu um anjo a confortar Jesus (Lc. 22,43) para poder vencer
melhor a cruz. Na vida não interessa a pessoa estar a lamentar-se
mas o que importa é ser reanimada pela fortaleza.
Viver-se
a presença de Deus é o mais importante na vida espiritual, não
somente na comunhão eucarística mas também na cruz da vida,
permanecendo no seu posto sem procurar ir para outro mais agradável,
cumprindo os deveres, familiares e sociais sem fugir para uma vida de
apostolado religioso mais fácil, pois a cruz nunca deixa de aparecer
também na nova situação para onde fugimos, embora seja cruz
diferente. O que dá nas vistas ou parece mais agradável, não é
isso que tem o maior valor mas só a vontade de Deus é que deve ser
o nosso guia e orientação.
Seguir
a vontade divina, que é a vocação e missão que Deus nos confia,
como foi no caso de o anjo Gabriel ao anunciá-la a respeito do
nascimento de João Baptista e também de Cristo (Luc. 1.13 e 31), é
a única coisa mais importante da vida, isto é, procurarmos ser
aquele ideal que Deus sonhou a nosso respeito que é o de Ele nascer
espiritualmente em nós através da ajuda dos anjos, Maria Santíssima
e os santos.