1.ª FASE (PURIFICAÇÃO OU INICIAÇÃO)

Esta primeira fase de iniciação é de carácter sobretudo negativo, pois trata de afastar as dificuldades e impedimentos à iniciação da espiritualidade angélica. É uma fase de purificação, "purgatório", conversão, mortificação de tipo quaresmal, temor de Deus, em suma uma fase de ter Fé em Deus, vivendo-a e desenvolvendo-a. É uma fase de desprendimento ou renúncia ao que for de pouco ou nenhum valor a fim de alcançar os bens superiores da espiritualidade, ou seja, trata-se da desintoxicação da vida de materialismo, muito ou pouco acentuado, para entrar no ambiente espiritual dos anjos e de Deus. A beleza alcançada pela purificação da Cruz tem um valor que não possui a beleza angélica.

Diz S. Paulo (1 Cor, 4,9) que estamos a servir de espectáculo para os anjos (ao olharem para nós, para nos ajudarem na virtude) e a servir também de espectáculo para os homens (ao observarem o nosso modo de ser e proceder, verificando se está bem e vale a pena). Se formos como o mundo gosta, a nossa vida não interessa a ninguém, pois nada traz de novo. Se formos algo de distinto e melhor, o caso já é diferente. Realmente, o caminho do céu não é o das facilidades mundanas mas o caminho das exigências dos deveres, a estrada da cruz dos desapegos de pecadilhos e até de certos gostos pessoais como são os falsos deuses e outros apegos mundanos. Há aqui uma renúncia até à maneira agradável mas defeituosa de rezar, um desprendimento de amizades, pouco ou nada recomendáveis, um desapego a sacrifícios artificiais ou mal entendidos e feitos só por conveniências, o que lhes faz retirar o seu valor, por não passarem de orgulho disfarçado. O mesmo se diz da renúncia a uma piedade docinha, pois importa desapegar-se também de si mesmo, para Deus passar a ter o primeiro lugar na nossa vida e não apenas o nosso gosto, mas procurando ser sempre de Deus, tendo-O sempre no nosso horizonte tanto nos momentos bons como nos momentos difíceis e maus. Assim nos vamos aproximando mais do ambiente angélico e divino.

Realmente, os anjos ficam com mais alegria por um pecador que se converte do que por 99 justos (Lc. 15.7). Essa alegria deve-se ao facto de, ao sermos já imagem de Deus, nos tornar-mos ainda imagem mais bela de Deus através de toda esta purifição. Demais, importa que uma alma, sendo imagem única insubstituível de Deus, nunca chegue a perder-se mas seja salva, por todos os meios possíveis, correspondendo assim à vocação e missão que Deus lhe confiou. Mesmo que a pessoa ande desligada de Deus por pecado mortal, o anjo da guarda não desiste até ao fim da vida dela com as suas inspirações tanto através de si como indirectamente através dos outros.

Todas as pessoas são imagem e semelhança de Deus (Gén. 1,26). O anjo do Senhor impediu, por isso, Abraão de sacrificar o seu filho Isac (Gen. 22,12). Por isso, por amor a Deus, devemos respeitar e amar estas imagens, apesar das manchas pecaminosas que possam ter, mesmo grandes e as mais graves.

Nas pessoas mais novas, como crianças e jovens e velhinhos, deficientes ou doente, devemos ter o mesmo respeito e amor, mesmo com sacrifício e grande sacrifício por vezes.

Ora importa não estarmos a sacrificar, seja quem for. Que o anjo de Deus nos ajude a evitarmos o pecado de estarmos a sacrificar os outros à nossa vaidade, ao nosso orgulho, à nossa mania de superioridade de querermos ficar por cima, ao nosso desejo de torná-los objectos do nosso prazer ou do nosso lucro ao manipulá-los para nosso interesse abusando tantas vezes da sua bondade e paciência para nosso proveito egoísta.

Que o anjo de Deus nos livre de querermos sacrificar os demais com a nossa condenação para sempre, cortando toda e qualquer fala para o futuro, tendo-os, como totalmente maus como o demónio e sem nada de aproveitável e, por isso, sem qualquer recuperação possível, atirando-os para o inferno.

Que o anjo de Deus nos livre de os sacrificarmos às nossas opiniões e caprichos pessoais, não respeitando a sua vocação pessoal e missão própria no mundo, mas escravizando-os aos nossos gostos pessoais.

Que o anjo de Deus nos faça compreender melhor como fez a Abraão, as coisas da realidade da vida, abrindo-nos os olhos e mostrando-nos o verdadeiro "carneiro" que devemos então sacrificar, que só pode ser a nossa posição defeituosa.

O ponto de partida desta primeira fase purificatória de caminhada espiritual é a virtude da humildade, que deve crescer, diminuindo ao mesmo tempo o orgulho e a auto-importância vaidosa duma pretensa superioridade pessoal. Quando Tobias encontrou, sem saber, um anjo a indicar-lhe o caminho da sua viagem (Tob 5. 4-6), foi humilde, ao saber aceitar a ajuda desse desconhecido. Assim, a obediência, que é também humildade, longe de ser para ele uma baixeza, foi antes uma segurança nas suas dificuldades. Na vida, as pessoas gostam muitas vezes de ir pelos caminhos mais fáceis e agradáveis aos seus gostos, embora quantas vezes inseguros e ilusórios, evitando assim o que é difícil apesar de ser o único verdadeiro. Também foi por desobediência que muitas seitas se separaram da religião cristã. Todo o pecado não passa de desobediência a Deus. Por isso, importa muito consultar a Deus através do ambiente de oração para nos despertar a luz de melhores ideias para tomarmos a melhor atitude nesta tempestade de nervos, amadurecendo bem as ideias em ordem a uma solução mais acertada.

A humildade é uma espécie de caminho da cruz, pois não pode ser artificial ou fingida e foi assim neste condicionalismo que o anjo ajudou os Macabeus no seu combate (2 Mac. 11,8-10). Importa, pois, deixar o orgulho, imitando a Deus, como já tinha lembrado um anjo às nações orgulhosas pelo seu mal (Zac. 1,14-16). A vaidade de acções, mesmo religiosas, devido até à elevada ciência e tecnologia, não deixa de ser orgulho, pois essas maravilhas mão deixam de ser também dons de Deus, a quem a nossa colaboração permitiu serem realizadas. Até a nossa humildade pode tornar-se orgulhosa, se nos envaidecermos de ser já santos. Mesmo quando contamos as nossas humilhações, estamos tantas vezes a faltar à caridade para quem nos ofendeu, pretendendo, com este ar de vítimas, passar por mais santos que os outros.

Na posse já de alguma humildade, uma vez que os anjos das crianças contemplam noite e dia o rosto de Deus (Mat. 18,10), devemos nós também contemplar a Deus na medida do possível, desejando-O e amando-O, o que já é também oração, procurando aprofundar cada vez mais este encontro com Deus e evitando andar a saltitar superficialmente duma coisa religiosa para outra numa verdadeira inconstância e dispersão do espírito, à busca de novidades passageiras. Importa não termos a pretensão de conseguirmos tudo de Deus na terra mas termos a humildade de rogarmos a sua graça para O contemplarmos cada vez melhor. Em vez de desanimarmos por falta de devoção, o que é prova duma pontinha de orgulho na nossa pretensão, alegremo-nos até um pouco, por isso nos mostrar a necessidade que temos de Deus para fazermos qualquer bem que seja e ainda da necessidade da sua graça até para O contemplarmos.

Outro motivo de humildade é reconhecermo-nos pecadores, pois a nossa dispersão quase nos dá a impressão de não termos pecados, quando geralmente nos leva mesmo a facilitar quase sempre nos chamados pecados veniais, acabando por irmos mais longe, com este enfraquecimento progressivo, até não nos importarmos com o pecado mortal, ainda às claras, pois ele brilha e até nos seduz, não sendo nós capazes de lhe resistirmos. Quantas vezes nos deixamos levar pelo agrado na oração, ficando já com vaidade espiritual de santos à pressa, quando afinal ainda resta tanto para nos aperfeiçoarmos. Até, por isso, devemos evitar julgarmo-nos melhor que aqueles por quem rezamos nas suas dificuldades e quedas. O arrependimento das nossas falhas e faltas em ordem à perfeição é razão para vivermos sempre na virtude da humildade, agradando assim aos anjos e obedecendo assim a Deus o que é humildade.

Viver em atitude de humildade perante Deus é viver em atitude de adoração. O anjo do Senhor tinha mandao Filipe ir para sul (Act. 8,26) e este soube humildemente obedecer, adorando o plano de Deus, ao ir por essa estrada que não era praça pública de diversões mas sim uma via praticamente silenciosa. A presença de Deus, sempre indispensável na atitude da adoração, só pode ser descoberta e vivida no recolhimento e no ambiente de silêncio físico e psicológico, para ser possível a passagem do amor do coração de Deus para o nosso coração. Já Petrarca no seu livro sobre a vida solitária dizia que a vida é uma estrada para a nossa casa da eternidade. A adoração contínua (e até especial ou mais intensa em certos momentos) é a grande oração à partida no nosso caminho para Deus. "Meu Deus, eu creio, adoro" era a oração do anjo ensinada aos pastorinhos de Fátima.

Foi no silêncio da noite que o anjo do Senhor disse a S. José (Mat. 2,12) para fugir para o Egipto. Era de noite que Jesus gostava mais de falar com o Pai.

Só num ambiente de simplicidade e de paz interior, em que consiste a pobreza de coração, sem divagações e sem ambições de querer brilhar, é que podemos estar mais perto dos anjos e mais próximos de Deus.

Na estrada da vida importa não ir logo atrás do que é vistoso, espectacular e agradável, pois isto tantas vezes não passa de ilusão momentânea, nada tendo de durável mas só superficialidade, quando realmente só a verdade é que é filha de Deus, como diz o povo, e assim também o proclamam os anjos no seu belo cântico: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o céu e a terra estão cheios da vossa glória (Is. 6,1-8). Por isso, o culto do exteriorismo ou da fachada religiosa é mais que perigoso. O importante e seguro é a vida interior que, não devendo manter-se presa na intimidade da pessoa, bem pode transparecer exteriormente em modalidades sacramentais diversificadas, evitando cair no extremo da vaidade mundana e oca. Realmente, os anjos são enviados para a salvação dos homens (Hebreus 1,14) e só a vida interior é que nos permite dar pela sua presença e podermos aproveitar o seu auxílio. Lá por ser bom o lugar em que estamos ou o que podemos fazer, pode bem ser outro o plano de Deus a nosso respeito, quer dizer, pode não ser bem essa a vocação e missão que Deus nos quer confiar para sermos felizes e, para conseguirmos descobrir este segredo de Deus a nosso respeito, temos de começar pelo ambiente de encontro ou oração na presença dos anjos e de Deus, o que é muito difícil ou mesmo impossível num género de vida distraída, banal ou demasiado ocupada. Estas falhas de presença angélica e divina na nossa vida são verdadeiras folhas em branco no filme da nossa vida. Demais, uma vida profunda é uma defesa para evitar ilusões religiosas, pois o espírito diabólico do mal também se sabe revestir de anjo de luz para iludir os incautos e facilitórios, para alcançar os seus fins. Por isso é que os livros que falam de anjos são verdadeiramente de recomendar e merecedores de toda a confiança sem reservas.

Além da atitude de humildade e adoração através de um ambiente de verdadeira e profunda vida interior, interessa dispormos de cultura e interesse consciente e sempre atento, isto é, uma vigilância consciente e corajosa perante as opções a fazer neste mundo de tentações mais para o mal do que para o bem, fruto do antigo pecado original entranhado na natureza humana. Se não colaborarmos com Deus através da oração e demais actos de vida interior, a graça divina para nos fortalecer nestas dificuldades das tentações não nos chega a valer. Conhecer a doutrina da Igreja é importante, mas mais importante que a informação doutrinal, sempre necessária e fundamental, é a formação moral e espiritual. Se a Igreja é mestra da verdade, os seus santos como facetas diversificadas de santidade do Divino Mestre são os nossos professores, devendo a sua espiritualidade (que não tratamos neste livro) ser bem aproveitada por nós, além da superior espiritualidade mariana e ainda infinitamente mais a espiritualidade de Cristo que abrange também a espiritualidade angélica do louvor, (Hebreus, 2.2) de que estamos tratando neste livro.

Tudo isto é trabalhoso, é cruz e assim o lamentar-se das dificuldades, sofrimentos e fracassos é, mais uma vez, falta de humildade, pois a aceitação da cruz é também humildade. Por isso, importa ser-se alma de silêncio e o desabafar deve ser, de preferência, mais com Maria. A oração deve ser vida de amor e não simples acto de rotina ou simples cerimónia religiosa. O coração deve estar livre dos pensamentos não apenas dos maus mas também dos inúteis, pois eles, como entradas ou portas da alma podem-na ir asfixiando acabando por a matar espiritualmente.

Tobias (Tob. 5,10) tirou proveito da alegria e esperança dada pelo anjo, pois já era uma pessoa atenta e interessada, com vida interior, para poder saber apreciar os grandes ideais e valores da vida, afastando-se das vulgares banalidades e gabarolices, estando assim vacinado contra as tentações no caminho da vida. Só com esta vigilância atenta e consciente se vai a caminho da santidade de Deus através da ajuda dos anjos. Um dia também Deus virá, no Juízo Final, acompanhado de seus anjos para recolher os seus eleitos (Mat. 25,31) que nesta vida souberam ter uma vida agradável aos anjos. Deus no seu trono de glória levará consigo os seus eleitos e, por isso, cada um de nós deve fazer do seu coração um Trono de Deus cada vez mais aperfeiçoado, pois somos sempre imperfeitos, e todo este trabalho de aperfeiçoamento só termina, melhor, só desabrochará na eternidade. Lá é que seremos final e seguramente santos.

Nós, nesta vida, não conhecemos os grande santos que vivem no mundo, pois ignoramos os planos particulares de Deus a respeito de cada pessoa, para podermos avaliar do grau de correspondência dessa pessoa às missões próprias de Deus, por Ele confiadas a cada um. A santidade está nessa total correspondência, na dedicação inteira da pessoa aos planos de Deus. Nós por termos pouco amor, já achamos difícil e custoso, acabando por fazer coisas cheias de imperfeições como vaidade e andando com ideias incompletas ou até erradas. Importa crescer cada vez mais em generosidade, a fim de o amor já alcançado despertar ainda mais amor. Só Deus e a sua graça é o grande valor a ter sempre diante dos nossos olhos. Assim a nossa perfeição depende do nosso amor cada vez mais perfeito a Deus, pois também o valor dos anjos não está propriamente neles mas na graça, luz e fortaleza que receberam de Deus para difundirem pelos homens e até, por isso, diz o salmo 103 (102).20 que bendigam o Senhor todos os seus anjos.

Para conseguirmos estes resultados de perfeição ou santidade, temos de colaborar, temos de ter força de vontade e coragem para isso. Quando o anjo do Senhor foi ao encontro de Agar (Gen. 16,8), dando-lhe fortaleza para ela vencer as dificuldades e acompanhado-a sempre, foi porque ela já dava o seu melhor para isso. Também nós devemos ser para os que sofrem anjos de esperança a fazê-los reviver. Também Jacob (Gen 28,12), desanimado, andava fugido da vida, que estava destroçada como um inferno sem qualquer esperança de saída. Então apareceu-lhe o anjo, como também pode acontecer a nós em casos semelhantes, pelo menos invisivelmente com as suas inspirações, e vai a fazer desse desânimo uma escada de esperança para o céu, abrindo novos horizontes e novas maneiras de encarar positivamente a vida. Aquela pedra onde Jacob jazia caído, passou a ser o altar, ali construído, do sacrifício da cruz da sua vida a levar para Deus, em suma, a escada da vida nova onde desciam do céu os anjos até ele para o elevar depois até Deus. É assim que os anjos nos descobrem uma rota nova para o céu.

Também Elias, desanimado, é reanimado e acompanhado por um anjo (1 Reis 19,5-8), aprendendo assim a amadurecer na vida, ao ser-lhe dito ainda que Deus não é uma coisa vistosa como terramotos, trovões e tempestades mas uma brisa suave dum mundo interior no íntimo da alma. Realmente na vida há tantas pessoas a verem ir pela água abaixo os seus planos, ficando tudo esfrangalhado sem se ver qualquer saída. Ora nestes momentos a oração e a meditação põe-nos no ambiente dos anjos e na presença de Deus, abrindo-nos os olhos para possibilidades novas esquecidas ou adormecidas. Quantas vezes pensámos ir fazer melhor que os outros e, afinal, ainda fazemos pior. Por isso, é importante estarmos e vivermos na presença dos anjos e de Deus, como também acontecera aos hebreus em combate (2 Mac. 11.8-10).

Tudo isto é cruz, é sacrifício, é a voz do dever que nem sempre nos soa docinha. Aqui a coragem e força de vontade devem dar o seu melhor. É a forma de martírio ao alcance de todos. Abraão, a quando do projectado sacrifício do seu filho Isac (Gen. 22.12), mostrou heroicamente toda a sua coragem. Também o anjo do Senhor, ao anunciar o nascimento do grande Sansão (Juízes 12.2-5), lembrou à mãe a cruz dos seus deveres e cuidados a ter com o seu próximo filho. A linguagem do anjo da guarda também não é diferente para connosco. Também Jesus, ao falar do dever de enfrentar a cruz da vida, diz que, ao vir, na companhia dos seus anjos, a julgar os vivos e os mortos, se envergonhará daqueles que fugiram ao cumprimento do dever da cruz da vida (Marcos 8.34). A paciência na vida, saber esperar, dar tempo ao tempo, é a forma mais usual da cruz.

2.ª FASE (ILUMINAÇÃO)

Esta segunda fase, ao contrário um pouco da anterior, é mais positiva que negativa. Do temor de Deus vai-se passando cada vez mais para o amor de Deus. Enquanto na fase anterior era muito cultivada a virtude da Fé, nesta fase passa a ser cultivada a virtude da esperança, que é uma Fé em movimento. A oração passa a ter uma grande importância nesta fase, que é um aperfeiçoamento da anterior e uma certa antecipação da 3ª fase. O temor de Deus como desgosto de ofender a Deus leva a haver mais o gosto por Deus que é a oração em geral e especialmente a meditação que é outra espécie de oração, a fim de se praticar ou viver a Fé. Realmente pensar devagar ou meditar para pensar bem é muito importante. Nos problemas que a vida nos traz, também o sossego do sono faz amadurecer o nosso conhecimento das coisas, o que é, no dizer do povo, consultar o travesseiro. Também foi em sonhos que o anjo do Senhor tranquilizou S. José nas suas preocupações. (Mat. 1.20).

A oração, como dissemos, é importantíssima. O arcanjo S. Rafael manda louvar e dar graças a Deus (Tob 12,6-7). Assim deve ser também a nossa vida em relação a Deus e na amabilidade ao próximo, tudo sempre num ambiente de amor, sem nos perdermos na vida distraída e agitada do mundo. Os próprios anjos apresentam a Deus as nossas orações como aconteceu a Tobias (Tob. 12,12-15), sendo fundamental para isso o ambiente de recolhimento físico e psicológico, para a oração não ficar murcha e estragada com misturas mundanas. Mesmo no caso de orações bem feitas, não devemos ficar muito contentes, pois isso foi devido mais à graça de Deus do que a nós, o que é mais uma razão para sermos humildes. E, se rezar bem é custoso para nós, então isso é mais uma prova de fé. E, se rezar a Deus é bom, rezar com Cristo a Deus é melhor ainda como sucede na oração litúrgica.

Deus tinha enviado o seu anjo para defender Daniel (Daniel 6.23) nos perigos que o rodeavam. Ter fé, aparte o caso especial e heróico, dos grandes mártires, é geralmente ser fiel a Deus no meio do mundo que segue outras modas e ideais. Se Deus não socorre fisicamente os mártires, é porque espera dar-lhes algo melhor que a própria vida terrena e que é a felicidade celeste. Por isso não devemos desanimar com o aparente desinteresse ou silêncio de Deus às nossas preces e aflições. O que importa é viver sempre na presença de Deus, isto é, em adoração e oração, tanto da igreja como fora dela na vida.

Como se disse, é próprio desta segunda fase progredirmos duma atitude inicial de respeito como é a do temor de Deus, para uma atitude mais de dedicação e amor a Deus, como foi a do centurião Cornélio ao receber um aviso do anjo (Actos 10,22). O centurião era uma pessoa aberta e, por isso, Deus deu-lhe a conhecer as suas maravilhas e fá-lo sempre a quem é assim. Quem nem sequer possui o temor de Deus, julga-se independente e auto-suficiente, passa a criticar tudo e todos e até a vontade de Deus ou a entendê-lo à sua maneira. Um amor inicial, ainda pequeno, como é o do respeito ou temor, passa então, nesta segunda fase, a ser maior e mais perfeito. Depois das suas devoções e gostos pessoais como pessoa religiosa que até liga pouco a pecados veniais, passa nesta segunda fase a ter grande amor, tornando-se verdadeiramente cristão a sério. Ser religioso por temor do castigo, por medo ou moda social vale pouco ou até nada. Só por gosto e amor é que é mais perfeito e tem maior valor.

A nossa colaboração ou desejo de perfeição santificadora ou de amor é importante nesta segunda fase da caminhada para a espiritualidade angélica. Realmente Jesus virá, com os seus anjos, a recompensar cada um pelas suas obras (Mt. 16,27). Por isso é que há todo o interesse em descobrirmos os nossos pecados, reconhecendo-nos como pecadores, para partirmos daí para a perfeição. As pessoas mundanas, pecadoras como são todos os homens, pois perfeito é só Deus, consideram-se sem pecado ou justas mas os verdadeiros justos, à medida que se aproximam de Deus, é que vêem melhor, pela sua comparação com Deus, que ainda têm mais para aperfeiçoar do que antes lhes parecia e assim vão vendo cada vez mais defeciências, defeitos e pecados do que supunham, tendo sempre cada vez mais coisas para aperfeiçoar.

Muitas vezes o próprio bem que fazemos não é de grande valor como parece, por ter sido feito em momentos de boa disposição ou então com alguma pontinha de vaidade, segundas intenções de manha. Em momentos de aborrecimento já não éramos capazes de o fazer, por não sermos capazes de enfrentar a cruz do dever. E, mesmo a fazê-lo, quantas vezes acontece ser feito quase à sorte, meio distraídos e a pensar ou ocupados noutras coisas. Há, pois, muito ainda a melhorar, o que naturalmente exige atenção e esforço, o que é precisamente sacrifício e cruz. Mas, por outro lado, importa não cair em sacrifícios artificiais e inventados à nossa maneira mas saber enfrentar os que a Providência e a vida nos oferecem, transformando-os então, em ocasiões de amor, até mesmo os simples pensamentos.

Deus tem a respeito de cada pessoa, como já se disse, uma imagem que Ele sonhou para ela e daí que todos, mesmo não tendo o cargo oficial de educadores, devemos respeitar essa vocação ou missão de Deus a respeito de cada um, evitando tornar defeituoso esse sonho do ideal de Deus com a nossa má companhia ou convivência desonesta com as pessoas.

Esta aproximação para o ideal angélico e para Deus lembra até certo ponto a ida do pobre Lázaro, levado pelos anjos para o seio de Abraão (Lc. 16, 19-22). Esta felicidade celeste é um dom de Deus e não um direito nosso a exigir a Deus, apresentando-lhe a factura das nossas boas obras para Ele pagar. Para sermos dignos da felicidade celeste, devemos tê-la na melhor das nossas aspirações, evitando andarmos distraídos e esquecidos disso mas sempre lembrados de que nem tudo o que tem barulho ou dá nas vistas neste mundo é que tem valor. Além disso, a santificação, não é igual para todos mas própria de cada pessoa segundo a própria vocação recebida de Deus. Ninguém entra numa casa a olhar para o lado mas sim de frente. Assim é irmos para o seio de Abraão através da oração, da nossa disponibilidade a Deus e ao próximo, mesmo com sacrifício. Ora viver em amor é ser como os anjos do céu (Mt. 22.30). Não é passar a ser anjo, o que é impossível, mas parecer-se com eles na inocência e santidade, pela beleza e graça de Deus, como até se costuma dizer: "Fulano é um anjo"! Amar e louvar a Deus é a vida dos anjos e é também a nossa melhor preparação para a morte, como disse Evely. Daí o interesse de aproveitar bem o tempo ainda ao nosso dispor neste mundo para a preparação da eternidade, procurando aproveitar o passado, mesmo através da reparação, e as graças das indulgências da Igreja.

A descida dos anjos para junto de Cristo (João,1.51) dá uma ideia do paraíso. Para se viver lá, há caminhos que nunca lá vão dar. Assim, negar a existência do inferno ou do demónio é a melhor maneira para se andar à vontade, fazer o que apetece sem respeito por ninguém e com todo este facilitismo, agora tão em moda, o pior avanço à vontade, por se julgar tudo permitido, não havendo sequer qualquer pecado. Outras cautelas importa ainda ter em conta, como deixar a vaidade e outras imperfeições do género, como desconhecer os perigos, expondo-se facilmente a eles sem necessidade. Além disso, é importante ter presente na vida a presença de Deus e dos anjos, vivendo a sua mensagem. Infelizmente até na igreja se liga pouco ou nada à presença de Deus no sacrário, fazendo da igreja local de conversa e até de espectáculo, ficando Deus marginalizado ou mesmo esquecido, para nós estarmos bem evidenciados e afirmados, nenhum respeito tendo por Deus, o que é falta de fé e do menor respeito. O anjo do Senhor bem quer levar a pessoa para o ambiente divino mas fica impossibilitado de o fazer por a pessoa não lhe estar a ligar, por falta de gosto ou por distração.

O amor é uma garantia de mais graças ainda a receber de Deus. Na manhã da ressurreição de Cristo dois anjos apareceram às santas mulheres (Luc. 24. 1-4). Foi o amor que tinham a Jesus, que as levou a ir ao seu sepulcro. Esse amor é que evitou elas ficarem esquecidas, distraídas ou atrasadas ou até com medo de irem lá. Para quem verdadeiramente ama, nenhum caminho parece longo ou difícil. Quando não é possível ir visitar a Cristo no sacrário, pode-se rezar a Jesus, presente até no nosso coração, como é o caso das mães em relação aos seus filhos. Muito há ainda a fazer por Jesus, o amor ainda pode ser maior. Quem pensa já amar muito, já está a amar menos, pois esse muito amor que supõe ter, é antes devido ao apoio da graça de Deus. Ora amar sem esse apoio de consolação é amar mais e melhor. Foi esse amor das santas mulheres que lhes trouxe depois a graça de serem apóstolos de Jesus ressuscitado.

Os anjos, falando aos apóstolos no dia da Ascenção (Actos 1, 10-11), não lhes disseram para abandonar a oração mas sim que ela era precisa e depois não ficassem parados, sem mais, mas seguissem com o ideal da oração para o trabalho, isto é, activando a vida contemplativa da oração no Cenáculo. É que interessa deixar a preguiça e enfrentar a cruz da vida. A tentação de ficar parado é própria das pessoas que gostam de saborear coisas religiosas agradáveis, lindas e espectaculares, não se importando de cumprir a religião na vida e de enfrentar a cruz.

O caminho para Cristo não é o das coisas espectaculares, dos milagres e visões extraordinárias, mas primeiramente e ordinariamente o de seguir o caminho estreito e difícil da cruz do dia a dia. Deus bate-nos à porta todos os dias e sempre com pedidos sempre difíceis e próprios de cada hora como são as diversas missões de que nos encarrega. Não ligando a isto, estamos a perder graças que Deus põe a circular e a passar junto de nós. Não devemos, pois, estar a olhar para o céu dos nossos gostos espirituais, não passando disso. É claro que precisamos da oração do Cenáculo para evitarmos a estrada das ilusões agradáveis e mundanas em nós. Na vida usual, o doce da sobremesa nunca serviu de verdadeiro sustento.

Na vida, nem qualquer amor a Deus é o melhor. Uma coisa é amar a Deus por causa do nosso interesse e outra é amar só por amor a Ele e sem qualquer condição e isto é o que tem mais valor, ou seja, a doação da própria pessoa, indo até ao ponto de ser capaz de sacrificar os seus gostos e sofrer desilusões por amor a Deus, isto é, com um amor a sério e não de manhas que são um contrabando espiritual. Se o amor é só por interesse ou gostos pessoais, então já está a ser egoísmo. Publicar sacrifícios feitos, fazer propaganda ou publicidade religiosa de si já não é ligar a Deus. Fazer tudo só por amor a Deus, mesmo que custe, é que é o verdadeiro amor como aquele que procura cumprir o dever com perfeição sem aldrabar. Os pecados veniais são mesmo essas aldrabices.

Para haver rendimento no amor, isto é, aperfeiçoamento, temos de ser corajosos e foi para isso que o anjo do Senhor deu coragem a S. Paulo (Actos 27,23-24). Paulo ia num barco e nós também viajamos no barco da vida, que é o mundo em que estamos. Para o amor divino e angélico entrar no nosso coração, ele deve estar pobre e esvaziado de mundanismos e coisas de pouco ou nenhum valor, o que é a virtude da pobreza evangélica, e ter sede da santidade de Deus. Precisamos de estar livres de toda essa escória como humilhações que fazem despertar o nosso orgulho bem como livres dessas mentiras ditas sem prejuízo, faltas de caridade nas críticas, pensamentos de inveja e ressentimentos antigos, empurrar os deveres e responsabilidades para os outros, adiar os deveres por sistema, manter uma vida de impaciência, vaidade da própria virtude, pouca vivência pessoal da comunhão, indiferença diante do Santíssimo Sacramento, substituir a oração pelos programas de televisão, gosto de ser promovido na vida de apostolado, evitar o peso da cruz por tudo e por nada, desculpar-se com o próprio feitio pela preguiça de corrigir-se, etc. O mesmo é ainda o estratagema de considerar-se sem pecados para se dispensar de conhecer-se melhor a si e a Deus.

Vale a pena sermos bons para com os anjos (Heb 13,1-2) e neste ponto há muito a aperfeiçoar. Podemos ter amor mas não passa ainda dum amor de casca ou amor superficial, que se parte com facilidade, como certo amor que por qualquer coisa se desfaz com os familiares e se mostra atencioso com os de fora, o que acontece também com uma piedade doce que se desfaz na hora difícil da cruz. O amor de casca é ainda um tanto egoísta, sentimental e próprio de curiosidade infantil. O amor, quando é verdadeiro, queima os vícios. Por isso, a oração de consolação mal chega a dar honra a Deus, porque é feita só para dar consolação à pessoa, pouco ou nada ligando a Deus. O amor não está na doçura mas sim no bem realizado, desde que seja bem feito, a sério e para valer. Se a pessoa tem verdadeiro amor, reza mesmo sem sentir gosto para isso. Rezar, tendo o sentido noutra coisa, é rezar sem grande respeito e, por isso, com fraco amor.

Esta segunda fase, que é a da iluminação na espiritualidade angélica, resume-se, no dizer de S. Agostinho, em conhecermos melhor a Deus e a nós, para nos compararmos com Ele, vendo assim melhor o pouquíssimo ou nada que éramos sem o sabermos bem e vermos melhor tudo o que é Deus, verificando assim que ainda nos falta muito mais que supúnhamos para nos parecermos com Ele um pouco mais.

3.ª FASE (UNIÃO A DEUS ATRAVÉS DOS ANJOS)

Esta é a grande fase de desenvolvimento e, com o auxílio dos santos, de Maria e dos anjos, põe-nos às portas de Deus. É a fase em que a virtude da caridade mais reina.

Nesta 3.ª fase a humildade ainda continua a ser uma constante de partida. Os anjos das crianças estão sempre a contemplar a face de Deus (Mt. 18,19) e, por isso, devemos ter sempre perante Deus a virtude da humildade ou simplicidade ou inocência de criança, magnificamente exemplificada por Santa Teresinha do Menino Jesus, evitando tornarmo-nos pessoas complicadas sem razão de ser, sempre a saltitar superficialmente de novidade em novidade sem nada aprofundar. Importa, nas ocasiões difíceis, não desanimar mas, pelo contrário, ter até a satisfação de vermos que realmente ainda precisamos de ajuda e graça de Deus para fazermos qualquer bem. Roguemos, pois, com toda a humildade a Deus a graça de O podermos começar a contemplar já a partir desta vida com uma vida espiritual cada vez melhor.

Não ficando num amor de casca, como acima foi dito, importa chegar deveras a um verdadeiro amor a Deus como aquele que tiveram as santas mulheres ao irem ao túmulo de Cristo onde estavam dois anjos (João 20. 11-12). Elas tinham renunciado a tudo o mais, pois o seu amor era irem lá. O ambiente mundano não favorece a aproximação com Deus. O ideal é estar no mundo, sem ser do mundo. O mal não está em as coisas serem boas, agradáveis e atraentes mas sem a pessoa ficar presa a elas, como que vendida e escrava, sendo por isso incapaz de se voltar e seguir para coisas mais difíceis, e importantes. Por isso é que também as coisas espirituais, apesar de boas em si, podem ser perigosas, ao tornar-se uma tentação para quem só gosta do agradável e foge ao sacrifício ou para quem faz delas motivo de vaidade pessoal. Por isso é que às vezes na igreja há oração que no fundo não chega a ser sequer oração digna deste nome perante Deus. O gosto agradável pode ser uma ajuda no começo da vida espiritual, na primeira fase, mas depois pode tornar-se um empecilho, se a pessoa passa a ficar-lhe presa e dependente como de uma chupeta. Na hora difícil da cruz, a paciência e confiança em Deus é tudo como o foi no caso dos três jovens na fornalha ardente socorridos pelo anjo (Daniel 3, 49-50). Quantas vezes a tentação do desespero ou da ira nos abala mas a confiança em Deus é tudo, mesmo que não nos pareça, pois o Senhor sabe sempre encaminhar as coisas no sentido do melhor. A bênção dos anjos nestas horas amargas como já aconteceu noutros casos (Gen. 48,16) vem ao nosso encontro a animar-nos a tirar proveito no caminho da santa cruz da nossa vida. Na hora terrível em que o desânimo tenta e falta toda a disposição, apareceu um anjo a confortar Jesus (Lc. 22,43) para poder vencer melhor a cruz. Na vida não interessa a pessoa estar a lamentar-se mas o que importa é ser reanimada pela fortaleza.

Viver-se a presença de Deus é o mais importante na vida espiritual, não somente na comunhão eucarística mas também na cruz da vida, permanecendo no seu posto sem procurar ir para outro mais agradável, cumprindo os deveres, familiares e sociais sem fugir para uma vida de apostolado religioso mais fácil, pois a cruz nunca deixa de aparecer também na nova situação para onde fugimos, embora seja cruz diferente. O que dá nas vistas ou parece mais agradável, não é isso que tem o maior valor mas só a vontade de Deus é que deve ser o nosso guia e orientação.

Seguir a vontade divina, que é a vocação e missão que Deus nos confia, como foi no caso de o anjo Gabriel ao anunciá-la a respeito do nascimento de João Baptista e também de Cristo (Luc. 1.13 e 31), é a única coisa mais importante da vida, isto é, procurarmos ser aquele ideal que Deus sonhou a nosso respeito que é o de Ele nascer espiritualmente em nós através da ajuda dos anjos, Maria Santíssima e os santos.