Portanto, no culto prático ao nosso anjo da guarda, devemos fazer o seguinte:

- de manhã ao despertar, unirmo-nos pela oração ao anjo;

- termos presente a sua companhia no oferecimento das nossas boas obras e demais actos de piedade (meditação, missa, comunhão);

- lembrarmo-nos do anjo da guarda durante o dia, principalmente nas coisas mais importantes;

Além disso, devemos lembrar-nos do anjo da guarda de cada pessoa, principalmente do anjo da guarda das pessoas com quem convivemos.

O que devemos pedir ao anjo da guarda deve ser: luz na dúvida, fortaleza na tentação, aceitação sem revolta nas dores, mansidão nas contrariedades, força na fraqueza, fé e constância e valor nas dificuldades da cruz de cada dia.

O que os vários grupos de pessoas devem especialmente ver no anjo da guarda: os pais devem ver no anjo o seu melhor conselheiro na educação dos filhos, os filhos devem ver nele o seu melhor amigo, as pessoas religiosas devem ver no anjo da guarda o seu melhor guia e os padres o seu melhor exemplo.

Coisas em que devemos imitar os anjos: o cristão na piedade e virtude, a pessoa religiosa nos votos e demais tarefas e o padre no seu ministério.

A renovação da devoção ao anjo deve ser diária (de manhã e à noite), mensal (por exemplo, no dia de retiro) e anual (na festa dos anjos). Outrora havia a semanal (certo dia).

No dizer de S. Brígida da Suécia, cada pessoa vive rodeada dum demónio (anjo mau) e dum verdadeiro anjo e por isso Peterson dizia que o homem na vida ou se aproxima do anjo ou do demónio.

Supõe-se geralmente que os anjos da guarda pertencem ao coro dos simples anjos. Mas, para pessoas de certa importância espiritual, podem ser anjos de coros angélicos mais elevados. Assim parece ter acontecido com S. Francisca Romana no seu progresso espiritual, pois, tendo um habitual anjo da guarda, passou depois a ter um arcanjo e finalmente um anjo Virtude. Foi revelado a S. Matilde Thaller que o anjo da guarda dum seminário era um anjo trono.

O beato Pedro Fábio aconselhava a rezar aos anjos da guarda das terras por onde passávamos e até rezar aos próprios anjos da guarda das almas que estão no purgatório.

S. Maria Madalena de Pazzi teve uma visão na qual observava uma grande cidade que significava este mundo. Havia lá quatro fortalezas:

na primeira estavam os anjos a dizer "convertei-vos, convertei-vos, convertei-vos";

na segunda estavam outros anjos a dizer "o tempo passa depressa";

na terceira os anjos diziam "o Verbo incarnou para vos salvar e habitou entre nós";

e na quarta fortaleza estavam os anjos serafins a dizer "Deus ama-vos como a Si mesmo".

Debaixo destas fortalezas estavam demónios saídos do fundo da terra a mandar calar os anjos e a escondê-los da vista dos homens. Os anjos desciam das fortalezas a curar e a salvar os homens feridos e subiam para as fortalezas, levando consigo os homens atacados.

O trabalho dos demónios é muito inteligênte. Georges Huber, no seu livro O diabo hoje, publicado em 1969 em S. Paulo, mostra que o a facto de a pessoa ter tentações, é sinal de que ainda não está na posse do demónio. Por outro lado, leva a pessoa a dar valor exagerado às coisas humanas e pouco ou nenhum valor ás coisas espirituais. O demónio, para poder melhor trabalhar, faz-se passar por não existir, no que já crêem várias pessoas, que assim não sentem a necessidade de se acautelarem e o demónio só lucra com isso. Outra forma é o demónio conseguir que as pessoas estejam sempre onde não podem e, por outro lado, não queiram estar onde já podiam e, assim, duma maneira ou doutra, nunca dão frutos de santidade. Outra táctica do demónio é inspirar as pessoas a terem muita actividade, mesmo religiosa, diminuindo assim ou esquecendo mesmo a sua união com Deus pela oração e contemplação. Outros processos são levar as pessoas a terem devoções sem grande fundamento ou a fazer uma cascata de orações carregadas de doçura sentimental ou interesseira, levar a pessoa a aceitar as chamadas meias verdades. Duma maneira geral, a grande táctica do demónio é levar as pessoas a sentir-se com muito valor, afastando-a da virtude da humildade e do sacrifício aconselhado pela cruz da vida cristã. Os santos, como observa Raniero Cantalamessa no jornal L´Osservatore Romano n.º 16 de 21-04-2001 p.8, é que sabiam por experiência, da verdadeira realidade do demónio que não é nenhum conto ou fantasia e que actualmente está a reaparecer bem escondido debaixo da cara de astrologia, feitiçaria, etc. A Bíblia fala da realidade dos demónios e que foram anjos pecando contra Deus (Mat. 25,41, Gén. 1-4, Judas 6,2, 2Pedro 2,4, Ap. 14.12,12.4)

É também interessante este respeito a lição dada por um conto antigo no qual se fala do casamento do Diabo com a Injustiça, donde nasceram 7 filhos assim chamados: a soberba, dada em casamento aos governantes, a avareza, que por sua vez casaria com os ricos, a falsidade que acabaria por dar-se aos pobres, a inveja, que seria dada em casamento aos artistas, a hipocrisia, que seria colocada num convento, a vaidade, que se tornaria colega das mulheres, e, finalmente, a luxúria que ficaria solteira para assim poder tentar a todos de qualquer estado ou situação que fosse, (Jornal A Minha Terra, de Facha – Ponte de Lima, maio-junho 1997, p.4).

Realmente os anjos estão connosco e são por nós, sendo os melhores guias para caminharmos na graça de Deus. Os maiores santuários da devoção ao grande S. Miguel são o Monte Gargano na Itália e Mont Saint-Michel na Normandia, na França, etc. As angústias psicológicas da vida moderna predispõem as pessoas para a necessidade duma espiritualidade angélica, tantas vezes entendida num sentido materialista e interesseiro, nada ou quase nada tendo de elevação para a vida espiritual e sobrenatural. A espiritualidade angélica deve-nos animar a sermos realizadores de união com os outros, a concretizar a escada angélica entre o céu e a terra.

A Providência de Deus a nosso respeito é realizada na acção vigilante do anjo da guarda sobre nós. O demónio é muito esperto e, para levar os ingénuos, toma até a forma de um anjo da guarda. Para tirarmos as dúvidas de se é anjo ou demónio encoberto, é ver pelos frutos: se nos leva para a humildade, justiça, caridade, temperança, etc., então é anjo. O demónio serve-se de tudo, de todas as coisas boas para nos levar para o mal como diz S. Agostinho, "no alimento esconde o demónio o anzol da gula, no trabalho o da preguiça; na correcção o do ímpeto da cóera; no mando o orgulho" e o mesmo faz até nas coisas da religião.

Diz o Padre Pio: "Deus está em nós se estamos em estado de graça, e fora de nós se estamos em pecado grave; mas o seu anjo nunca nos abandona". Depois de Deus e da Virgem Maria, quem se interessa mais por nós são os anjos.

O anjo da guarda fica contente quando vem ao mundo uma criancinha para ele guardar e S. Gregório de Nazianzo diz que o anjo está presente no baptismo da criança principalmente naquele momento em que há a renúncia a Satanás, etc. O mesmo acontece nos outros sacramentos e actos de piedade. Evitar, pois, dar tristeza ao anjo, como acontece, por exemplo ao anjo da guarda duma igreja, quando o povo a deixa cair no abandono e em ruínas.

Conta S. Matilde que viu 12 anjos a ajudar a sua irmã Gertrudes: três anjos a seus pés recomendavam-lhe paciência; à esquerda, três arcanjos falavam-lhe para ter boa vontade além de piedosas intenções e santos desejos, à direita, três anjos das Dominações acolhiam o respeito, veneração e dedicação das irmãs para com a doente Gertrudes e levavam tudo isso a Deus. Por isso, exclama S. Jerónimo: "grande é a dignidade das almas, pois que cada uma tem por guarda um espírito celeste".

Os anjos acompanham as almas no fim da vida até Deus, acompanhando-as tanto para o céu como para o purgatório onde "as visitam com frequência para as consolar e levar-lhes notícias daqueles que, na terra, são caridosamente pródigos em favor delas. Podemos afirmar que os anjos asseguram uma ligação contínua entre o Céu, o Purgatório e a Terra".

Como dia S. Bernardo, devemos para com os anjos ter estas três virtudes: devemos ter respeito pela sua presença junto de nós, devemos ter devoção por eles nos amarem por sermos parecidos com eles e futuros companheiros deles no céu e ocupar os lugares vagos deixados pelos anjos maus e devemos ainda ter confiança na sua guarda para nosso bem. Se os anjos descem e sobem pela escada entre o céu e a terra como Jacob bíblico viu num sonho, assim nós também, como diz S. Bento, devemos descer pela humildade e subir pelo bom cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus. A devoção ao Coração de Jesus é parecida com a dos anjos serafins a Deus. Tertuliano fala do anjo da oração e, sem oração, os dons de Deus enfraquecem, e a oração já é humildade.

* * *

Carlos G. Vallés no seu livro O Anjo da minha guarda, publicado em 1998 na cidade brasileira de S. Paulo, traz várias considerações, entre as quais achamos valer a pena lembrar as que seguem. Assim, lamentando a falta de livros sobre os anjos nas livrarias católicas, quando as livrarias das religiões esotéricas fazem tanta propaganda dos mesmos segundo uma mentalidade pobre e até mundana, sente-se triste o autor ao ver desperdiçada essa riqueza que a religião católica tinha. Seguidamente, observa que cada pessoa deve ter em equilíbrio as qualidades da pessoa de idade (disciplina, exigência de ordem e respeito de obediência) bem como da pessoa adulta (educação, responsabilidade) indicando que também deve haver ainda as qualidades de criança (sorriso, distração, esperança, alegria, ternura, suavidade, maravilha), acrescentando que as qualidades de criança ou da infância espiritual, tão excelentemente vivida por S. Teresinha do Menino Jesus e bem descritas por J.M. Cabodevilla num dos seus livros, lembram-nos muito os anjos.

Observa o autor que os anjos também "nos deixam tropeçar em nosso caminho para nosso próprio bem e aprendizado", até porque "os anjos da guarda não são uma companhia de seguros", evitando assim estragar-nos com protecção contínua a ponto de nós facilitarmos e deixarmos entregue a eles a responsabilidade que nos compete.

Ao referir que S. Inácio de Loyola tinha um arcanjo por seu anjo da guarda, não acha que um anjo da guarda venha a ser substituído por outro de mais categoria como se diz ter acontecido com S. Francisca Romana mas mais adiante indica que um anjo pode socorrer-se da ajuda doutro anjo, o que mostra ser também possível que um anjo da guarda, com melhores possibilidades naquele caso ou situação concreta, possa vir tomar conta, o que bem se compreende no caso de S. Francisca Romana.

Ao tratar de S. Rafael diz que os "Anjos são especialistas em caminhos, direcções, contactos e referências" e se a palavra anjo significa "mensageiro de boas notícias ou novas", também a palavra Evangelho (onde está a palavra anjo) significa "boa nova" e por isso "Os anjos são parte do Evangelho. Todos os anjos passaram por Belém" a anunciar a Boa Nova do Salvador. Realmente, "falta-nos aquela confiança essencial que transforma a dúvida em certeza, a espera em encontro e a petição em acção de graças" devido a não termos devoção aos anjos e por isso "os anjos passam por maus bocados tentando convencer-nos", pois eles "mantêm nossa fé e esperança diante de realidades celestiais".

Ao falar de S. Gabriel, o autor diz que os anjos "têm uma perspectiva mais elevada, uma experiência mais longa, uma visão mais clara, um horizonte mais amplo e podem-nos oferecer vislumbres de seu próprio entendimento para nos ajudar a superar as deficiências do nosso". No caso da anunciação de S. Gabriel à Virgem Maria, diz que foi "o melhor que temos na terra com o melhor que nos enviam dos céus". Todo o futuro da humanidade está na expectativa da diplomacia de Gabriel e da generosidade de Maria. Cada proposta delicada encontra correspondência em uma abertura instantânea. Na medida em que o diálogo prossegue nosso sorriso se alarga e nosso coração se tranquiliza. Não há mais ansiedade agora. O anjo propôe, "a Virgem faz uma pergunta, o anjo explica – o que é precisamente a especialidade de Gabriel – e a Virgem aceita – o que é precisamente a especialidade de Maria". E céus e terras rejubilam-se" e, de facto, "As anunciações de Deus em nossa vida são sempre momentos de luz e graça […] Deus anda ao nosso lado em nossos caminhos mas não especificam de antemão [essas anunciações] quais são esses caminhos e não desenham para nós os mapas de terras prometidas. As palavras do anjo abrem horizontes e então exigem fé. Elas indicam metas remotas para que apressemos nossos passos. Anunciam o poder do Altíssimo, ao mesmo tempo que nos lembram de nossas limitações em nossa fraqueza", "todo o convite [de Deus] é uma anunciação e toda a anunciação é obra de Gabriel e de seus anjos" e "Quando endurecemos o interior, bloqueamos as inspirações que vêm do exterior" das mensagens angélicas.

Ao tratar S. Miguel, o autor refere: "Temos sempre nosso anjo da guarda ao nosso lado; só precisamos de abrir os olhos da alma em confiança, amor e intimidade para sentir sua presença e desfrutar sua companhia" e "Miguel é o símbolo do poder, do desafio, do esforço, da luta e da vitória final. Todos nós precisamos de sua inspiração em nossa própria luta pela vida" e nisto convém evitar a palavra "poder" pois há "o perigo de inclinar para o orgulho", sendo melhor outras palavras "como «energia», «vitalidade», «frescor», «entusiasmo», que aceleram nossa vida, ao mesmo tempo que a mantêm livre das ambições do triunfo e do sucesso. Devemos sentir, em nós essa energia celestial". Devido à luta dos demónios, os anjos bons "ás vezes geram um atraso na ajuda" mas isso nos ensina a nunca perder a paciência ou hesitar em "nossa fé". Porque o anjo acabará chegando".

Continua o autor: os anjos "gostam de ser testemunhas oculares da vida de homens e mulheres sob a providência de Deus e seus planos salvadores para a humanidade. Observar a acção de Deus na terra é a sua maior diversão e sua maior alegria", "os anjos querem estar próximos de cada movimento de Jesus na terra, assim como querem estar perto de nós", "os anjos não recebem os sacramentos mas observam-nos quando os recebemos e sentem connosco a purificação de um perdão penitencial e o fervor de um encontro eucarístico, assim como se rejubilam nas bênçãos de um baptismo e nas congratulações de um casamento".

A respeito dos 3 anjos que se avistaram com Abraão, observa o autor: "Quando convidamos alguém à nossa casa estamos convidando um anjo", pelo menos a pessoa e o seu anjo, quer dizer, "pelo menos acolhemos o anjo que está com ela. Há até mesmo a possibilidade de que um anjo represente uma pessoa, isto é, ele pode visitar-nos em nome da pessoa que ele guarda e protege" sob forma humana disfarçada.

Por isso, na vida importa ter "Fé prática que traz realidades celestiais para as ocorrências terrenas da vida cotidiana" e infelizmente "a fé prática que os primeiros cristãos depositavam nos anjos não é partilhada pelos cristãos de hoje. Perdemos o contacto, perdemos a familiaridade, perdemos a inocência", "a companhia de um anjo é uma bênção na vida".

A respeito do anjo que consolou a Jesus na sua agonia no Jardim das Oliveiras, diz o autor: "O anjo veio porque os homens falharam com Jesus" pois os seus discípulos puseram-se a dormir, não vigiando. Por isso, eu "nunca devo falhar com alguém que possa precisar, em determinado momento, de meu apoio, minha presença, minha ajuda" e não ficar a dormir como fizeram os discípulos "mas sempre estar pronto a ajudar os outros", "não vamos deixar para os anjos o que nós mesmos podemos fazer", ainda que seja tão pouco como o "silêncio nos lábios e ternura nos olhos", pois "quando ajudamos e consolamos os outros, estamos fazendo um trabalho de anjo" e "os anjos podem aparecer disfarçados de humanos, como fizeram diante de Tobias e Abraão. Agora cabe a nós, homens e mulheres, assumir o papel dos anjos estando atentos aos sentimentos e sofrimentos daqueles que nos cercam", "todos nós podemos ser anjos do Getsémani, sob as muitas oliveiras que crescem nos jardins da vida".

A respeito do livro do Apocalipse que fala muito dos anjos das igrejas, do mar, etc., etc., diz o autor que devemos "orar para o anjo da nossa igreja, nossa paróquia, nosso grupo, nossa família" além dos anjos das águas, árvores, colheitas, etc., pois "todo o lugar tem seu anjo e toda a energia é governada por seu poder" e por isso convém "pensar no anjo das águas quando tomo banho, no anjo dos ventos quando caminho com passos rápidos", "anjos do sol e da lua, das árvores e dos pássaros, dos campos e gramados, das flores e das nuvens" e "nos anjos de nossos prédios altos, dos arranha-céus e escritórios, shopping e supermercados" e "anjo de ruas e avenidas, de jardins e parques, de alamedas e estradas, do tráfego e da segurança" pois "a essência de toda a religião é ver Deus em todas as coisas, sua vontade em todos os acontecimentos, sua bênção em todas as alegrias, sua proximidade em todas as provações", "a familiaridade com os anjos é a estrada real para a intimidade com Deus. Cada momento e cada ocasião tem seu próprio anjo e, como esses anjos vêem o rosto de Deus todo o tempo, nosso contacto com eles leva-nos pela mão à presença de Deus". Pois, para mal, já há tanto (violência, droga, corrupção, desespero, ódios, massacres, felicidade ilusória, orgulho triunfante, etc.) onde os anjos maus, se não participam, pelo menos ficam contentes.

Realmente, a nossa união com os anjos "prepara-nos para a liturgia de anjos diante do trono de Deus".

Jesus Urteaga no seu livro Deus e os Filhos, 2ª ed., Lisboa/Coimbra, 1964, p. 80 escreve o seguinte: "Tu, mãe, que tanto te queixas por ficares só em casa com o teu filho, esqueces-te de que sois quatro os que ficais? Tu, o pequeno, o teu anjo e o dele." É também curioso o seguinte ditado muçulmano: "deve-se percorrer com muita prudência e respeito caminhos que até os anjos receiam trilhar" (citado por Mateus Soares de Azevedo, Mística Muçulmana, 2.ª ed., Petropolis 2001, p. 116).