A eternidade das penas do inferno é uma verdade de fé revelada Deus revelou às suas criaturas a eternidade das penas que as aguardaria no inferno, se fossem tão insensatas, perversas, ingratas e tão inimigas de si mesmas, que chegassem a revoltar-se contra as leis da sua santidade e do seu amor.

Pelo Profeta Isaías repete-nos a mesma doutrina, e ainda haveis de lembrarvos da terrível apóstrofe que dirige aos pecadores: "Qual dentre vós poderá habitar no fogo devorador, nas chamas eternas (cum ardoribus sempiternis?)" Aqui ainda o superlativo sempiternus.

No Novo Testamento a eternidade do fogo e das penas do inferno foi declarada formalmente pelos lábios do Salvador e pela pena dos Apóstolos. Recordai, caro leitor, alguns dos textos já citados. Apenas repetirei algumas palavras do Filho de Deus, porque resumem solenemente todas as outras: é a sentença que presidirá a nossa eternidade:

"Vinde, benditos de meu Pai, e entrai na posse do reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo! Retirai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos." E o adorável Juiz acrescenta: "e estes irão para o suplício eterno, e aqueles entrarão na vida eterna (in supplicium acternum, in vitam aeternam)." Estas palavras do Filho de Deus não precisam de comentários.

Sobre a sua luminosa clareza a Igreja faz repousar há dezenove séculos o seu ensino divino, soberano e infalível, concernente à eternidade propriamente dita da beatitude dos escolhidos no céu e das penas dos condenados do inferno.

Portanto, a eternidade do inferno e das suas terríveis penas é uma verdade revelada, uma verdade de fé católica tão certa como a existência de Deus e os outros grandes mistérios da religião cristã.

O inferno é necessariamente eterno, atenta a natureza da eternidade

Há muito tempo quo a fraqueza natural do espírito humano tem pretendido atenuar o peso deste terrível mistério das penas dos réprobos. Já no tempo de Jó e de Moisés, dezessete ou dezoito séculos antes da era cristã, alguns espíritos levianos e certas consciências muito remordidas falavam da mitigação e até do termo das penas do inferno. "Imaginam, diz o livro de Jó, que o inferno diminui e envelhece."

Hoje, como em todos os tempos, esta tendência a mitigar e encurtar as penas do inferno acha advogados mais ou menos diretamente interessados na causa. Enganam-se. Além da sua suposição se basear na fantasia e ser diretamente contrária ao ensino divino de Jesus Cristo e da sua Igreja, parte de uma concepção absolutamente falsa acerca da natureza da eternidade. Não só não haverá termo nem mitigação nas penas dos condenados, mas é mesmo completamente impossível havê-la.

A natureza da eternidade opõe-se a isso de uma maneira absoluta.

Com efeito, a eternidade não é como o tempo, que se compõe de uma sucessão de instantes acrescentados uns aos outros, e cuja reunião forma os minutos, as horas, os dias, os anos e os séculos. No tempo pode-se mudar, pois que o tempo é mudável.

Mas se o homem não tivesse diante de si nem dia, nem hora, nem minuto, nem segundo, é claro que não poderia passar de um para outro estado.

Ora é exatamente o que sucede na eternidade. Na eternidade não há instantes que sucedam a outros instantes e que sejam distintos entre si. A eternidade é um modo de duração e de existência, que não tem nada de comum com o do tempo; podemos conhecê-la, mas não compreendê-la.

É o mistério da outra vida, é uma verdadeira e misteriosa participação da própria eternidade de Deus.

Lá não há séculos acumulados sobre séculos, nem milhões de séculos acrescentados a outros milhões de séculos. Estas são maneiras terrestres e perfeitamente falsas de conceber a eternidade.

Repito: a natureza da eternidade, não se assemelhando em nada às sucessões do tempo, não pode admitir nenhuma mudança quer no bem, quer no mal. Por isso nas penas do inferno é impossível qualquer mudança; e como a cessação, ou mesmo a simples mitigação destas penas constituiria necessariamente uma mudança, devemos concluir com firme certeza que as penas do inferno são absolutamente eternas, imutáveis, e que o sistema da mitigação é uma fraqueza do espírito ou um capricho da imaginação e do sentimento.

O que acabamos de compendiar acerca da eternidade, caro leitor, é talvez um pouco abstrato; mas quanto mais refletirdes, melhor reconhecereis quanto é verdade o que deixamos dito. Em todo o caso, repousemos sobre a formal e clara afirmação de Nosso Senhor Jesus Cristo, e digamos com toda a simplicidade e certeza de fé: "Creio na vida eterna (credo vitam arternum)", isto é, que a outra vida será para todos imortal e eterna: para os bons, imortal e eterna na felicidade do paraíso; para os maus, imortal e eterna nos tormentos do inferno.

Um dia S. Agostinho, Bispo de Hipona, procurava escrutar, com a sua inteligência tão poderosa, a natureza desta eternidade, em que a Bondade e a Justiça de Deus aguardam todas as criaturas. Investigava e esquadrinhava; ora entendia, ora sentia-se detido pelo mistério. De repente apareceu-lhe, cercado de uma luz radiosa, um velho de fisionomia veneranda e resplandecente de glória. Era S. Jerônimo que, na idade quase de cem anos, acabava de morrer bem longe dali, em Belém. E como S. Agostinho ficou espantado e admirado ante a celeste visão que se oferecia à sua vista, disselhe o santo velho: "Os olhos do homem nunca viram, nem os ouvidos ouviram, nem o espírito humano poderá jamais conhecer o que tu procuras compreender." E desapareceu.

Tal é o mistério da eternidade do céu e do inferno. Acreditemos humildemente e aproveitemo-nos da vida, a fim de que, quando para nós acabar o tempo, sejamos admitidos na feliz eternidade, evitando, pela misericórdia de Deus, a infeliz.

SEGUNDA RAZÃO DA ETERNIDADE DAS PENAS: A FALTA DE GRAÇA

Ainda que o condenado tivesse tempo para poder mudar, converter-se e obter misericórdia, este tempo não lhe aproveitaria.

E porque razão? Porque a causa dos castigos que ele sofre é sempre a mesma. Esta causa é o pecado, é o mal que o réprobo escolheu na terra para sua partilha. O condenado é um pecador impenitente e inconvertível.

Com efeito, o tempo não é suficiente para operar a conversão. Ah! acaso não o experimentamos neste mundo? Vivemos no meio de muitos homens, que o bom Deus espera há dez, vinte, trinta, quarenta anos e algumas vezes mais. Portanto, para o homem converter-se é preciso também a graça.

Não é possível a conversão sem o dom essencialmente gratuito da graça de Jesus Cristo, que é o remédio fundamental do pecado e o primeiro princípio da ressurreição das pobres almas que estão separadas de Deus pelo pecado e sepultadas na morte espiritual. O Senhor disse: "Eu sou a ressurreição e a vida"; é pelo dom da graça que Ele ressuscita as almas mortas pelo pecado, e que as mantém depois na vida espiritual.

Ora na sua Sabedoria infinita este Soberano Senhor determinou que só nesta vida, que é o tempo da prova, nos fosse dada a sua graça para podermos evitar a morte do pecado e adiantar-nos no caminho dos filhos de Deus. No outro mundo já não é tempo da graça nem da prova: é o tempo da recompensa eterna para os que corresponderam à graça, vivendo cristãmente, e é o tempo do castigo eterno para os que desprezaram a graça, vivendo e morrendo no pecado. Esta é a economia da Providencia, e nada a fará mudar.

Portanto, na eternidade já não há graça para os pecadores condenados; e como sem a graça é absolutamente impossível ao homem arrepender-se eficazmente, como é mister para obter o perdão, segue-se que o perdão não é possível, e por isso subsistindo sempre a causa do castigo, deve igualmente subsistir o castigo, efeito do pecado.

Sem a graça não pode haver arrependimento, sem arrependimento não pode ter lugar a conversão, sem a conversão não pode obter-se o perdão, sem o perdão não poderá haver cessação nem mitigação nas penas. Acaso não é isto razoável?

O mau rico do Evangelho não se arrepende no fogo do inferno. Ele não diz: "Arrependo-me!", nem mesmo: "Pequei", mas diz: "Sofro horrivelmente nesta chama." É o grito da dor e da desesperação, mas não o grito do arrependimento. Ele não sabe implorar o perdão, porque só pensa em si e no seu alívio.

O egoísta em vão pede a gota d'água que podia refrescá-lo. Esta gota d'água é o toque da graça que o salvaria, mas respondeu-se-lhe que é impossível dá-la. Ele detesta o castigo, mas não a culpa. Tal é a terrível história de todos os condenados.

Na terra, a cidade de Deus e a cidade de Satanás estão unidas e misturadas. Pode-se passar e repassar de uma para a outra, podendo o homem de bom tornar-se mau e de mau tornar-se bom. Mas tudo isto acaba no momento da morte.

Então as duas cidades são irrevogavelmente separadas, segundo diz o Evangelho; não se pode mais passar duma para a outra, da cidade de Deus para a cidade de Satanás, do paraíso para o inferno, nem do inferno para o paraíso.

Nesta vida tudo é imperfeito, tanto o bem como o mal, Nada é definitivo, e não sendo recusada a ninguém a graça de Deus, pode-se sempre fugir do mal, do império do demônio e da morte do pecado, enquanto se estiver neste mundo.

Mas, como já se disse, isto é a partilha da vida presente. Apenas um pobre homem em estado de pecado mortal dá o último suspiro, tudo muda de figura: a eternidade sucede ao tempo, passaram os momentos da graça e da prova, já não é possível a ressurreição da alma, e a árvore caída para a esquerda fica eternamente na esquerda.

Portanto, a sorte dos réprobos foi fixada para sempre, e por isso não poderá haver mudança, mitigação, suspensão ou cessação nos tormentos que eles sofrem. Falta-lhes não só o tempo, mas também a graça.

TERCEIRA RAZÃO DA ETERNIDADE DAS PENAS: A PERVERSIDADE DA VONTADE DOS CONDENADOS

Mas depois da morte já não há liberdade nem graça. Isto acabou, e acabou para sempre. Então trata-se, não de escolher, mas de ficar no lugar que se escolheu. Escolhestes o bem e a vida, possuireis para sempre o bem e a vida; escolhestes loucamente o mal e a morte, estareis eternamente na morte, nessa morte que tão livremente escolhestes.

Esta é a eternidade das penas.

No palácio de Versailles vê-se ainda o quarto onde morreu Luiz XIV, em 1 de setembro de 1715, com os mesmos móveis e particularmente com o mesmo relógio.

Por um sentimento de respeito para com o grande rei defunto, fizeram parar o relógio apenas ele deu o último suspiro, às 4 horas e 31 minutos. Desde então ninguém mais lhe tocou, e o ponteiro imóvel, marca ainda 4 horas e 31 minutos. É uma viva imagem da imobilidade em que entra e permanece a vontade do homem, quando sai deste mundo.

A vontade do pecador condenado continua, pois, a ser a mesma que era no momento da morte. Desde então fica imobilizada e — permita-se-me aA eternidade das penas do inferno é uma verdade de fé revelada Deus revelou às suas criaturas a eternidade das penas que as aguardaria no inferno, se fossem tão insensatas, perversas, ingratas e tão inimigas de si mesmas, que chegassem a revoltar-se contra as leis da sua santidade e do seu amor.

Pelo Profeta Isaías repete-nos a mesma doutrina, e ainda haveis de lembrarvos da terrível apóstrofe que dirige aos pecadores: "Qual dentre vós poderá habitar no fogo devorador, nas chamas eternas (cum ardoribus sempiternis?)" Aqui ainda o superlativo sempiternus.

No Novo Testamento a eternidade do fogo e das penas do inferno foi declarada formalmente pelos lábios do Salvador e pela pena dos Apóstolos. Recordai, caro leitor, alguns dos textos já citados. Apenas repetirei algumas palavras do Filho de Deus, porque resumem solenemente todas as outras: é a sentença que presidirá a nossa eternidade:

"Vinde, benditos de meu Pai, e entrai na posse do reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo! Retirai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos." E o adorável Juiz acrescenta: "e estes irão para o suplício eterno, e aqueles entrarão na vida eterna (in supplicium acternum, in vitam aeternam)." Estas palavras do Filho de Deus não precisam de comentários.

Sobre a sua luminosa clareza a Igreja faz repousar há dezenove séculos o seu ensino divino, soberano e infalível, concernente à eternidade propriamente dita da beatitude dos escolhidos no céu e das penas dos condenados do inferno.

Portanto, a eternidade do inferno e das suas terríveis penas é uma verdade revelada, uma verdade de fé católica tão certa como a existência de Deus e os outros grandes mistérios da religião cristã.

O inferno é necessariamente eterno, atenta a natureza da eternidade

Há muito tempo quo a fraqueza natural do espírito humano tem pretendido atenuar o peso deste terrível mistério das penas dos réprobos. Já no tempo de Jó e de Moisés, dezessete ou dezoito séculos antes da era cristã, alguns espíritos levianos e certas consciências muito remordidas falavam da mitigação e até do termo das penas do inferno. "Imaginam, diz o livro de Jó, que o inferno diminui e envelhece."

Hoje, como em todos os tempos, esta tendência a mitigar e encurtar as penas do inferno acha advogados mais ou menos diretamente interessados na causa. Enganam-se. Além da sua suposição se basear na fantasia e ser diretamente contrária ao ensino divino de Jesus Cristo e da sua Igreja, parte de uma concepção absolutamente falsa acerca da natureza da eternidade. Não só não haverá termo nem mitigação nas penas dos condenados, mas é mesmo completamente impossível havê-la.

A natureza da eternidade opõe-se a isso de uma maneira absoluta.

Com efeito, a eternidade não é como o tempo, que se compõe de uma sucessão de instantes acrescentados uns aos outros, e cuja reunião forma os minutos, as horas, os dias, os anos e os séculos. No tempo pode-se mudar, pois que o tempo é mudável.

Mas se o homem não tivesse diante de si nem dia, nem hora, nem minuto, nem segundo, é claro que não poderia passar de um para outro estado.

Ora é exatamente o que sucede na eternidade. Na eternidade não há instantes que sucedam a outros instantes e que sejam distintos entre si. A eternidade é um modo de duração e de existência, que não tem nada de comum com o do tempo; podemos conhecê-la, mas não compreendê-la.

É o mistério da outra vida, é uma verdadeira e misteriosa participação da própria eternidade de Deus.

Lá não há séculos acumulados sobre séculos, nem milhões de séculos acrescentados a outros milhões de séculos. Estas são maneiras terrestres e perfeitamente falsas de conceber a eternidade.

Repito: a natureza da eternidade, não se assemelhando em nada às sucessões do tempo, não pode admitir nenhuma mudança quer no bem, quer no mal. Por isso nas penas do inferno é impossível qualquer mudança; e como a cessação, ou mesmo a simples mitigação destas penas constituiria necessariamente uma mudança, devemos concluir com firme certeza que as penas do inferno são absolutamente eternas, imutáveis, e que o sistema da mitigação é uma fraqueza do espírito ou um capricho da imaginação e do sentimento.

O que acabamos de compendiar acerca da eternidade, caro leitor, é talvez um pouco abstrato; mas quanto mais refletirdes, melhor reconhecereis quanto é verdade o que deixamos dito. Em todo o caso, repousemos sobre a formal e clara afirmação de Nosso Senhor Jesus Cristo, e digamos com toda a simplicidade e certeza de fé: "Creio na vida eterna (credo vitam arternum)", isto é, que a outra vida será para todos imortal e eterna: para os bons, imortal e eterna na felicidade do paraíso; para os maus, imortal e eterna nos tormentos do inferno.

Um dia S. Agostinho, Bispo de Hipona, procurava escrutar, com a sua inteligência tão poderosa, a natureza desta eternidade, em que a Bondade e a Justiça de Deus aguardam todas as criaturas. Investigava e esquadrinhava; ora entendia, ora sentia-se detido pelo mistério. De repente apareceu-lhe, cercado de uma luz radiosa, um velho de fisionomia veneranda e resplandecente de glória. Era S. Jerônimo que, na idade quase de cem anos, acabava de morrer bem longe dali, em Belém. E como S. Agostinho ficou espantado e admirado ante a celeste visão que se oferecia à sua vista, disselhe o santo velho: "Os olhos do homem nunca viram, nem os ouvidos ouviram, nem o espírito humano poderá jamais conhecer o que tu procuras compreender." E desapareceu.

Tal é o mistério da eternidade do céu e do inferno. Acreditemos humildemente e aproveitemo-nos da vida, a fim de que, quando para nós acabar o tempo, sejamos admitidos na feliz eternidade, evitando, pela misericórdia de Deus, a infeliz.

SEGUNDA RAZÃO DA ETERNIDADE DAS PENAS: A FALTA DE GRAÇA

Ainda que o condenado tivesse tempo para poder mudar, converter-se e obter misericórdia, este tempo não lhe aproveitaria.

E porque razão? Porque a causa dos castigos que ele sofre é sempre a mesma. Esta causa é o pecado, é o mal que o réprobo escolheu na terra para sua partilha. O condenado é um pecador impenitente e inconvertível.

Com efeito, o tempo não é suficiente para operar a conversão. Ah! acaso não o experimentamos neste mundo? Vivemos no meio de muitos homens, que o bom Deus espera há dez, vinte, trinta, quarenta anos e algumas vezes mais. Portanto, para o homem converter-se é preciso também a graça.

Não é possível a conversão sem o dom essencialmente gratuito da graça de Jesus Cristo, que é o remédio fundamental do pecado e o primeiro princípio da ressurreição das pobres almas que estão separadas de Deus pelo pecado e sepultadas na morte espiritual. O Senhor disse: "Eu sou a ressurreição e a vida"; é pelo dom da graça que Ele ressuscita as almas mortas pelo pecado, e que as mantém depois na vida espiritual.

Ora na sua Sabedoria infinita este Soberano Senhor determinou que só nesta vida, que é o tempo da prova, nos fosse dada a sua graça para podermos evitar a morte do pecado e adiantar-nos no caminho dos filhos de Deus. No outro mundo já não é tempo da graça nem da prova: é o tempo da recompensa eterna para os que corresponderam à graça, vivendo cristãmente, e é o tempo do castigo eterno para os que desprezaram a graça, vivendo e morrendo no pecado. Esta é a economia da Providencia, e nada a fará mudar.

Portanto, na eternidade já não há graça para os pecadores condenados; e como sem a graça é absolutamente impossível ao homem arrepender-se eficazmente, como é mister para obter o perdão, segue-se que o perdão não é possível, e por isso subsistindo sempre a causa do castigo, deve igualmente subsistir o castigo, efeito do pecado.

Sem a graça não pode haver arrependimento, sem arrependimento não pode ter lugar a conversão, sem a conversão não pode obter-se o perdão, sem o perdão não poderá haver cessação nem mitigação nas penas. Acaso não é isto razoável?

O mau rico do Evangelho não se arrepende no fogo do inferno. Ele não diz: "Arrependo-me!", nem mesmo: "Pequei", mas diz: "Sofro horrivelmente nesta chama." É o grito da dor e da desesperação, mas não o grito do arrependimento. Ele não sabe implorar o perdão, porque só pensa em si e no seu alívio.

O egoísta em vão pede a gota d'água que podia refrescá-lo. Esta gota d'água é o toque da graça que o salvaria, mas respondeu-se-lhe que é impossível dá-la. Ele detesta o castigo, mas não a culpa. Tal é a terrível história de todos os condenados.

Na terra, a cidade de Deus e a cidade de Satanás estão unidas e misturadas. Pode-se passar e repassar de uma para a outra, podendo o homem de bom tornar-se mau e de mau tornar-se bom. Mas tudo isto acaba no momento da morte.

Então as duas cidades são irrevogavelmente separadas, segundo diz o Evangelho; não se pode mais passar duma para a outra, da cidade de Deus para a cidade de Satanás, do paraíso para o inferno, nem do inferno para o paraíso.

Nesta vida tudo é imperfeito, tanto o bem como o mal, Nada é definitivo, e não sendo recusada a ninguém a graça de Deus, pode-se sempre fugir do mal, do império do demônio e da morte do pecado, enquanto se estiver neste mundo.

Mas, como já se disse, isto é a partilha da vida presente. Apenas um pobre homem em estado de pecado mortal dá o último suspiro, tudo muda de figura: a eternidade sucede ao tempo, passaram os momentos da graça e da prova, já não é possível a ressurreição da alma, e a árvore caída para a esquerda fica eternamente na esquerda.

Portanto, a sorte dos réprobos foi fixada para sempre, e por isso não poderá haver mudança, mitigação, suspensão ou cessação nos tormentos que eles sofrem. Falta-lhes não só o tempo, mas também a graça.

TERCEIRA RAZÃO DA ETERNIDADE DAS PENAS: A PERVERSIDADE DA VONTADE DOS CONDENADOS

Mas depois da morte já não há liberdade nem graça. Isto acabou, e acabou para sempre. Então trata-se, não de escolher, mas de ficar no lugar que se escolheu. Escolhestes o bem e a vida, possuireis para sempre o bem e a vida; escolhestes loucamente o mal e a morte, estareis eternamente na morte, nessa morte que tão livremente escolhestes.

Esta é a eternidade das penas.

No palácio de Versailles vê-se ainda o quarto onde morreu Luiz XIV, em 1 de setembro de 1715, com os mesmos móveis e particularmente com o mesmo relógio.

Por um sentimento de respeito para com o grande rei defunto, fizeram parar o relógio apenas ele deu o último suspiro, às 4 horas e 31 minutos. Desde então ninguém mais lhe tocou, e o ponteiro imóvel, marca ainda 4 horas e 31 minutos. É uma viva imagem da imobilidade em que entra e permanece a vontade do homem, quando sai deste mundo.

A vontade do pecador condenado continua, pois, a ser a mesma que era no momento da morte. Desde então fica imobilizada e — permita-se-me a expressão — eternizada. O condenado quer sempre e necessariamente o mal que fez, diz S. Bernardo.

O mal e ele são inseparáveis; é como que um pecado vivo, permanente e imutável.

Assim como os bem-aventurados, vendo a Deus no seu amor, amam-O necessariamente, assim os réprobos, não vendo a Deus senão nos castigos da sua Justiça, odeiam-O necessariamente. Pergunto-vos: não será rigorosamente justo que se oponha um castigo imutável a uma perversidade imutável, e que uma pena eterna, e sempre a mesma, puna uma vontade eternamente fixa no mal, eternamente afastada de Deus pela revolta e pelo ódio, uma vontade decidida a pecar sempre?

Do que acabamos de dizer, resulta de uma maneira evidente que no inferno os condenados, não tendo tempo, nem graça, nem vontade de se arrependerem, não podem ser perdoados, e por isso devem necessariamente sofrer um castigo imutável e eterno; finalmente e como consequência rigorosa, que as penas do inferno não terão fim, nem são suscetíveis de diminuições ou mitigações, como alguns julgam.

expressão — eternizada. O condenado quer sempre e necessariamente o mal que fez, diz S. Bernardo.

O mal e ele são inseparáveis; é como que um pecado vivo, permanente e imutável.

Assim como os bem-aventurados, vendo a Deus no seu amor, amam-O necessariamente, assim os réprobos, não vendo a Deus senão nos castigos da sua Justiça, odeiam-O necessariamente. Pergunto-vos: não será rigorosamente justo que se oponha um castigo imutável a uma perversidade imutável, e que uma pena eterna, e sempre a mesma, puna uma vontade eternamente fixa no mal, eternamente afastada de Deus pela revolta e pelo ódio, uma vontade decidida a pecar sempre?

Do que acabamos de dizer, resulta de uma maneira evidente que no inferno os condenados, não tendo tempo, nem graça, nem vontade de se arrependerem, não podem ser perdoados, e por isso devem necessariamente sofrer um castigo imutável e eterno; finalmente e como consequência rigorosa, que as penas do inferno não terão fim, nem são suscetíveis de diminuições ou mitigações, como alguns julgam.