Primeiro que tudo, cumpre afastar-nos com cuidado de todas as ficções populares e supersticiosas, que alteram em tantos espíritos a noção verdadeira e católica do inferno, Muitos forjam um inferno fantástico e ridículo, e depois dizem: "Não creio no inferno, pois é absurdo e impossível. Não, não creio nem posso crer no inferno."

Com efeito, se o inferno fosse o que dizem muitas mulheres, aliás boas, teríeis cem vezes, mil vezes razão de não acreditardes nele. Todas estas invenções são dignas de figurar ao lado dos contos que se fabricam para entreter a imaginação do vulgo. Não é isto o que ensina a Igreja; e se algumas vezes, afim de comoverem mais vivamente os corações, alguns autores e pregadores julgaram poder empregar a fantasia, sua boa intenção não os impediu de procederem mal, visto que a ninguém é permitido desfigurar a verdade e expô-la à irrisão dos homens sensatos, sob o pretexto de amedrontar os ignorantes, para mais facilmente os fazer sair do caminho da perdição. Bem sei que muitas vezes se experimenta um grande embaraço em fazer compreender ao povo os terríveis castigos do inferno; e como a maior parte da gente precisa de representações materiais para conceber as coisas mais elevadas, é quase preciso falar do inferno e do suplício dos condenados de uma maneira figurada. Mas é muito difícil fazê-lo com moderação; e muitas vezes, repito, com as mais excelentes intenções cai-se no impossível, ou antes, no ridículo.

Não, o inferno não é isto, De um modo bem diferente, é grande e terrível. Vamos vêl-o.