Segundo o Pe. António Vieira a escada do sonho de Jacob que ligava a terra ao céu, tinha 10 degraus (9 eram para os 9 coros de anjos subirem e descerem por ela e o outro degrau estava vago). Deus não descia por ela ao encontro da humanidade nem o homem subia no tempo do Antigo Testamento devido ao pecado (original, etc.). Mas no Novo Testamento o Filho de Deus desce por ela para encarnar em Maria, nascendo em Belém, descendo portanto, não a tornar-se anjo, mas a tornar-se homem, o que era mais baixo que ser anjo e depois ainda desceu mais, tornando-se criado dos próprios homens, lavando os pés aos apóstolos e servindo os homens para os salvar.

Agora já é possível os homens, pela salvação de Cristo, puderem subir a escada para o céu (o tal degrau vago era para eles, formando uma espécie de décimo coro de "anjos terrestes"), junto dos anjos celestes.

S. António, referindo que os anjos nos ajudam a cumprir os mandamentos e os arcanjos nos auxiliam a observar os conselhos evangélicos (pobreza, obediência e castidade), próprios da vida religiosa consagrada como se vê do arcanjo S. Gabriel em relação a Maria, acrescenta o mesmo santo o seguinte a respeito da escada de Jacob (da terra ao céu) como se pode ver de Henrique Pinto Rema, Sermões Dominicais (de S. António), no sermão do 2 .º Domingo então da quaresma onde uma das leituras falava da escada de Jacob, afirma S. António que os dois lados da escada representam o arrependimento e a confissão e os seis degraus da mesma, a começar pelos de baixo, significam as seguintes seis virtudes, destinadas a santificar as almas: a virtude da mortificação da vontade, a do rigor da disciplina, a da abstinência, a de reconhecer a própria fraqueza, a de viver bem a vida activa e, finalmente, a de contemplar a glória celeste.

S. António compara ainda com a mesma escada a subida ao monte Tabor, onde o profeta Samuel disse ao rei Saul estarem no Tabor três homens, um com três cabritos, outro com três tortas de pão e um outro com um barril de vinho. S. António julga que os três homens representam os três apóstolos (Pedro, Tiago, João), que mais tarde estariam com Cristo no Monte Tabor e depois ainda na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, ou seja: S. Pedro com os três cabritos a representar as três virtudes de horror ao pecado (soberba de coração, pecado carnal, avareza mundana), S. Tiago com as três tortas de pão a representar a suavidade do entendimento nas suas três formas (humildade de coração, castidade de corpo, amor da pobreza) e S. João com o barril de vinho a significar a perseverança da graça, do amor, do Espírito Santo.

Referindo-se ainda ao sonho da escada de Jacob a ligar a terra ao céu em que Jacob tinha posto a sua cabeça a repousar sobre uma pedra, diz S. António no sermão da festa de S. João Baptista que a cabeça está a representar o entendimento e a pedra significa a constância na fé. A escada representa (para cima) o amor a Deus e (para baixo) o amor ao próximo, significando os anjos, os justos que irão um dia subir pela escada devido ao seu amor a Deus e descer pela mesma, devido ao seu amor ao próximo, estando Deus a segurar, de cima, a escada para nós subirmos através das boas obras da caridade, ficando depois na eternidade no seio de Deus tal como S. João Evangelista a repousar no peito de Jesus na última ceia.

Arrependimento

vida contemplativa

vida activa

reconhecer a sua fraqueza

abstinência

rigor de disciplina

mortificação

confissão


Monte Tabor

S. Pedro com três cabritos de horror ao pecado (soberba, impureza, avareza mundana)

S.Tiago com 3 pães da suavidade de entendimento (humildade, castidade, amor)

S. João com o vinho da graça do Espírito Santo


P. Paulo Cardoso no seu livro Escola Mystica de Jacob para subir ao céu da perfeyção, publicado em 1721 em Lisboa, considera 27 graus na escada da santificação:

27 – meditar no retiro para crescer na santificação

26 – rezar antes e depois da confissão e da comunhão, e ainda ao anjo da guarda, Nossa Senhora, S. José, S. Francisco e S. Domingos.

25 – pensar no modo de tirar proveito das indulgências

24 – meditar sobre a leitura espiritual

23 – meditar sobre se ama verdadeiramente a Deus

22 – meditar sobre os trabalhos do dia a fazer

21 – meditar sobre a regra e as constituições

20 – meditar sobre o amor a Deus

19 – meditar sobre como conservar e aumentar a caridade fraterna

18 – meditar sobre a perseverança

17 – ter presentes bons pensamentos para arrumar com más ideias e tentações

16 – ter presentes bons pensamentos que ajudem a bem comungar

15 – meditar sobre a confissão

14 – meditar nos votos religiosos

13 – pensar e fazer por ter boa e recta intenção

12 – rezar a Liturgia das Horas

11 – fazer a comunhão espiritual

10 – ter presentes os bons pensamentos que ajudam a viver bem a missa

09 – meditar na mortificação e na penitência

08 – rezar diariamente as pequenas orações chamadas jaculatórias segundo as diversas situações do dia

07 – ter sempre consciência da presença de Deus

06 – fazer meditação (oração mental)

05 – meditar sobre a confissão e pensar nela

04 – examinar o estado de pecado da consciência

03 – aperfeiçoar o arrependimento das faltas

02 – viver a Fé todos os dias

01 – procurar saber o que diz a fé cristã.

Termina assim o P. Paulo Cardoso: "Finalmente lembremo-nos que todo o Paraíso hé a nosso favor. Os Santos rógão por nós, os Anjos sublímão e apresentam as nossas orações ao Senhor, a Santíssima Virgem nos ampara como a seus filhos, Jesus Cristo nos atende como a seus escolhidos. Consideremos fixamente que a batalha hé breve, o soccorro infallível, e o prémio sem fim".

S. Agostinho ao comentar o salmo 120(119), observa que o vale, pela sua baixeza, representa a humildade e o monte, pela sua altura, significa a grandeza. A subida para o monte da santidade é toda ela espiritual, pois é realizada na santificação do próprio coração, sendo o pecar, pelo contrário, uma descida. Mas, mais a rigor, observa S. Agostinho ainda a respeito da escada de Jacob, o pecar é principalmente uma queda e não uma descida, pois Cristo ao descer à terra para nos salvar, não pecou como também os santos, ao descerem até nós para nos ajudar.

S. Agostinho cita da Sagrada Escritura referente a Cristo: "sobre Ele repousará o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, o espírito do temor do Senhor" (Isaías 11.1). A respeito disto diz S. Agostinho: o texto começa pelo espírito de sabedoria e desce até ao de temor, tu que és discípulo aprende a subir desde o temor até à sabedoria, acrescentando pouco depois S. Agostinho: onde é que hás-de subir? É no coração. Donde é que has-de subir? É da humildade neste vale de lágrimas. Até onde é que hás-de subir? É até aquilo para o que não há palavras capazes de o dizer verdadeiramente.

Explica mais S. Agostinho: o subir está em deixar-se das coisas terrenas, caducas, temporais, não se interessar por ter grandes luxos de riqueza nem se preocupar demasiado com prejuízos mundanos, mas pelo contrário repartir até com os pobres. Estamos em terra alheia que é este mundo: morar aqui – bem compreendidas as coisas – é peregrinar para o céu que é a nossa verdadeira morada, subindo para lá.

Os 5 salmos bíblicos 120(119) até 124 (123), muito usados nas subidas a Jerusalém, são os chamados 5 salmos graduais.

O conhecido Pe. Manuel Bernardes (1644 – 1710) no seu livro Luz e Calor, dizia por seu lado que a própria alma humana era como a escada de Jacob a ligar a terra ao céu, pois a alma, pela sensibilidade, está ligada ao corpo que é a terra / pó da terra / e, pela sua espiritualidade, está ligada às coisas espirituais e divinas. Assim a alma humana em si mesma, já é uma escada de Jacob, unindo sacramentalmente o material ou corporal ao espiritual, cuja realização mais excelente é a Virgem Maria subida ao céu em corpo e alma.

O que diz Pe. Manuel Bernardes é importante. A pessoa humana, pelo seu corpo, pertence ao mundo material, o homem é mesmo o rei da criação, como se tem dito. As coisas criadas não podem louvar a Deus com voz de palavras e canto. Ora, o homem, como representante das coisas criadas, pode ser a voz de toda a criação diante de Deus. É, por assim dizer, intermediário e sacerdote material do mundo para, em nome do universo, louvar a Deus. Já dizia S. Paulo "Tudo é vosso mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1Cor 3.22-23), palavras estas que foram o tema da última e brilhante lição do cardeal Cerejeira na Universidade de Coimbra. Dizia Henri Le Saux: "o pássaro canta e nem sequer sabe que canta. O homem canta e sabe que canta. O santo canta e sabe que é Deus que canta dentro de si".

As coisas criadas louvam e falam de Deus à sua maneira como se vê no seguinte poema mas o homem, pela sua voz, coração e inteligência, é uma ponte, uma escada de Jacob entre o céu e a terra.


FALA-ME DE DEUS!

Disse à amendoeira: fala-me de Deus!

E a amendoeira floriu.

Disse ao pobre: fala-me de Deus!

E o pobre ofereceu-me a sua casa.

Disse ao sonho: fala-me de Deus!

E o sonho fez-se realidade.

Disse à casa: fala-me de Deus!

E abriu-se a porta.

Disse à natureza: fala-me de Deus!

E a natureza cobriu-se de formosura.

Disse ao amigo: fala-me de Deus!

E o amigo ensinou-me a amar.

Disse ao rouxinol: fala-me de Deus!

E o rouxinol pôs-se a cantar.

Disse a um guerreiro: fala-me de Deus!

E o guerreiro depôs as armas.

Disse à minha mãe: fala-me de Deus!

E a minha mãe deu-me um beijo na fronte.

Disse ao inimigo: fala-me de Deus!

E o inimigo estendeu-me a mão.

Disse à voz: fala-me de Deus!

E a voz não encontrou palavras.

Disse à Bíblia: fala-me de Deus!

E a Bíblia cansou-se de tanto falar.

Disse a Jesus: fala-me de Deus!

E Jesus ensinou-me o Pai Nosso.

Disse temeroso ao sol poente: fala-me de Deus!

E o sol ocultou-se sem nada dizer.

Mas, no dia seguinte, ao amanhecer,

quando abri a janela, ele voltou a sorrir-me.

Poema de: Miguel Estradé ("À Descoberta")

Como observam D. Columba Marmion e Raniero Cantalamessa, o Natal é também outra escada de Jacob. Realmente Deus, através de Jesus, desce à terra pela escada, por intermédio da sua Incarnação, conhecida visivelmente na gruta de Belém, a fim de nós, pela redenção de Cristo Salvador, podermos subir a escada até Deus. Pela criação viemos ao mundo e éramos seres humanos simplesmente; agora pela redenção passamos a ser mais alguma coisa, isto é, cristãos. Antes não passávamos de criaturas de Deus; agora, pela salvação do baptismo e vida cristã, passamos a ser ainda filhos de Deus. Pela criação viemos de Deus, descendo para o mundo, sem qualquer merecimento da nossa parte, como é evidente, pois nem sequer existíamos. Agora, com a Redenção, ao subirmos para mais que é sermos ainda filhos de Deus ou cristãos, não tínhamos qualquer merecimento mas, o que é ainda pior, até éramos indignos disso, pois além de o não merecermos, até estávamos pior, devido ao pecado, mas, apesar disso, até estávamos a subir para melhor, regressando pela escada, até Deus. A Redenção não só restaurou a criação mas ainda a aperfeiçoou. Eis o resumo de tudo isto no seguinte quadro:

DEUS no CÉU

Criação

(saída ou descida do poder de Deus)

Criaturas

Seres humanos

Sem merecimentos

Conservados na vida pelo poder de Deus

Os anjos acompanharam Cristo em Belém na descida de Jesus à terra e cantaram "Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra"

NATAL NA TERRA

(encontro: Deus connosco)

Redenção (Salvação)

(regresso ou subida pela graça de Deus)

filhos de Deus

cristãos

indignos pelo pecado

aperfeiçoados pelo Espírito Santo

Os anjos acompanham Cristo, na subida ao céu na sua Ascenção e mandam os Apóstolos (que passam a ir para o cenáculo e depois a ir anunciar a BOA NOVA)