A
nossa convivência consciente ou ambiente de oração com os anjos
que nos rodeiam está tantas vezes enfraquecida ou até apagada,
pois, à partida, não é fácil darmos pela sua presença, por serem
espírito invisíveis.
Por
outro lado, esse pouco ou até nenhum aproveitamento resulta de
termos um modo de vida cheio de dispersões e distracções,
diversões e outras banalidades e inutilidades, em suma, uma vida
fácil e agradável, que não permite uma escuta profunda da vida
angélica. Uma vida nossa toda espectacular e vistosa, cheia de
superficialidade e de conversas simplesmente mundanas sem atingir as
profundezas espirituais, também nos esconde o ambiente espiritual e
angélico. Ao mesmo resultado nos leva uma vida de pressas,
velocidade, barulho e agitação no género de praça pública, tão
notada nestes tempos da ditadura do relógio e horários a cumprir.
Somos uma Marta sempre agitada e nunca uma Maria contemplativa, como
diz o Evangelho (Lc 10.38-42). Naturalmente, uma vida de casca e de
superficialidades leva a pessoa a saltitar de novidade em novidade,
mesmo religiosa, sem aprofundar nada a sério, neste vaivém de
inconstância a toda a hora, sem chegar a dedicar-se verdadeiramente
a nada.
Se
com todas estas modalidades referidas o mundo exterior nos esconde o
ambiente angélico e divino, também o nosso mundo interior ou
psicológico nos pode levar ao mesmo resultado. Assim a mania das
grandezas e vaidade, mesmo religiosa, o gosto de brilhar pelo
espectacular e de dar nas vistas ou de se fazer conhecer através da
propaganda e publicidade como acontece em certos testemunhos
religiosos artificiais, tudo isso não passa de formas refinadas ou
inconscientes de orgulho, em que a pessoa está a afirmar-se e a
mostrar-se, ficando Deus quase ou mesmo esquecido, quando convinha
Ele crescer e nós diminuir pela humildade como fazia João Baptista.
Mas
o pior é a ligação da pessoa a falsos deuses ou ídolos que lhe
absorvem o melhor e mais importante da sua vida, ficando o ambiente
espiritual e angélico na prática todo abandonado e esquecido. São
variados os falsos deuses, tornados o tudo da vida das pessoas:
coisas belas e brilhantes a que se sacrifica a vida, luxo exagerado e
de vaidade que mata a atenção a necessidade de maior valor, modas a
que se sacrifica a dignidade e a honra, pretenções orgulhosas em
que a pessoa se faz deus de si e de todos, formas exageradas na
oração que até parecem pedir uma canonização, canseiras
sacrificadas por coisas de pouco ou nenhum valor. Se outrora o rei
Nabuconodosor, ao bendizer ao Deus de Israel por ter mandado os seus
anjos a libertar os 3 jovens (Daniel 3,95), deixou os seus falsos
deuses para se converter ao verdadeiro Deus, também a mesma atitude
devemos nós tomar, deixando de prestar culto aos ídolos ou falsos
deuses da nossa vida. O arcanjo S. Miguel, como verdadeiro lutador de
Deus como diz a Sagrada Escritura (Judas 9, Apoc. 12.7-9) é o nosso
melhor guia no desapego dos nossos falsos deuses. Não devemos
procurar nas coisas mortas dos falsos deuses a nossa felicidade mas
sim na pessoa viva, ressuscitada, de Jesus, como o anjo disse às
santas mulheres (Luc, 24.4-9). Não troquemos, pois, o Deus vivo pela
ambição do dinheiro, pelo orgulho do poder pessoal, pelo brilho de
uma carreira e de qualquer outra coisa que, sendo de valor relativo,
nós fazemos ser de valor absoluto ou divino.