
O homem deve, não só retirar-se do estado de pecado mortal, quando tiver a desgraça de cair nele, mas também deve encher-se de zêlo pela sua salvação eterna e tomar precauções mais sérias. Além de sair a toda a pressa do caminho do inferno, é preciso que se esforce por não tornar a trilhá-lo. Deve, a todo o custo, evitar as ocasiões do pecado, sobretudo aquelas cujo perigo lhe é manifesto.
Um cristão, um homem que tem senso comum sacrifica tudo, afronta tudo e suporta tudo para escapar ao fogo do inferno. Deus disse: "Se a vossa mão direita, se o vosso pé, se o vosso olho, se o que tendes de mais caro no mundo é para vós uma ocasião de pecado, arrancai-o e atirai-o para longe de vós sem hesitar; vale mais entrar, sob qualquer condição, no reino de Deus e na vida eterna, do que ser lançado no abismo de fogo, no fogo eterno, onde os remorsos não acabam nem o fogo se extingue."
Não nos iludamos a este respeito. As ilusões são o "movimento de rodeio" pelo qual o inimigo da nossa pobre alma procura surpreendê-la, quando um ataque de frente não lhe oferece garantias suficientes. Quanto estas ilusões são pérfidas, sutis, múltiplas e frequentes!
Formam-se de tudo, mas particularmente do egoismo, com os seus frios cálculos e requintes; de toda a sorte de rebeliões do espírito contra a fé, contra a completa submissão devida à autoridade da Santa Sé e da Igreja; das pretendidas necessidades de saúde ou de costume, que fazem escorregar insensivelmente na lama da impureza; dos usos e conveniências do mundo no meio do qual se vive, e que arrastam tão facilmente para o turbilhão do prazer, da vaidade, do esquecimento de Deus e da negligência da vida cristã; enfim, da cegueira da cobiça, que impele tanta gente a roubar sob o pretexto de necessidades de comércio, de costume geral nos negócios, de sábia previdência para o futuro dos seus, etc.
A vida religiosa não basta para preservar-nos das ilusões. Sabe-se que no inferno há religiosos, espero qne sejam poucos, mas há-os. E como chegaram lá? Pelo caminho fatal das ilusões. Ilusões na obediência, ilusões na piedade, ilusões na pobreza, na castidade, na mortificação, ilusões no uso da ciência; que digo? É tão largo o caminho das ilusões!
— Citarei, a este respeito, apenas um exemplo, tirado da vida de S. Francisco de Assis.
Entre os Provinciais da Ordem nascente dos Frades Menores havia um de nome Fr. João de Strachia, cuja paixão para a ciência ameaçava afastar os seus religiosos da simplicidade e da santidade de sua vocação. S. Francisco advertiu-o várias vezes, mas sempre em vão. Temendo justamente a funesta influência que exercia este Provincial, S. Francisco depô-lo em pleno Capitólio, declarando que Nosso Senhor lhe havia revelado que era preciso tratá-lo com rigor, porque o orgulho deste homem atraíra sobre ele a maldição divina.
Bem depressa o futuro o mostrou. O desgraçado morreu no meio do mais horrível desespero e gritando: "Estou condenado e maldito para sempre!" Terríveis circunstâncias, que acompanharam a sua morte confirmaram esta sentença.