O que todos os povos tem sempre acreditado em todos os tempos, constitui o que se chama uma verdade de senso comum, ou, se assim quiserdes dizer, uma verdade de sentimento comum, universal.

Aquele que não quisesse admitir uma destas grandes verdades universais, não teria, como muito bem se diz, senso comum.

Com efeito, só um insensato poderá imaginar que pode ter razão contra todo o mundo. Ora, em todos os tempos, desde o princípio do mundo até aos nossos dias, todos os povos tem acreditado no inferno.

Debaixo dum ou doutro nome, de formas mais ou menos, alteradas, tem recebido, conservado e proclamado a crença em castigos terríveis e eternos, em que o fogo aparece sempre, como punição dos maus depois da sua morte. É este um fato certo, e que tem sido tão claramente estabelecido pelos nossos grandes filósofos cristãos, quo seria supérfluo, por assim dizer, darnos ao trabalho de prová-lo.

Desde o princípio do mundo acha-se a existência dum inferno eterno de fogo consignada em termos bem claros nos mais antigos dos livros conhecidos, que são os de Moisés. Não os cito aqui, notai bem, senão sob o ponto de vista puramente histórico. O nome de inferno acha-se aí com todas as suas letras.

No Deuteronômio o Senhor diz pela boca de Moisés: "O fogo acendeu-se na minha cólera, e os seus ardores penetrarão até as profundezas do inferno (et ardebit usque ad inferni novissima)." No livro de Jó, igualmente escrito por Moisés, segundo afirmam os maiores sábios, os ímpios, cuja vida é cheia de gozos, e que dizem a Deus: "Não temos necessidade de vós, nem queremos a vossa lei; de que vale servir-vos e orar?", estes ímpios "caem num instante no inferno (in puncto ad inferna descendunt)."

Jó chama ao inferno "a região das trevas, a região envolvida nas sombras da morte, a região da desgraça e das trevas, onde não há ordem alguma, mas reina o horror eterno (sed sempiternus horror inhabitat)." Eis aqui testemunhos certos, mui respeitáveis, que remontam á origem primitiva da história.

Mil anos antes da era cristã, nesse tempo em que ainda não existia a história grega, nem romana, Davi e Salomão falam frequentemente do inferno, como duma grande verdade de tal modo conhecida e reconhecida de todos, que não há mesmo necessidade de a demonstrar. No livro dos Salmos, Davi diz, entre outras coisas, falando dos pecadores e que eles serão lançados no inferno (convertantur peccatores in infernum). Que os ímpios serão confundidos e precipitados no inferno (et deducantur in infernum.)" Noutra parte fala das "dores do inferno (dolores inferni)." Salomão não é menos formal. Ao referir os desígnios dos ímpios, que querem seduzir e perder o justo, atribuindo-lhes estas palavras: "Devoremo-lo vivo, como faz o inferno (sicut infernus)." E naquela famosa passagem do livro da Sabedoria, em que descreve tão admiravelmente a desesperação dos condenados, acrescenta: "Eis o que dizem no inferno (in inferno) aqueles que pecaram; porque a esperança do ímpio desvanece-se como a fumaça que o vento leva."

Em outro de seus livros, chamado o Eclesiástico, diz ainda: "À multidão dos ímpios é como um embrulho de estopa, e o seu último fim é a chama de fogo (flamma ignis); são os infernos, as trevas e as penas (et in fine illorum inferi, et tenebrae, et paenae)."

Dois séculos depois, mais de oitocentos anos antes de Cristo, o grande profeta Isaías dizia: "Se existe Inferno— Como caíste do alto dos céus, ó Lúcifer? tu, que dizias em teu coração: subirei até a altura do céu e serei semelhante ao Altíssimo", eis-te precipitado no inferno, no fundo do abismo (ad infernum detraheris, in profundum laci)." Numa outra passagem de suas profecias, Isaías fala do fogo eterno do inferno. "Os pecadores, diz ele, ficam aterrados. Qual dentre vós poderá habitar com o fogo devorador (cum igne devorante) e com as chamas eternas (cum ardoribus sempiternis)?" O profeta Daniel, que viveu duzentos anos depois de Isaías, diz, falando da ressurreição e do Juízo final: "E a multidão dos que dormem no pó despertarão, uns para a vida eterna, outros para um opróbrio que nunca terá fim." O mesmo testemunho foi dado por parte dos outros profetas até ao precursor do "Messias, S. João Batista, que também falava ao povo de Jerusalém do fogo eterno do inferno, como de uma verdade conhecida por todos, e de que jamais ninguém duvidou. "Eis que Cristo chega, exclama ele. Padejará o seu grão, recolherá o trigo (os escolhidos) nos seus celeiros; quanto à palha (os pecadores), lança-la-á no fogo que nunca se apaga (in igne inextinguibili)."

Tal é o Tártaro dos gregos e dos latinos, "Os ímpios que desprezaram as leis santas, são precipitados no Tártaro, para nunca saírem dele e para sofrerem aí tormentos horríveis e eternos", diz Sócrates, citado por Platão, seu discípulo.

E Platão diz: "Deve-se dar credito às tradições antigas e sagradas, que ensinam que depois desta vida a alma será julgada e punida severamente, se não viveu como devia." Aristóteles, Cícero e Sêneca falam destas mesmas tradições, que se perdem na noite dos tempos.

Homero e Virgílio revestiram-as com colorido de suas imortais poesias. Quem não leu ainda a narração da descida de Enéas aos infernos, onde, sob o nome de Tártaro, de Platão, etc., descobrimos as grandes verdades primitivas, desfiguradas mas conservadas pelo paganismo? Os suplícios dos malvados aí são eternos, e um desses malvados nos é pintado como "fixado eternamente no inferno." Esta crença universal, incontestável e incontestada foi também aceita e reconhecida pelo primeiro filósofo cético, Bayle. Seu colega no voltaireanismo e na impiedade, o inglês Bolinzbroke. declarou-a com igual franqueza. Diz formalmente: "A doutrina dum estado futuro de recompensas e de castigos, parece que se perde nas trevas da antiguidade: precede tudo o que sabemos de certo.

Logo que começamos a desenrolar o caos da história antiga, achamos esta crença, da maneira mais sólida, no espírito das primeiras nações que conhecemos." Encontra-se vestígios dela entre as superstições informes dos selvagens da América, da África e da Oceania. O paganismo da Índia e da Pérsia, guarda dela vestígios bem notáveis, e, enfim, o maometismo conta o inferno no número dos seus dogmas.

No seio do Cristianismo é escusado dizer que o dogma do inferno é claramente ensinado como uma das grandes verdades fundamentais que servem de base ao edifício da Religião. Até os protestantes, que tudo tem atacado com a sua louca doutrina do livre exame, não ousaram tocar no dogma do inferno. Coisa estranha, inexplicável!

No meio de tantas ruínas, Lutero, Calvino e os outros corifeus da Reforma tiveram de deixar de pé esta terrível verdade, que deveria entretanto ser-lhes tão importuna!Meus filhos, evitai o inferno!

Logo, todos os povos em todos os tempos conheceram e reconheceram a existência do inferno. Portanto, este dogma terrível faz parte do tesouro das grandes verdades universais que constituem a luz da humanidade. Assim, não é possível a um homem sensato pô-la em dúvida dizendo, na loucura duma orgulhosa ignorância: Não há inferno! Logo, o inferno existe.

Há inferno: o inferno não foi nem podia ser inventado

Se, o que é impossível, se desse crédito àquela estranha invenção; se, por uma impossibilidade ainda mais evidente, todos os povos, subjugados pela palavra do sobredito filósofo, chegassem a crer no inferno, seria este um grande acontecimento. Ora dizei-me: o nome do inventor, o século, o país onde viveu poderiam deixar de ser consignados na história? Não. Ora, há porventura algum homem assinalado como tendo introduzido no mundo esta doutrina terrível, tão contrária às paixões às mais enraizadas do espírito humano, do coração e dos sentidos? Não. Logo, o inferno não foi inventado.

E não foi inventado, porque não podia sê-lo, A eternidade das penas do inferno é um dogma que a razão não pode compreender; pode conhecê-lo, mas não compreendê-lo porque é superior à razão.

Como quereis, pois, que o homem pudesse inventar uma coisa que não é capaz de compreender?

É certo que o inferno, inferno eterno, não pode ser compreendido pela razão; e a razão insurge-se contra ele, quando não é alumiada e ilustrada pelas luzes sobrenaturais da fé. Como veremos mais adiante, a razão qualifica de injustiça a justiça divina porque pune com penas eternas o pecador impenitente e nega a possibilidade de tais tormentos.

O dogma do inferno é o que se chama "uma verdade inata", isto é, uma dessas luzes de origem divina que brilha em nós, mau grado nosso; que está no íntimo da nossa consciência, gravada nas pHá inferno: Deus revelou-nos a existência delerofundezas da alma como um diamante negro, que brilha com resplendor sombrio.

Ninguém pode arrancá-lo da alma, porque foi Deus que o pôs nela. Pode-se cobrir este diamante e o seu brilho sombrio; pode-se afastar dele a vista e esquecê-lo por algum tempo, pode-se negá-lo por palavras; mas, embora se não queira, crê-se nele, e a consciência não cessa de proclamá-lo.

Os ímpios que zombam do inferno, tem interiormente muito medo dele. Os que dizem que lhes parece que não há inferno, mentem a si mesmos e mentem aos outros.

É um desejo ímpio do coração, antes que uma negação razoável do espírito.

No último século um destes insolentes escrevia a Voltaire que tinha descoberto a prova metafísica da não existência do inferno, "Sois muito feliz, respondeu-lhe o velho patriarca dos incrédulos; eu estou muito longe disso."

Não, o homem não inventou o inferno.

Não o inventou, nem podia inventá-lo. O dogma do inferno eterno de fogo remonta até Deus. Faz parte da grande revelação primitiva, que é a base da Religião e da vida moral do gênero humano.

Logo, existe inferno.

Há inferno: Deus revelou-nos a existência dele

Jesus Cristo confirmou solenemente esta revelação, e quatorze vezes no Evangelho nos fala do inferno. Não diremos aqui todas as suas palavras, para não as repetirmos. Não vos esqueçais, caro leitor, de que é Deus que fala, e que disse: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar".

Algum tempo depois da sua admirável transfiguração no monte Tabor, Jesus dizia as seus discípulos e à multidão que o seguia:"Se vossa mão (isto é o que tendes de mais precioso) é para vós ocasião de pecado, cortai-a: vale mais entrar na outra vida com uma só mão, do que com ambas ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o verme do remorso não morre e o fogo não se extinguirá jamais.

Se vosso pé ou vosso olho é para vós ocasião de pecado, cortai-o, arrancai-o e lançai-o para longe de vós: vale mais entrar na vida eterna com um pé ou com um só olho, do que ser lançado com os vossos dois pés ou com ambos os olhos na prisão do fogo eterno, (in gehennam ignis inextinguibilis), onde o remorso não cessa e o fogo não se apaga. (et ignis non extinguitur)".

Falando do que acontecerá no fim do mundo, diz: "Então o Filho do homem enviará os seus Anjos, que agarrarão os que tiverem praticado o mal, e os arrojarão na fornalha do fogo (in caminum ignis), onde haverá pranto e ranger de dentes. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça".

Quando o Filho de Deus predisse o Juízo final, no vigésimo quinto capítulo do Evangelho de S. Mateus, fez nos conhecer de antemão os próprios termos da sentença que há de pronunciar contra os réprobos: "Retirai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (discedito au me, maledicti in ignem aeternum)". E acrescentou: "Estes irão para o suplício eterno (in supplicium aeternum)". Pergunto-vos: há porventura alguma coisa mais explícita?

Os apóstolos, encarregados pelo Salvador de desenvolverem sua doutrina e completarem suas revelações, falam-nos do inferno e do suas chamas eternas duma maneira não menos inteligível. Para não citar senão algumas do suas palavras, lembremo-nos do que disse S. Paulo aos cristãos de Tessalônica, na sua pregação sobre o Juízo final, que o Filho de Deus "tirará vingança, na chama do fogo (in flamma ignis"), dos ímpios que não tem querido obedecer a Deus e que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; terão de sofrer penas eternas na morte, longe da face do Senhor (paenas dabunt in interit aeternas)".

O apóstolo S. Pedro diz que os pecadores terão parte no castigo dos maus anjos que o Senhor precipitou nas profundezas do inferno, nos suplícios do Tártaro (rudentideun inferai detractoe in Tartarum tradidit ads)". Chama-os "filhos da maldição, (maledictiones filius), aos quais estão reservados os horrores das trevas".

S. João fala-nos também do inferno e de seu fogo eterno. A respeito do Anticristo e de seu falso profeta, diz: "Serão lançados vivos no abismo ardente de fogo e de enxofre (in stagnum ignis ardentis sulphoro), para aí serem atormentados de dia e de noite por todos os séculos dos séculos (crusciabuntur die ac nocte in saecula saecula)Há inferno: Deus revelou-nos a existência dele.

Emfim, o Apóstolo S. Judas fala-nos do inferno, mostrando-nos os demônios e os réprobos "presos por toda a eternidade no meio das trevas e sofrendo as penas do fogo eterno (ignis aetemni paenam sustinentes)".

E em todo o curso de suas epístolas inspiradas insistem os apóstolos continuamente no temor dos juízos de Deus e nos castigos eternos que aguardam os pecadores impenitentes. E em todo o curso de suas Epístolas inspiradas insistem os apóstolos continuamente no temor dos juízos de Deus e nos castigos eternos que aguardam os pecadores impenitentes. Após ensinamentos tão claros, é porventura de admirar que a Igreja nos apresente a eternidade das penas e do fogo do inferno como um dogma de fé propriamente dito?

E isto de tal modo, que aquele que ousasse negá-lo, ou somente duvidar dele, seria por esto fato herege. Portanto, a existência do inferno é um artigo de fé católica, e estamos dele tão certos, como da existência de Deus. Logo, há inferno.

Em resumo: o testemunho de todo o gênero humano e das suas mais antigas tradições, o testemunho da natureza humana, da reta razão de coração e de consciência, e, além disso, o testemunho do ensino infalível de Deus e da sua Igreja são concordes em atestar-nos com uma certeza absoluta que há inferno, inferno de fogo e de trevas, inferno eterno, para castigar os ímpios e os pecadores impenitentes. Caro leitor, poderá uma verdade ser estabelecida de maneira mais peremptória?