
— Em 1844 conheci no seminário de S. Sulpício, em Issy, perto de Paris, um professor mui distinto de ciências naturais, e cuja humildade e mortificação todos admiravam. Era o P. Pinault, que, antes de se ordenar, fôra um dos professores mais eminentes da Escola Politécnica. Depois, elevado ao sacerdócio, ensinava física e química no seminário.
Um dia, ao fazer uma experiência, o fogo ateou-se, não se sabe como, no fósforo que manipulava, e num instante sua mão ficou envolvida em chamas. Ajudado por seus discípulos, o pobre professor esforçou-se, mas em vão, por apagar o fogo que lhe devorava a carne. Em poucos minutos a mão era uma massa informe e escandescente: as unhas tinham desaparecido. Vencido pelo excesso da dor, o infeliz perdeu os sentidos.
Mergulharam-lhe a mão e o braço num balde d'água fria, para moderar a violência deste martírio. Durante o dia e a noite gritou sempre, torturado pela dor irresistível e atroz, e quando em algum intervalo podia articular algumas palavras, dizia e repetia aos três ou quatro seminaristas que lhe assistiam: "Meus filhos, evitai o inferno!" — O mesmo grito de dor e de caridade sacerdotal escapou em 1867 dos lábios, ou antes do coração de um outro padre em circunstância análoga. Perto de Pontivy, diocese de Vannes, um cura ainda novo, chamado Lourenço, lançara-se ao meio das chamas de um incêndio para salvar uma infeliz mãe de família e duas criancinhas.
Duas ou três vezes arremessou-se com uma heroica coragem e caridade para o lugar donde partiam os gritos, e teve a ventura de trazer sãos e salvos os dois pequenitos.
Mas a mãe ficava ainda, e ninguém ousava afrontar a violência das chamas, que crescia cada vez mais. Dócil à sua caridade, o P. Lourenço atirou-se outra vez ao fogo, agarrou a desventurada mãe, já presa de terror, e pô-la fora do alcance do fogo.
Mas imediatamente o telhado abateu, e o bom padre caiu no meio das chamas.
Gritou por socorro, e com grande dificuldade foi arrancado a uma morte iminente.
Mas, ah! era demasiado tarde! O bom padre estava mortalmente queimado: tinha respirado chamas, o fogo começava a queimá-lo interiormente, e inexprimíveis sofrimentos o devoravam, Em vão os seus paroquianos procuraram socorrê-lo; tudo foi inútil. As chamas interiores continuaram a queimá-lo, e, dentro em poucas horas, o mártir da caridade foi receber no céu a recompensa da sua heroica dedicação.
Também ele, durante a sua dolorosa agonia, dizia aos que o rodeavam: "Meus amigos... meus filhos... não queirais ir para o inferno!... É terrível!... E assim que se deve arder no inferno!"