— Ah! quem pode neste mundo exprimir ou mesmo conceber as grandes realidades eternas? É impossível aos padres dizer tudo, porque o seu espírito e a sua palavra curvam-se debaixo deste peso. Se se diz do céu: "Os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o espírito humano pode compreender o que Deus tem preparado para os que O amam", pode-se igualmente, com relação à Justiça infinita, dizer do inferno: "Os olhos do homem não viram, nem os ouvidos ouviram, nem seu espírito pode, nem poderá jamais conceber o que a Justiça de Deus tem preparado para os pecadores impenitentes."

"Sou atormentado cruelmente nesta chama!", gritava do fundo do inferno o mau rico do Evangelho. Para compreender o alcance desta primeira palavra do réprobo: "Sou atormentado! (Crucior!)", seria necessário poder compreender o alcance da segunda: "nesta chama (in hac flamma)."

O fogo deste mundo é imperfeito, como tudo o que existe nele, e as chamas materiais não são, apesar do seu horrível poder, mais do que um fraco símbolo das chamas eternas de que fala o Evangelho.

Seria acaso possível exprimir exatamente o horror dos tormentos que sentiria um homem lançado por alguns minutos numa fornalha ardente, no suposto de que podia ali viver? Dizei-me: seria possível? Não, certamente. O que se poderá então dizer do fogo sobrenatural do inferno, desse fogo eterno, cujos horrores não tem comparação?

Contudo, como estamos no tempo, e não na eternidade, precisamos de servir-nos das pequenas realidades deste mundo, embora fracas e imperfeitas, para elevarmo-nos um pouco às realidades invisíveis e imensas da outra vida, Devemos, pela consideração dos indizíveis tormentos que causa o fogo terrestre, temer o fogo do inferno, para não cairmos nos abismos deste fogo vingador.

O P. BUSSY E O HOMEM LIBERTINO

— Um santo missionário, que viveu no começo deste século; célebre em toda a França pelo seu zelo apostólico, pela sua eloquência e virtudes, e também pelas suas originalidades, quis um dia que certo homem libertino tocasse com o dedo no fogo.

O P. Bussy dava numa grande cidade do sul da França uma importante missão, que abalava toda a população. Era na força do inverno; aproximava-se o Natal e fazia muito frio. No quarto, onde o padre recebia os homens, havia um fogareiro com bom lume. Certo dia o padre-viu chegar um homem que particularmente lhe tinha sido recomendado por causa de suas devassidões e ditos ímpios. O P. Bussy conheceu logo que não podia fazer nada com ele.

Não obstante, disse-lhe alegremente: "Vinde cá, meu bom amigo, não tenhais medo, pois não confesso senão os que querem confessar-se. Aproximai-vos, assentai-vos nesta cadeira, e, ao passo que nos vamos aquecendo, conversemos um pouco." Abriu o fogareiro e, vendo que as brasas estavam quase reduzidas a cinzas, disse ao homem, "Antes de vos assentardes, fazei o favor de trazer-me daí uma ou duas achas." Admirado o jovem, fez entretanto o que o padre lhe pediu. "Agora haveis de mas pôr no fogareiro, lá bem para o fundo." E como ele pusesse as achas junto à porta do fogareiro, o P. Bussy agarrou-lhe no braço e levou-lho até ao fundo. O mancebo deu um grito e saltou para traz. "Ai!, gritou ele; vossa reverendíssima está maluco? Quer queimar-me! — Que tendes, meu caro amigo? replicou o padre tranquilamente. Acaso não precisais de habituar-vos? No inferno, para onde ireis, se continuardes a viver como até agora, não será somente as pontas dos dedos que vos arderão no fogo, mas todo o vosso corpo. Este pequeno fogo não é nada em comparação do outro. Vamos, vamos, meu bom amigo, coragem; é preciso habituar- vos." E quis tornar a meter-lhe o braço. O homem resistiu, como era de esperar.

Infeliz! disse-lhe então o P. Bussy, mudando de tom; refleti no que vou dizervos: quereis ir arder eternamente no inferno? Os sacrifícios que o bom Deus requer para que possais evitar tão horrível suplício, são porventura coisas dificultosas?" O homem libertino saiu pensativo. Refletiu nisto, e refletiu tão bem, que daí a pouco voltou a casa do missionário, fez uma boa confissão das suas culpas e entrou no bom caminho.

Tenho por certo que, de mil ou de dez mil homens que vivessem afastados de Deus, e por consequência trilhando o caminho do inferno, não haveria talvez um que resistisse à "prova de fogo." Nenhum, por mais tolo que fosse, aceitaria o seguinte ajuste: "Durante um ano poderás abandonar-te impunemente a todos os prazeres, gozar de todas as voluptuosidades, satisfazer os teus caprichos, com a única condição de passares um dia ou mesmo uma hora a arder no fogo." Repito: ninguém aceitaria o ajuste.

Quereis uma prova disto? Observai.

OS TRÊS FILHOS DUM VELHO USURÁRIO

— Um pai de família, que enriquecera às custas de gravíssimas injustiças, caiu perigosamente doente. Soube que a gangrena já estava nas feridas, e contudo não pôde decidir-se a restituir o que roubara, "Se restituir, dizia ele, o que hei de deixar aos meus filhos?" O pároco, homem esperto, para salvar esta pobre alma recorreu ao seguinte expediente: Disse-lhe que, se queria sarar, lhe indicava um remédio extremamente simples, mas muito caro. Que importa! Custe ele embora mil, dois mil, dez mil francos mesmo..., respondeu vivamente o velho. Em que consiste ele? — Consiste em derramar, sobre os lugares gangrenados, gordura proveniente de alguma pessoa viva. Para isto não é preciso muito: basta achar alguém que, por dez mil francos, consinta em deixar queimar uma das mãos durante um quarto de hora.

— Ah! disse o pobre homem suspirando; temo não encontrar quem aceite o contrato. — Tendes um meio, disse tranquilamente o pároco: chamai vosso filho mais velho, pois ele ama-vos e deve ser o vosso herdeiro. Dizei-lhe: "Meu caro filho: podes salvar a vida de teu velho pai, se consentires em deixar queimar uma das tuas mãos, só durante um escasso quarto de hora." Se ele recusar, fazei igual proposta ao segundo, prometendo-lhe que será vosso único herdeiro. Se recusar, o terceiro não deixará, de aceitar."

Teve razão, e os seus três filhos também a tiveram. Deixar queimar uma das mãos durante um quarto de hora, mesmo para salvar a vida a seu pai, é sacrifício superior às forças humanas, Ora, como já disse-mos, o que é isso, comparado com o fogo eterno?