— Pergunta-se muitas vezes o que é o fogo do inferno e qual é a sua natureza: se é um fogo material, ou se é puramente espiritual. Muitos inclinam-se para esta opinião, por ser a que os aterra menos. Porém, não concorda com eles S. Tomás nem a teologia católica.

Como já dissemos, a fé ensina que o fogo do inferno é um fogo real e verdadeiro, um fogo

inextinguível e eterno, que queima sem consumir, e penetra os espíritos e os corpos.

Isto foi revelado por Deus, e tem sido ensinado como artigo de fé pela Igreja Católica. Negá-lo, seria não somente um erro, mas uma impiedade e heresia propriamente ditas.

Quereis saber qual é a natureza do fogo que atormenta os condenados no inferno?

Se é um fogo corporal, se pertence à mesma espécie do fogo terrestre? É o príncipe da Teologia, S. Tomás de Aquino, que vai responder-vos, com a clareza e profunda erudição que lhe são peculiares.

Observa primeiro que os filósofos pagãos, não crendo na ressurreição da carne e admitindo entretanto um fogo vingador na vida futura, deviam ensinar, e com efeito ensinavam, que este fogo é espiritual e da mesma natureza que as almas.

O moderno racionalismo, que pretende invadir todas as inteligências, e que diminui, quanto pode, as verdades da fé, faz inclinar para este sentimento um grande número de espíritos, pouco instruídos nos ensinamentos católicos.

Mas o grande Doutor, depois de ter exposto este sentimento, declara formalmente que "o fogo do inferno é corporal." E a razão em que se funda é peremptória: "Porque depois da ressurreição os réprobos serão precipitados no inferno, e como a alma vai acompanhada do corpo, e o corpo não pode sofrer senão uma pena corporal, segue-se que o fogo do inferno deve ser corporal. Ao corpo não se pode aplicar outra pena além da corporal." S. Tomás apoia o seu ensino no de S. Gregorio Magno e de S. Agostinho, que, em termos idênticos, dizem o mesmo.

"Todavia pode dizer-se, continua o grande Doutor, que este fogo corporal tem alguma coisa de espiritual, não na sua substância, mas sim nos seus efeitos, porque, punindo os corpos, não os consome, nem os destrói, nem os reduz a cinzas. Além disto, exerce a sua ação vingadora também nas almas." Deste modo, o fogo do inferno distingue-se do fogo material, que queima e consome os corpos. O fogo do inferno, ainda que é corporal, atormenta as almas.

— Alguém perguntará, talvez, como é que o fogo do inferno pode atormentar as almas que até ao dia da ressurreição e do Juízo final estão separadas dos corpos?

Cumpre responder, antes de tudo, que no terrível mistério das penas do inferno uma coisa é conhecer claramente a verdade do que é, e outra coisa é compreendê-la. Sabemos de uma maneira positiva e absoluta, por meio do ensino infalível da Igreja, que — imediatamente depois da sua morte, os condenados caem no inferno, no fogo do inferno. Ora isto não pode suceder senão — às suas almas, pois que, até a ressurreição, os corpos ficam confiados à terra, onde foram sepultados.

Apenas separada do corpo, a alma do réprobo acha-se na condição dos demônios, relativamente à ação misteriosa do fogo do inferno. Com efeito, embora os demônios não tenham corpos, sofrem os tormentos do fogo, no qual serão lançados um dia os corpos dos condenados, como o indica claramente a sentença do Filho de Deus contra os réprobos; "Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos." Ora este fogo é corporal, porque de outro modo não atormentaria os corpos dos condenados. Portanto, a alma do réprobo, embora separada do corpo, é atormentada por um fogo corporal, Eis o que sabemos e o que é certo.

O que não sabemos é o como. Mas para crer não temos necessidade de sabê-lo, porque as verdades reveladas por Deus tem por fim esclarecer o nosso espírito e mantê-lo na dependência e submissão. Pela fé estamos certos da realidade do fato, e basta-nos ver que ele não é impossível.

O CAPITÃO AJUDANTE-MÓR DE SAINT-CYR

— A este respeito permiti-me, caro leitor, que vos conte um fato muito curioso que, nos últimos anos da Restauração, se deu na Escola militar de Saint-Cyr. O capelão da Escola era então um eclesiástico muito espirituoso e de talento, por nome Rigolot. Dava um retiro espiritual aos jovens da Escola, que todas as noites se reuniam na capela antes de se irem deitar.

Uma noite, em que o digno capelão falou admiravelmente do inferno, depois de concluída a conferência retirou-se com um castiçal na mão para o seu quarto, que era situado num corredor reservado aos oficiais. No momento em que abria a porta foi chamado por alguém, que subia a escadaria em direção a ele. Era um velho capitão, de bigode grisalho, e na aparência pouco fino.

"Esperai, sr. capelão, disse ele, com voz um tanto irônica. Fizestes um bom sermão sobre o inferno. Somente vos esquecestes de dizer se no fogo do inferno o condenado é assado, queimado ou cozido. Sois capaz de mo dizer?" O capelão, compreendendo a intenção dele, olhou-o atentamente, e, aproximando o castiçal à cara do velho oficial, respondeu tranquilamente: "Vós o vereis, capitão!" E fechou a porta, não podendo deixar de rir-se da confusão e perturbação em que deixou o pobre capitão, corrido da sua tolice.

Não tornou a pensar nisto; mas desde então notou que o capitão se afastava dele o mais que podia.

Sobreveio a revolução de julho. Foram suprimidas as capelanias militares, e por isso a de Saint-Cyr acabou. O P. Rigolot foi nomeado pelo arcebispo de Paris para outro lugar não menos honroso.

Eram já passados vinte anos, quando o bom padre, ao achar-se uma tarde em um salão onde estava reunida muita gente, viu aproximar-se-lhe um velho de bigode branco, que lhe perguntou se ele era o rev. P. Rigolot, outrora capelão de Saint-Cyr. Recebida a resposta afirmativa, disse-lhe, comovido, o velho militar: "Sr. capelão, permiti-me que vos dê um aperto de mão para vos exprimir o meu reconhecimento: salvastes-me! — Eu?! Como? — Oh! não me conheceis? Lembrais-vos de certo capitão instrutor da Escola, que uma noite, ao acabardes de pregar um sermão sobre o inferno, vos fez uma pergunta ridícula, à qual respondestes, aproximando o castiçal à cara dele; "Vós o veis, capitão!?" Pois este capitão sou eu. Sabei que desde então tenho tido sempre a resposta que me destes, assim como o pensamento de que iria arder no inferno. Lutei dez anos contra este pensamento para mim importuno; por fim rendi-me. Confessei-me, e tornei-me cristão, cristão à militar, isto é, completo. É a vós que devo esta felicidade, e foi com grande contentamento meu que hoje vos encontrei para poder-vos dizer isto."

Caro leitor, se virdes alguém que, querendo zombar, vos faça perguntas ridículas sobre o inferno e o fogo do inferno, respondei-lhe como o P. Rigolot: "Vós o vereis, meu bom amigo; vós o vereis." Prometo-vos que não terá a tentação de ir vê-lo.

A MÃO QUEIMADA DE FOLIGNO

— É certo que quase todas as vezes em que, por permissão de Deus, alguma alma réproba ou (já que estamos falando do fogo da outra vida) alguma alma do Purgatório vem a este mundo e deixa algum sinal visível, este é o do fogo. Certamente ainda não vos esquecestes do que dissemos acerca da terrível aparição de Londres — do pulso da dama do bracelete e do tapete queimado. Em abril do ano em que isto escrevi, vi e toquei em Foligno, perto de Assis (Itália), num desses espantosos sinais de fogo, que atestam a verdade do que dissemos, a saber: que o fogo da outra vida é um fogo real.

A 4 de novembro de 1359 faleceu de uma apoplexia fulminante, no convento das Terceiras Franciscanas de Foligno, uma boa religiosa chamada Tereza Margarida Gesta, que durante muitos anos fôra mestra de noviças, e ao mesmo tempo tinha a seu cargo a humilde rouparia do mosteiro. Nascera na Córsega, em Bastia, no ano de 1797, e entrara no convento em fevereiro de 1826. É escusado dizer que se tinha preparado dignamente para a morte.

Doze dias depois, a 17 de novembro, uma Irmã chamada Felícia, que a tinha ajudado no cargo, e que depois da sua morte ficou com ele, subia à rouparia e ia a entrar, quando ouviu gemidos que pareciam vir do interior do quarto. Admirada, apressou-se a abrir a porta; não estava ali ninguém.

Daí a pouco ouviu novos gemidos, tão penetrantes que, apesar da sua coragem, sentiu-se cortada de medo. "Jesus, Maria! exclamou ela; que é isto?" Ainda não tinha acabado de dizer estas palavras, quando ouviu uma voz que gemia, acompanhada deste doloroso suspiro: "Oh! meu Deus! quanto estou sofrendo! (Oh, Dio! che peno tanto!)" A Irmã, estupefata, reconheceu logo a voz da pobre Soror Tereza. Revestiu-se de coragem e perguntou-lhe: "Porque? — Por causa da pobreza, respondeu Soror Tereza. — Como! replicou a Irmã. Vós, que ereis tão pobre!... — Sofro, não porque transgredisse em mim este preceito, mas porque dei às religiosas muita liberdade nesta matéria. E tu toma cautela." No mesmo instante o quarto encheu-se duma espessa fumaça, e a sombra de Soror Tereza apareceu, dirigindo-se para a porta e passando ligeira a distância que a separava.

Apenas chegou à porta, gritou com força: "Eis um testemunho da misericórdia de Deus!" Dizendo isto, tocou no caixilho mais elevado da porta, deixando gravado no pau queimado o sinal perfeitíssimo da sua mão direita. Em seguida desapareceu.

A pobre Irmã Ana Felícia ficou aterradíssima. Agitada, começou a gritar e a pedir socorro. Acudiu uma das suas companheiras, depois outra, e em seguida toda a, comunidade. Todas lhe acudiram, e admiraram-se de sentir um cheiro de madeira queimada. Examinaram, observaram, até que viram em cima da, porta o terrível sinal.

Reconheceram logo a forma da mão de Soror Tereza, que era muito pequena. Espantadas, saíram, foram para o côro, puseram-se em oração e, esquecendo as necessidades do corpo, passaram a noite a orar, a soluçar e a fazer penitências pela pobre defunta, e no dia seguinte comungaram por alma dela.

A noticia espalhou-se fora do convento.

Os frades menores, os padres amigos do mosteiro e todas as comunidades da cidade juntaram as suas preces e súplicas às das Franciscanas. Este impulso de caridade tinha alguma coisa de sobrenatural e de insólito.

Entretanto a irmã Ana Felícia, ainda agitada por tantas comoções, recebeu ordem formal de ir descansar. Obedeceu, bem decidida a fazer desaparecer a todo o custo, no dia seguinte, o sinal carbonizado que lançara o espanto em Foligno, Mas Soror Tereza Margarida lhe apareceu de novo. "Sei o que queres fazer, disse-lhe ela em tom severo: queres tirar o sinal que deixei. Sabe que não tens poder para o fazer desaparecer, pois que este prodígio foi ordenado por Deus para ensino e correção de todos. Pelo seu justo e terrível juízo fui condenada a sofrer durante quarenta anos as horrorosas chamas do Purgatório, por causa das minhas tolerâncias com algumas religiosas. Agradeço-te, bem como as tuas companheiras, tantas obras satisfatórias, que na sua bondade o Senhor se dignou aplicar exclusivamente à minha pobre alma.

"Acordou sobressaltada, e ficou na mesma postura sem poder articular uma palavra.

Ainda desta vez reconheceu perfeitamente a voz de Soror Tereza. No mesmo instante, um resplandecente globo de luz apareceu diante dela, junto da sua cama, e alumiou o quarto como o sol ao meio dia. Ouviu Soror Tereza, que, com voz alegre e triunfante, pronunciou estas palavras: "Morri numa sexta feira, dia da Paixão, e nesta sexta-feira vou entrar na glória. Sêde fortes em levar a cruz, sêde corajosas em sofrer." E ajuntando, com amor: "Adeus!... adeus!... adeus!...", desapareceu.

O Bispo de Foligno e os magistrados da cidade quiseram desde logo fazer uma averiguação canônica. No dia 23 de novembro, na presença de grande número de testemunhas, abriu-se o túmulo de Soror Tereza Margarida, e reconheceu-se que o sinal carbonizado da porta era conforme à mão da defunta. O resultado da averiguação foi um auto oficial, que estabeleceu a certeza e autenticidade perfeitas do que acabamos de referir.

A porta em que está o sinal conserva-se no convento com veneração. A Madre Abadessa, testemunha do fato, dignou-se mostrar-ma, e, repito, eu e os meus companheiros de viagem vimos e tocamos na madeira queimada, que atesta de uma maneira bem clara que as almas que, temporária ou eternamente, sofrem na outra vida a pena do fogo, são penetradas e queimadas por este fogo ardente. Quando, devido a razões que só Deus conhece, lhes é permitido aparecer neste mundo, aquilo em que elas tocam fica com o vestígio do fogo que as atormenta. O fogo e elas parece que são a mesma coisa, como o carvão quando é abrasado pelo fogo.

Portanto, ainda que não possamos penetrar este mistério, sabemos indubitavelmente que o fogo do inferno, embora seja corporal, exerce sua ação vingadora também sobre as almas.

Pela sua onipotência, Deus faz com que o fogo do inferno produza todos os efeitos que reclama a sua Justiça infinita. Deste modo ele penetra e atormenta os espíritos, bem como os corpos; não consome os corpos dos réprobos, mas conserva-os, segundo estas terríveis palavras do Soberano Juiz: "Na prisão do fogo que não se apaga, todos os réprobos serão salgados pelo fogo (igne salictur)." Assim como o sal penetra e conserva a carne dos animais, assim, por um efeito sobrenatural, o fogo corporal do inferno penetra os réprobos e os demônios sem os consumir.

O FOGO DO INFERNO É TENEBROSO (VISÃO DE SANTA TEREZA)

— Com a autoridade divina e infalível da sua palavra, Jesus Cristo revelou não só que o inferno é no fogo, mas também que ele é nas trevas.

No capítulo vigésimo segundo do livro de S. Mateus, Jesus dá ao inferno o nome de trevas exteriores. "Lançai-o, disse, falando do homem que se apresentara sem a veste nupcial, isto é, em estado de pecado, lançai-o nas trevas exteriores (in tenebras exteriores)." Em vários lugares do Evangelho e nas epístolas dos Apóstolos, os demônios são chamados "príncipes das trevas, poder das trevas". S. Paulo dizia aos fiéis: "Vós sois todos filhos da luz, porque nenhum de nós é filho das trevas".

As trevas do inferno são corporais como o fogo. Estas duas verdades não implicam contradição. O fogo, ou antes o calórico, que é como que a alma e a vida do fogo, é um elemento perfeitamente distinto da luz. Há, pois, no inferno trevas corporais, mas com um certo clarão que permite aos condenados ver os objetos que os atormentam.

Os escandalosos verão no fogo e na sombra, ao tênue clarão das chamas do inferno, diz S. Gregório Magno, os que foram por eles arrastados para a condenação, e esta vista será o complemento do seu suplício. O horror das trevas, que conhecemos por experiência na terra, não é comparável ao que aflige os condenados. O negro é a cor da morte, do mal e da tristeza.

Santa Tereza refere que, tendo um dia um êxtase, Nosso Senhor se dignou assegurar-lhe a salvação eterna, se continuasse a servi-lo e amá-lo como então fazia; e para aumentar em sua fiel serva o temor do pecado e dos terríveis castigos que merece, quis deixar-lhe entrever o lugar que ela ocuparia no inferno, se seguisse as suas inclinações para o mundo, para a vaidade e para o prazer.

"Estava um dia em oração, diz ela, quando me achei num instante, sem saber como, transportada ao inferno em corpo e alma. Compreendi que Deus queria fazer-me ver o lugar que os demônios me tinham preparado, e que, tendo-o merecido pelos meus pecados, cairia nele, se não mudasse de vida. Isto durou pouco tempo; mas, embora vivesse muitos anos, não me esqueceria de tão horríveis suplícios.

"A entrada deste lugar de tormentos pareceu-me semelhante a um forno extremamente baixo, escuro e apertado. O chão era uma horrível imundice, que lançava um cheiro fétido, e estava cheio de vermes venenosos. No fim elevava-se um muro, no qual havia um reduto, onde me vi encerrada. Não posso dar uma ideia dos tormentos que lá sofri, porque são incompreensíveis. Senti na minha alma um fogo cuja natureza, por falta de termos, não posso descrever, e ao mesmo tempo o meu corpo revolvia-se no meio de intoleráveis dores.

Tenho sido atormentada na minha vida por sofrimentos tão cruéis, que, segundo os médicos confessam, são os maiores que se podem sofrer neste mundo. Já vi os meus nervos contraírem-se duma maneira espantosa, quando perdi o uso dos membros; porém, tudo isto é nada em comparação das dores que então senti, e o que mais ainda me afligia, era a lembrança de que elas seriam eternas e sem alívio. Os tormentos do corpo não eram nada em comparação da agonia da alma. Estava tão aflita, angustiada, com dor tão viva e tristeza tão amarga e desesperada, que não posso descrevê-la. Se disser que a alma sofre em todos os instantes as angústias da morte, é pouco. Não, não me é possível exprimir, nem sequer dar uma ideia deste fogo interior e do desespero, que são o cúmulo de tantas dores e tormentos."

"Naquela terrível morada não há nenhuma esperança de consolação; nela respira-se um cheiro pestilencial. Tal era a minha tortura no estreito reduto aberto no muro, onde fôra encerrada. Até as paredes deste calabouço, terror da vista, me oprimiam com o seu peso. Alí tudo é escuro: não há luz, mas sim trevas da mais sombria escuridão. E entretanto, ó mistério!, não brilhando nenhuma claridade, veem-se todos os tormentos que podem afligir a vista."

"Já passaram seis anos depois desta visão, acrescenta ainda Santa Tereza, e ao escrever isto estou tão aterrada, que o meu sangue gela nas veias. No meio das aflições e das dores, lembro-me do inferno e imediatamente parece-me nada tudo o que se pode sofrer neste mundo, e até julgo que nos lastimamos sem razão."

"Desde então, tudo me parece fácil de suportar, em comparação dum só instante que tenha de passar no suplício que então sofri. Não me admiro de que, tendo lido tantos livros que tratam do inferno, estava muito longe de fazer dele uma ideia justa e de temê-lo como devia. O que pensava eu então, ó meu Deus! e como podia estar descansada num gênero de vida que me arrastava a tão horrível abismo! Ó meu adorável Mestre, sêde eternamente bendito! Mostrai-me da maneira a mais clara que o vosso amor para comigo excede infinitamente aquele com que me amo. Quantas vezes me livrastes desta negra prisão, e quantas vezes quis entrar nela contra a vossa vontade!"

"Esta visão produziu em mim uma dor indizível pelas almas que se perdem. Deu-me também os mais ardentes desejos de trabalhar na sua salvação; para arrancar uma alma a tão horríveis suplícios, eu estaria pronta a sacrificar mil vezes a vida."

A fé deve suprir em cada um de nós a visão; e o pensamento das "trevas exteriores" onde os réprobos são lançados como imundices e escórias da criação, deve fortalecer-nos nas tentações e fazer-nos verdadeiros filhos da luz!

DOUTRAS PENAS MUITO GRANDES, QUE ACOMPANHAM O SOMBRIO FOGO DO INFERNO

Além do fogo e das trevas, há no inferno outros castigos e outras espécies de sofrimentos. Assim o requer a justiça divina. Tendo os réprobos cometido o mal de muitas maneiras, e tendo cada um dos sentidos tomado parte mais ou menos nos seus pecados, e por consequência na sua condenação, é justo que, por onde pecaram mais, sejam punidos mais fortemente, segundo estas palavras da Escritura: (Cada um será punido por onde tiver pecado. É principalmente o fogo, este fogo terrível e sobrenatural de que acabamos de falar, o que serve de instrumento a estes múltiplos castigos: punirá por uma ação especial aquele sentido que tiver especialmente servido para a iniquidade; o condenado lançado no fogo e nas trevas exteriores chorará amargamente e rangerá os dentes, segundo os vícios e pecados que cometeu. "Lá haverá choros e ranger de dentes (fletus et stridor dentium)." São palavras divinas.

Estes choros dos réprobos, diz S. Tomás, são mais espirituais do que corporais; mesmo depois da ressurreição, os corpos dos réprobos, sendo verdadeiros corpos humanos com todos os seus sentidos, órgãos e propriedades essenciais, não serão suscetíveis de certos atos nem de algumas funções. As lágrimas particularmente supõem um princípio físico de secreção, o qual não existirá então.

Os seus ouvidos, abertos aos discursos impudicos, às mentiras, às calúnias, às gargalhadas da impiedade! A língua, os lábios, a boca, instrumentos de tantas sensualidades, de tantas palavras ímpias e obscenas, e tantas pragas e de tantas gulodices!

As suas mãos, que procuraram, escreveram e espalharam tantas coisas detestáveis, e que praticaram ações tão más! O seu cérebro, órgão de tantos milhões de pensamentos pecaminosos de todo o gênero!

O coração, séde da sua vontade depravada e de todos esses maus afetos que desapareceram para sempre!

Todo o seu corpo e a sua carne, para a qual viveu, e de que satisfez todos os desejos, paixões e concupiscências!

Tudo no condenado tem castigo e tormento especial, além da pena geral da condenação, da maldição divina e do fogo vingador. Que horror!

Mas não basta. S. Tomás, fundando-se nos Santos Padres, diz: "Na purificação final do mundo haverá nos elementos uma separação radical. Tudo o que for puro e nobre subsistirá no céu para glória dos bem-aventurados, e tudo o que fôr ignóbil e impuro será precipitado no inferno para tormento dos condenados. Assim, ao passo que os justos sentirão alegria à vista de todas as criaturas, os condenados acharão em todas as criaturas ocasião de novos tormentos. Isto será o cumprimento do oráculo dos Livros Santos: "O universo inteiro combaterá com o Senhor contra os insensatos, isto é, contra os réprobos."

Emfim, e para completar a exposição do lúgubre estado da alma précita, observemos ainda o que Nosso Senhor declarou na fórmula da sentença que há de pronunciar no Juízo final, a saber: que os malditos, os condenados, irão arder no inferno, "no fogo que foi preparado para o demônio e seus anjos." Nos ardentes abismos do inferno os réprobos tem pois ainda o suplício da execrável companhia de Satanás e de todos os demônios. Neste mundo sente-se algumas vezes uma espécie de alívio quando no sofrimento se vê uma pessoa amiga; mas na eternidade a associação do condenado com todos os maus anjos e com os outros réprobos agravará ainda mais o desespero, o ódio, a raiva, os sofrimentos da alma e as dores do corpo.

Eis-aqui o pouco que sabemos, pela revelação divina e pelos ensinamentos da Igreja, sobre a multiplicidade dos tormentos, que são na outra vida o castigo dos ímpios, dos blasfemadores, dos devassos, dos orgulhosos, dos hipócritas, e em geral de todos os pecadores obstinados e impenitentes.

Mas o que torna ainda mais terríveis estas penas, é a eternidade.