
A condenação é a separação total de Deus. O condenado é uma criatura total e definitivamente separada do seu Deus.
Foi Jesus Cristo, que nos mostrou a condenação como a pena primária e dominante dos réprobos. Deveis lembrar-vos dos termos da sentença que Ele pronunciará contra os réprobos no Juízo final, e de que já falamos atrás: "Retirai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos".
Notai bem: a primeira palavra da sentença do Soberano Juiz faz-nos compreender a primeira pena do inferno, que é a separação de Deus, a privação de Deus, a maldição de Deus; por outras palavras, é a condenação ou reprovação.
Ora, figurai-vos o estado daquele homem que, num momento, absoluta e totalmente, perdeu a vida, a luz, a felicidade, o amor e, enfim, o que para ele era tudo. Imaginai este vácuo súbito e absoluto no qual se abisma um ser criado para amar e possuir Aquele do qual se vê privado.
Um membro da Companhia de Jesus, P. Surin, que se tornou celebre no século décimo sétimo pelas suas virtudes, ciência e infortúnios, sentiu durante quase vinte anos as angústias deste terrível estado.
Para livrar uma pobre e santa religiosa da obsessão do demônio, que resistira a mais de três meses de exorcismos, de orações e austeridades, o caridoso padre levou o seu heroísmo a oferecer-se como vítima, se a misericórdia divina se dignasse ouvir os seus rogos e livrar aquela infeliz criatura. Foi atendido; e Nosso Senhor permitiu, para santificação do seu servo, que o demônio se apoderasse imediatamente do seu corpo e o atormentasse durante longos anos. Nada mais autêntico do que os fatos admiráveis públicos a que deu lugar a possessão do pobre P. Surin, e que seria muito longo referir aqui. Depois do seu livramento recolheu num escrito, que ainda se conserva, tudo o que sofreu naquele estado sobrenatural, em que o demônio, apoderando-se materialmente, por assim dizer, das suas faculdades e sentidos, lhe fazia sentir uma parte das suas impressões e do seu desespero de réprobo.
"Parecia-me, diz ele, que todo o meu ser e todas as potências da minha alma e o meu corpo eram impelidas com uma veemência inexprimível para o Senhor Deus; via que Ele era a minha suprema felicidade, o meu bem infinito, o único objeto da minha existência, e ao mesmo tempo sentia uma força irresistível que me arrancava de Deus e me retinha longe Dele; de sorte que, criado para viver, via-me e sentia-me privado d'Aquele que é a vida; criado para a verdade e para a luz, conhecia-me absolutamente repelido da luz e da verdade; criado para amar, vivia sem amor, privado inteiramente do amor; criado para o bem, estava sepultado no abismo do mal.
"Não posso, continua ele, comparar as angústias e os desesperos desta, inexprimível aflição, senão ao estado duma flecha vigorosamente lançada para um alvo donde a repele incessantemente uma força invencível; impelida irresistivelmente para diante, é sempre e invencivelmente repelida para traz."
Isto é apenas um pálido símbolo daquela terrível realidade, que se chama a condenação.
A condenação é necessariamente acompanhada do desespero. É a este desespero que Nosso Senhor chama no Evangelho "o verme" que rói os condenados. "Tudo isto vale mais, disse Jesus, do que ir para essa prisão de fogo onde o verme dos réprobos nunca morre (ubi vermis corum non moritur)."
O verme dos condenados ó o remorso, é o desespero. Tem o nome de verme, porque na alma pecadora e condenada nasce da corrupção do pecado, como nos cadáveres os vermes nascem da corrupção da carne. Enquanto vivemos não podemos imaginar exatamente o que são o remorso e o desespero dos condenados, pois que neste mundo, onde nada é perfeito, o mal anda sempre acompanhado com o bem, e o bem misturado com algum mal. Por mais violentos que possam ser nesta vida os desesperos e remorsos, são sempre aliviados por certas esperanças, e também pela impossibilidade de suportar o sofrimento, quando ele excede uma determinada medida. Mas na eternidade tudo é perfeito, permiti-me a expressão; o mal então é perfeito como o bem, isto é, não há alívio, nem esperança, nem possibilidade de mitigação, como adiante explicaremos. O remorso e o desespero dos condenados serão completos, irrevogáveis, sem remédio, sem sombra de alívio, sem a possibilidade de serem suavizados: são absolutos quanto é possível, porque o mal absoluto não existe.
"À vista dos bem-aventurados, diz a Sagrada Escritura, os condenados serão possuídos dum formidável terror, e aflitos gritarão, gemendo: "Ai! que nos enganamos (ergo ervravimus), e nos afastamos do verdadeiro caminho! Trilhamos as sendas da iniquidade e da perdição, desprezamos o caminho do Senhor. De que nos serviram as riquezas, e os prazeres? Tudo passou como uma sombra, e eis-nos agora perdidos e abismados na nossa perversidade." E o escritor sagrado acrescenta; "Assim dizem no inferno os pecadores condenados."
Ao desespero acrescerá o ódio, fruto também da maldição: "Retirai-vos de mim, malditos!"
E que ódio! O ódio de Deus, o ódio perfeito do Bem infinito, da Verdade mesma, do eterno Amor, da Bondade da Beleza, da Paz, da Sabedoria, da Perfeição infinita e eterna! Ódio implacável, sobrenatural, que absorve todas as potências do espírito e do coração do condenado.
O réprobo não poderia odiar o seu Deus se lhe fosse permitido, como aos bem-aventurados, contempla-o face a face, com todas as suas perfeições e indizíveis esplendores,
Mas não é assim que no inferno se vê a Deus. Os réprobos não o sentem senão nos terríveis efeitos da sua justiça, isto é, nos tormentos; por isso odeiam a Deus, como odeiam os castigos que sofrem, como odeiam a condenação e a maldição.
No século passado um padre virtuoso, ao exorcizar um possesso em Messina, perguntou ao demônio; "Quem és tu? — Sou o ser que não ama a Deus", respondeu o espírito mau. E em Paris, num outro exorcismo, perguntando o ministro de Deus ao demônio: "Onde estás?", respondeu este com furor. "Nos infernos para sempre. — E quererias ser aniquilado? — Não, afim de poder sempre odiar a Deus." O mesmo poderia dizer cada um dos condenados: odeiam eternamente Aquele que deviam amar eternamente.
"Mas, diz muita gente, Deus é a mesma Bondade. Como quereis, pois, que Ele nos condene?"
Não é Deus que condena; é o pecador que se condena. O terrível fato da condenação tem por causa, não a Bondade de Deus, mas somente sua Santidade e Justiça. Deus, assim como é Bom, é Santo, e a sua Justiça é tão infinita no inferno, como a sua Bondade e Misericórdia são infinitas no céu. Não ofendais a Santidade de Deus e ficai certos de que não sereis condenados. O réprobo possui o que escolheu livremente, desprezando todas as graças do seu Deus. Escolheu o mal, tem o mal; ora, na eternidade, o mal tem o nome de inferno. Se tivesse escolhido o bem, teria o bem, e possui-loia eternamente. Isto é perfeitamente lógico, e neste ponto, como sempre, a fé concorda admiravelmente com a reta razão e com a equidade, Portanto, a primeira pena dos réprobos, o primeiro elemento desta horrível realidade, que se chama inferno, é a condenação, acompanhada da maldição divina, do desespero e do ódio de Deus.