
No ambiente do silêncio da noite, o anjo do Senhor manda José fugir com Maria e o Menino Jesus para o Egipto (Mt 2,19-20). Também Jesus era servido por anjos no ambiente do deserto (Marcos 1,12-13).
Só no silêncio é que se pode encontrar Jesus, como se lê na 1.ª leitura do domingo 19 (ciclo A): Deus não estava no espectacular (no terremoto, no relâmpago, no fogo) mas sim na brisa suave.
Assim, no barulho físico dos trabalhos, das diversões dos carros e das máquinas, não é fácil, sendo praticamente impossível entrar no interior da consciência ou na espiritualidade de Deus através da meditação ou da contemplação. Tantas pessoas há que, depois da poluição sonora do barulho das fábricas e das cidades, gostam de passar fins de semana ou passar férias em ambientes sossegados e cheios de silêncio físico, locais de serenidade, frescura, luz e verdura.
Pode haver silêncio físico mas só ele não chega, pois é preciso ainda o silêncio interior, o silêncio da alma. Pode a pessoa estar num sítio de silêncio físico, num local sossegado ou num retiro, e ter, no entanto, a alma toda em barulho lá no seu interior. É quando a pessoa está cheia de preocupações que até nem sossega, quando a pessoa anda cheia de desejos por isto e por aquilo e tantas outras coisas, quando a pessoa anda levada por paixões como vaidades, olhos distraídos por tantas coisas mesmo belas, ouvidos atraídos por tantos ruídos musicais de conversas sem valor de passar tempo, quando a pessoa se desfaz em tantos encontros e reuniões mesmo religiosas, quando a pessoa anda alvoraçada por tantos receios, quando a sua cabeça e imaginação andam atrapalhados ou à roda como diz o povo, quando a pessoa se perde e se distrai com um sem número de coisas, quando se deixa levar por coisas sem conta, de pouco ou nenhum valor, enfim, quando a pessoa se transformou em Marta, agitada com tantas coisas, ao contrário de Maria, toda contemplativa aos pés do Senhor, como diz o Evangelho (Lc 10,41) ...
A pessoa em qualquer destes ou outros casos, tem uma alma barulhenta no seu íntimo, havendo dentro de si uma espécie de praça pública mesmo ainda numa igreja saturada de cânticos até chatear e outras coisas mais. O interesse por tantas coisas mundanas e até religiosas em excesso, de correr todas as confrarias em que a pessoa se reparte de qualquer maneira, mostra que essa pessoa não tem ainda o gosto do que é fundamental na vida, manifesta, portanto, a sua falta de silêncio interior, anda fora de si mesma em religião, tem falta de recolhimento, não passando a sua religião duma religião de fachada ou de dar nas vistas. Assim a pessoa ainda não é um "Templo de silêncio" como a alma de Jesus. Por isso é que não basta o silêncio físico, externo mas é ainda preciso, embora mais difícil, o silêncio espiritual da alma da pessoa transformada desta maneira em "santuário" de Deus. Só neste silêncio pessoal e interior ou silêncio psicológico é que os anjos nos podem falar com as suas inspirações, ajudando-nos e orientando-nos para Deus como fizeram com S. José e Jesus.
Vós, santos anjos, reveladores da vida celeste, fazei que não nos falte o encanto sugestivo do silêncio como também da bela pobreza e ordem e que vejamos na santidade do ambiente uma amostra da vida celeste.
Importa o silêncio na presença do Senhor (crf. Sof. 1,7). É impossível ser-se religioso sem se refrear a língua (Tiago 1,26). A quem for para o deserto, Deus lhe falará ao coração (Oseias 2,16). Dizia Isabel da Trindade: "o grande silêncio que envolve a nossa vida e permite às nossas almas entrar no infinito para perder-se no antegozo do céu, no amor d´Aquele que é o nosso tudo".
OS 12 GRAUS DO SILÊNCIO SEGUNDO MARIA AMATA
1 – Falar pouco com as criaturas e muito com Deus:
é o primeiro e indispensável passo para a vida solitária do silêncio: silêncio ao mundo, às notícias. O silêncio é necessário mesmo às almas mais justas: por isso é que a voz dum anjo perturbou Maria.
2 – Silêncio nos trabalhos e nos movimentos:
silêncio dos olhos, dos ouvidos, das palavras. Silêncio de toda e qualquer exterioridade para dispor a alma a viver no ambiente de Deus. É o silêncio do recolhimento.
3 – Silêncio da imaginação:
A imaginação ou fantasia não pode ser destruída. Ela admira as belezas do céu, as cenas do calvário, as perfeições de Deus. Mas agora ela também deverá ficar em silêncio.
4 – Silêncio da memória:
Silêncio do passado, esquecimento. Encher a memória das recordações da misericórdia de Deus é o silêncio da acção de graças.
5 – Silêncio com as criaturas:
Muitas vezes a alma, atenta a si mesma, encontra-se a falar interiormente com as criaturas. Mas pelo silêncio deve retirar-se aos poucos para a sua mais profunda intimidade a fim de Jesus, seu Deus e consolador, lhe poder revelar os seus segredos e poder dar-lhe uma amostra da futura felicidade celeste.
6 – Silêncio do coração:
Silêncio aos afectos, às antipatias, desejos muito ardentes, ao zelo indiscreto, ao fervor exagerado. É, pois, um silêncio perante Deus, beleza, bondade, perfeição sem prejudicar a ternura e o grande amor da mesma forma que o esvoaçar das asas dos anjos, segundo Ezequiel 10.5, também não prejudica o silêncio da sua obediência, como também o cântico do eterno "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo, o céu e a terra estão cheios da vossa glória" não prejudica o silêncio dos serafins. É, pois, um silêncio de amor. A alma, pela sua pureza, começa a aprender a primeira nota desse cântico do céu.
7 – Silêncio da natureza e do amor-próprio orgulhoso:
silêncio ao ver a sua incapacidade, silêncio aos elogios e estimação. É este o silêncio da doçura e da humildade, silêncio nas contrariedades da cruz da vida, silêncio nos trabalhos e na doênça e na pobreza. É o silêncio do egoísmo humano a passar para a vontade do que Deus quer e dispõe.
8 – Silêncio do pensamento:
Consiste em calar pensamentos inúteis. Devemos mas é querer a verdade essencial de Deus. Devemos respeitar a virtude da fé e contentar-nos com a sua luz escura. Devemos ter silêncio nas intenções através da pureza e da simplicidade e ter silêncio ao orgulho que se apodera sempre de tudo, seja onde for. A inteligência que faz este combate com as armas destes silêncios é semelhante à inteligência dos anjos que estão a contemplar sempre a face de Deus sem parar.
9 – Silêncio dos juízos:
não julgar nem dar opinião, nem dar à primeira o seu sim, se não houver um motivo de prudência ou de caridade. Este é o silêncio das pessoas perfeitas e o silêncio dos anjos e arcanjos ao cumprirem as ordens de Deus.
10 – Silêncio da vontade:
é o silêncio de vítima no altar, o silêncio nas aflições do coração, nas dores da alma. É o silêncio do abandono a Deus como foi o silêncio de Jesus na agonia do Calvário.
11 – Silêncio consigo próprio:
não falar interioremente consigo próprio nem pôr-se a escutar a si, nem se satisfazer nem consolar-se a si próprio como certa gente que ao correr-lhe mal uma coisa, nunca dá o braço a torcer, por não querer reconhecer o fracasso. É este o silêncio mais difícil e, no entanto, é o mais importante para a união com Deus. É um silêncio mais pobre e mais heróico que o silêncio da morte.
12 – Silêncio de Deus:
A princípio Deus dizia: fala pouco com as criaturas e muito comigo. Agora passa a dizer: não fales mais comigo. O silêncio com Deus é unir-se a Ele, apresentar-se ao Senhor, expor-se a Deus, oferecer-se, aniquilar-se diante do Senhor, adorá-Lo, escutá-Lo e repousar n´Ele. É o silêncio da eternidade e a união da alma com Deus.