Nenhuma
pessoa humana pode ser Deus e pretender sê-lo é um grande pecado,
uma grande desilusão que só traz infelicidade. Virtude já é
aceitar ser filho de Deus e procurar corresponder a tão importante
dignidade.
Também
nenhuma pessoa humana pode ser anjo, pois o anjo é puro espírito e
a pessoa humana é um espírito incarnado num corpo material.
Pretender ser anjo é cair no pecado do angelismo, vindo a cair no
extremo oposto do materialismo como já se disse no início deste
livro. A pessoa humana é mista, tendo espírito que é do céu e
tendo corpo que é da terra. Por isso é que deve ter olhos no céu e
pés na terra. A pessoa humana por ter a realidade espiritual e
realidade material, é um resumo de tudo e deverá ser fiel a isto
que ela é.
Deve
aproveitar o melhor que puder da espiritualidade angélica e divina
mas sem esquecer a sua parte material que é terra. Ao melhorar a sua
parte espiritual está ao mesmo tempo a melhorar a sua parte material
que é o corpo.
Neste
aproveitamento da espiritualidade angélica e divina há graus. Há
pessoas que aproveitam ou podem aproveitar muitíssimo que são as
pessoas das ordens religiosas que renunciam muito à parte material
(ao casamento, aos bens materiais através do voto de pobreza e até
a algo de si que é a sua própria vontade através do voto de
obediência). Mas, com tudo isto, nunca chegam a ser verdadeiros
anjos, levando sempre consigo a parte material. Outras pessoas terão
menos aproveitamento. Não basta estar em ambiente de
espiritualidade, estando em convento ou estando inscrita nalgum grupo
consagrado mas é preciso viverem essa espiritualidade, pois no
vivê-la é que está o aproveitamento.
Por
outro lado, nem todos e são a maioria, poderão ser padres ou
freiras, pois as possibilidades e os dons de Deus são diferentes. O
que interessa, como diz a parábola dos talentos, é cada um tirar
proveito ou rendimento no dom que Deus lhe deu e que é a sua
vocação.
Portanto,
aqui vamos tratar apenas de todos os casos em geral.
Todos
estão convidados ao amor ou à espiritualidade divina ou angélica
nas suas diversas formas ou vocações, conforme se lê nestes
pensamentos:
a)
A alma vai de estrela em estrela como a abelha de flor em flor. A
abelha leva o mel como a alma leva a luz.
b)
O amor é a asa que Deus deu à alma para voar até Ele.
E
isto não deve ser apenas em palavras ou em teoria mas sim incarnado
em acções, como se lê nestes pensamentos:
a)
O cristianismo é um combate [real], não um sonho [só de teorias].
b)
O ideal é cravar os olhos em Deus sem despegar os pés da terra.
c)
A vida deve ser alegre com a esperança da eternidade.
d)
O amor é a poesia, a música da alma e a verdade sublime dos
corações.
e)
Nas intenções Jesus seja o nosso fim, nos afectos seja Ele o nosso
amor, nas palavras seja o nosso assento e nas acções seja o nosso
modelo.
f)
Se perdes o sentido sobrenatural da vida, a tua caridade será
filantropia, a tua pureza será decência e a tua mortificação será
comedimento.
g)
A humildade é uma caridade descendente e a caridade é uma humildade
ascendente.
Este
programa de a nossa vida se aproximar da de Deus e dos anjos exige
aperfeiçoamento, purificação e cruz como se lê nos seguintes
pensamentos:
a)
Para ser sábio, o homem precisa de aprender todos os livros mas para
ser santo basta só o do Evangelho.
b)
O homem inclina-se diante do talento, ajoelha-se diante da virtude e
reza em frente do santo.
c)
Dante olhava para Beatriz mas Beatriz olhava para o céu; Beatriz
purificava assim o coração de Dante.
d)
Quando recebo uma injúria, preciso de erguer a alma tão alto que a
ofensa não chegue até mim.
e)
A oração é o sinal característico da humildade suprema do
espírito.
f)
A oração valoriza-se com o sacrifício.
g)
Os olhos não vêm bem a Deus senão através de lágrimas.
h)
Na hora da tentação pensa no Amor que no céu te espera.
i)
Obedecer é ser mártir sem morrer.
j)
Martírio ao alcance de todos é ser apóstolo e não te chamares
apóstolo, seres mensageiro e não te chamares mensageiro, seres
homem de Deus e pareceres homem do mundo; é passares oculto, sem
propaganda nem dares nas vistas.
l)
Que Jesus seja o último em tudo e o primeiro no amor.
E
assim se terá uma boa morte que é fechar-se uma porta na terra para
se abrir outra no céu.
Sendo
a forma da vida humana ter os pés na terra e os olhos no céu, nisso
é que está a diferença entre a pura espiritualidade angélica e a
mista espiritualidade humana.
Além
disso, as acções humanas umas são realizadas sem espiritualidade,
quer dizer, são feitas à maneira materialista. As que são feitas
pelos verdadeiros cristãos, embora pareçam iguais às dos outros,
são diferentes, devido ao espírito com que são feitas. É que,
vistas por fora, parecem iguais mas, vistas por dentro, que é pelo
espírito invisível, já têm a sua diferença. A este respeito,
vale a pena ler este texto de Diogoneto e que é a 2.ª leitura da
5.ª semana pascal (na quarta-feira) da liturgia das Horas. Veremos
depois a razão por que pessoas não espirituais ou angélicas
acabaram por perder a religião angélica ou "abeatada" que
tinham como aquela mulher que casou com um padre e depois a desilusão
a tornou até um tanto descrente. Eis agora o texto:
OS
CRISTÃOS NO MUNDO
Os
cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem
pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram
em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada
tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação
fantasista de espíritos exaltados, nem se apoia em qualquer teoria
simplesmente humana, como tantas outras.
Moram
em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada
um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos
alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é
admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em
suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os
outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria.
Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles
terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas
não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito.
São
de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua
cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu
gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são
perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão
a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem
na abundância. São desprezados, mas no meio dos opróbrios
enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho
de sua justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e
pagam com honras. Praticam o bem e são castigados como malfeitores;
ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida. Os judeus
fazem-lhes guerra como a estrangeiros e os pagãos os perseguem; mas
nenhum daqueles que os odeiam sabe dizer a causa do seu ódio.
Numa
palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma
está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as
cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo;
os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma
invisível é guardada num corpo visível; todos veem os cristãos,
pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A carne,
sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o
gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os
cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres.
A
alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; também os
cristãos amam os que os odeiam. Na verdade, a alma está encerrada
no corpo, mas é ela que contém o corpo; os cristãos encontram-se
detidos no mundo como numa prisão, mas são eles que abraçam o
mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem
como peregrinos em moradas corruptíveis, esperando a
incorruptibilidade dos céus. A alma aperfeiçoa-se com a
mortificação na comida e na bebida; os cristãos, constantemente
mortificados, veem seu número crescer dia a dia. Deus os colocou em
posição tão elevada que lhes é impossível desertar.
Fazer
as coisas com espírito angélico e realizá-las com esse espírito
de perfeição de amor a Deus é que interessa, em vez de as realizar
apenas com intenção materialista de prazer ou lucro de dinheiro ou
por motivos simplesmente humanos de vaidade, honras, poder político
e social, etc.
Por
outro lado, a espiritualidade angélica a adquirir pela pessoa não
pode ficar simplesmente espiritual ou angélica, mas deve tornar-se
também incarnada em obras, isto é sacramentalidade na prática da
vida. A religião cristã nas pessoas não é apenas espiritual mas
começa espiritual para terminar sacramentalizada.
Ora
há pessoas, sobretudo pessoas novas, que só ligam a teorias
espirituais muito lidas nas nuvens, ideais aéreos, vida muito
interior sem chegar às obras exteriores, à realidade da vida para a
aperfeiçoar e santificar. É o pecado do angelismo por não ter
descido à prática que lhe dá experiência e amadurecimento na
vida.
Mas
também há pessoas, sobretudo pessoas de idade que só ligam à
experiência prática e dali não saem, dizendo que não há nada,
pois só se interessam pelas obras externas e não ligam nada à
renovação através da vida espiritual e ainda interior, por onde se
devia começar. É o pecado do farisaísmo ou religião de fachada,
de dar nas vistas e fazendo espectáculo.
São
dois extremos a evitar: nem angelismo nem farisaísmo. Quem sobe ao
angelismo vem a caír no farisaísmo e materialismo. A religião
cristã é sacramental, começando espiritual ou angélica para
tornar-se sacramental.
FALSOS
DEUSES OU ÍDOLOS
Texto
bíblico de Daniel 3,95 (o rei Nabuconodosor louva o Deus verdadeiro
de Israel por ter enviado o seu anjo a defender do castigo do fogo os
3 jovens que se recusaram a prestar culto aos ídolos desse rei).
O
texto sagrado fala do culto dos falsos deuses, também conhecidos
pelo nome de ídolos. Os falsos deuses acabaram sempre por escravizar
as pessoas, como também o diz António Ferreira Gomes: "os ídolos
sempre pediram sacrifícios humanos" (livro: Padre Pio e os Anjos,
1959, p.105). A sabedoria do povo também ensina: o diabo paga mal a
quem o serve e quem mal anda, mal acaba.
Só
o Deus verdadeiro é que é amigo e Pai e se sacrifica pelas pessoas,
sua imagem e semelhança, sofrendo por elas até chegar ao ponto de
ter querido morrer para as salvar.
Entre
os falsos deuses, conta-se o dinheiro, ao qual tanta gente se vende,
passando por cima de tudo e de todos ao calcar o direito e a
dignidade humana.
A
moda também por vezes chega a ser um ídolo ao qual as pessoas
sacrificam tantas vezes a sua modéstia e pudor.
Atualmente
os divertimentos podem tornar-se ídolo, a que tanta gente se entrega
em obediência total, para se ver livre da responsabilidade na vida e
para evitar enfrentar a cruz que chama a desenvolver valores mais
altos e importantes.
Outro
ídolo a que tanta gente vai prestando culto é o paraíso artificial
da droga, que acaba por devorar os seus adoradores como geralmente
acontece a quem adora prazeres como a finalidade de vida em vez de os
utilizar como meios de ajuda para melhor cultivar a virtude, sendo
até capaz de os dispensar para a virtude ter, com esse sacrifício,
até mais valor.
Enfim,
tem-se um ídolo ou religião laica (diferente das chamadas religiões
religiosas) quando se faz das coisas criadas, quaisquer que elas
sejam, o valor maior da vida, pondo o Deus verdadeiro mais abaixo e
até desaparecido por esquecimento ou por falta de gosto.
Além
dos ídolos, exteriores à pessoa, há os ídolos interiores, dentro
da mesma pessoa.
Um
deles é termos um deus à nossa maneira e não à maneira da Deus. À
maneira de Deus, que é pela virtude da fé e que deve ser sempre
aumentada, é o verdadeiro caminho a seguir. Um deus à nossa maneira
e ao nosso gosto, imperfeito como nós, é um ídolo. Tanta gente que
se julga religiosa, quando afinal, pelo seu fanatismo ou facilitismo
e outros defeitos, está a ser idólotra do seu ídolo, feito por si.
Há
ainda outros ídolos interiores, por exemplo, os chamados 7 pecados
capitais: soberba (orgulho querer ser deus dos outros), avareza
(religião laica do dinheiro que escraviza na miséria), luxúria
(sexualidade sem freio, sem respeito e fora do plano de Deus), ira
(espírito de guerra), gula (culto das grandes comezainas, bebedeiras
e alcoolismo), inveja (ódio escondido), preguiça (facilitismo,
desculpando tudo).
Ora,
em vez disto, o "coração deve ser trono de um só Deus, o único
verdadeiro". Em vez de dar o coração às coisas materiais cá de
baixo do mundo, importa, como diz a missa, pôr "corações ao
alto". Era o que dizia S. Paulo: "Tudo é vosso mas vós sois de
Cristo e Cristo é de Deus" (1 Cor 3.21-22). Nesta ascensão para
Deus os anjos nos oferecem a sua companhia e colaboração. Como diz
Giovanni P. Siena, "cada qual de nós tem um anjo do céu como
companheiro fiel e inseperável. Se o repelimos ele teima em nos
seguir, ainda quando nós – cedendo aos conselhos do inimigo comum
– nos deixamos cair pela senda fácil, larga e florida do mal […].
Lembrai-vos – diz o Padre Pio – lembrai-vos que Deus está em nós
se estamos em estado de graça, e fora de nós se estamos em pecado
grave: mas o seu anjo nunca nos abandona.
Como
observa Plínio Salgado (livro: A tua Cruz, Senhor... Lisboa, 1954,
pp. 178-181, 216), têm aparecido muitos falsos deuses. Racionalismo,
Experimentalismo, Pansexualismo, Trabalho, Sufrágio Universal,
República, Liberdade, Comércio, Máquina, Democracia, Economia,
Finanças, Previdência, Luta de Classes, Raça, Ciência, Técnica,
Socialismo, Capitalismo, Nacionalismo, Internacionalismo
(Globalização), ONU, Livro, Rádio, Televisão, Demagogia. Não é
que estas coisas sejam de deitar fora, pois, até certo ponto, são
mesmo precisas. Agora, quando, em vez de relativas que são, passam a
ser tudo na vida ou absolutas como divindades a tomar conta das
pessoas, então são ídolos e acabam por criar desilusão, pois,
como disse D. António Ferreira Gomes, os ídolos exigem sacrifícios
humanos. Religião a dar nas vistas ou maneiras e atitudes exageradas
a rezar são ainda o ídolo da vaidade.
ADORAÇÃO
NO CAMINHO DESTA VIDA
O
anjo do Senhor mandou Filipe ir pela estrada deserta de Jerusalém a
Gaza (Act. 8,26).
Trata-se
de ir, caminhar, peregrinar à busca de Deus por esta estrada do
mundo e isso é a Fé, a adoração: "meu Deus, eu creio, adoro..."
(ensinava a rezar assim o anjo aos pastorinhos de Fátima). Se
ficarmos parados, estamos a adorar as coisas da estrada e que são os
ídolos.
A
razão de a estrada estar deserta quer significar que devemos
caminhar para a frente, pois ela não tem coisas que mereçam a nossa
paragem nem coisas que nos dêem a verdadeira felicidade. Se por um
lado ela está assim deserta, por outro lado ela está cheia da
presença invisível de Deus e, portanto, "Habitua-te a procurar a
sua presença" nesta caminhada da vida.
A
caminhada da Fé será e deverá ser sempre uma caminhada do bem em
amor a Deus e ao próximo: "serás o próximo de todos aqueles que
passarem por ti", por isso procura evitar na vida os "caminhos
barulhentos e concorridos, cheios de [inutilidades e] futilidade e de
perda de tempo […] caminhos de distração, pois a verdadeira
estrada é "o lugar interior, onde mora em nós o próprio Deus".
Por
isso é que convém pedir ao anjo "que te ensine a pôr amor em
tudo o que fizeres, em tudo o que disseres, em tudo o que pensares […
e] que faça passar o amor do Coração de Jesus para o teu coração"
e assim "esta estrada que caminhas, encerra muita adoração, [fé]
e muito amor […] A terra é o caminho de preparação para aquilo
que será a tua ocupação na eternidade". O anjo, como diz o salmo
91, ajuda mas não pode evitar os nossos abusos.
"Para
quem vive assim a vida, a morte é o momento mais belo da vida – é
o "exame do amor" […] a morte é o cair do pano que impediu,
durante esta vida, que o céu deste mundo – o céu da graça – se
encontrasse com o céu da outra vida – o céu da glória".
Este
mundo, vivido no ambiente angélico da virtude, lembra o antigo
paraíso terreal que, por sua vez, é uma amostra do verdadeiro
paraíso celeste, o que é também significado no conto do monge e do
passarinho, a seguir descrito. Também S. Francisco de Assis, pela
beleza das coisas criadas ficava a ver uma amostra da beleza de Deus,
pois as coisas como que são sacramento ou amostra de Deus.
Precisamos,
pois de viver em ambiente de adoração, tendo a devoção do
crucifixo que nos leva a crucificar o orgulho, sensualidade e demais
vida de pecado, tal como dizia o místico alemão G. Tersteegen:
«Deus
está aqui presente, adoremo-Lo;
ponhamo-nos,
com respeito, na sua presença.
Deus
está aqui: que em nós haja silêncio
e o
nosso coração obedeça à sua presença
ao
conhecê-Lo e ao pronunciar o seu nome,
baixemos
os olhos e levantemos para ele o nosso coração». 1
1 (Raniero
Cantalamessa, Subida ao Monte Sinai, São Paulo, 1997, pp. 177-180)