Certamente é bom, e muito bom, ter uma confiança ilimitada na Misericórdia de Deus; mas, à luz da verdadeira fé, a esperança não deve estar separada do temor, e se a esperança deve sempre dominar o temor, é com a condição de que o temor subsista, assim como os alicerces de uma casa, que dão a todo o edifício a sua força e solidez. Assim o temor da Justiça de Deus, o temor do pecado e do inferno, deve afastar do edifício espiritual da nossa salvação qualquer vã presunção. Deus disse: "Não abandonarei o que vier a mim."

Mas também disse: "Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor." É preciso santamente temer, para ter o direito de esperar santamente.

À vista dos abismos ardentes e eternos do inferno, examinai a vossa consciência, caro leitor, mas examinai-a bem e seriamente.

Como estais? Viveis em estado de graça? Ou a vossa consciência acusa-vos de algum pecado grave, que, se morrêsseis de repente, vos sepultaria na eternidade infeliz?

Neste caso peço-vos que, atendendo à vossa alma, não hesiteis em arrepender-vos de todo o coração, e em confessar-vos hoje mesmo, ou ao menos na primeira ocasião que tiverdes. Acaso é necessário dizer-vos que, para evitardes o inferno, deveis desprezar qualquer interesse, e antes de tudo, atendei bem, antes de tudo assegurar a vossa salvação? "Que aproveitará ao homem possuir o mundo inteiro, se depois vier a perder a sua alma? diz-nos a todos o Soberano Juiz; e que poderá dar em troca da sua alma?"

Não deixeis para amanhã o que hoje podeis fazer. Estais certo de que chegareis ao dia de amanhã?

Conheci numa pequena aldeia da Normandia um pobre homem, que desde o seu casamento, isto é, havia mais de trinta anos, se tinha deixado arrastar por ocupações, e pelo seu pequeno comércio, e ainda mais, cumpre dizê-lo, pelo atrativo da taberna e do copázio de cidra, que chegou a esquecer-se totalmente do serviço de Deus. Não era de má índole, e estava bem longe de o ser. Dois ou três meios assaltos tinham-o amedrontado, mas infelizmente não bastaram para o conduzir ao cumprimento dos seus deveres.

Aproximava-se a festa da Páscoa.

Uma tarde encontrou-se com o abade, o qual o exortou a cumprir o preceito quaresmal. "Senhor abade, respondeu o pobre homem, agradeço a vossa bondade.

Prometo-vos, palavra de honra, que pensarei no que acabais de dizer-me, Se isto não vos causa nenhum desarranjo, eu virei falar convosco daqui a alguns dias."

No dia seguinte foi achado o corpo deste homem em um ribeiro vizinho. Ao atravessá-lo a cavalo, foi atacado de uma apoplexia e caiu na água.

Há dois anos, no bairro Latino, um estudante de vinte e três anos, que desde a sua chegada a Paris, havia quatro anos, se tinha entregado á luxúria com todo o vigor da juventude, recebeu um dia a visita de um de seus companheiros, tão bom e tão puro, quanto ele o era pelo contrário. Era um compatriota, que ia dar-lhe novas da pátria. Depois de alguns minutos de conversação retirou-se; mas, ao ver que tinha deixado um livro em casa do seu companheiro, voltou para traz e bateu à porta.

Havia um quarto de hora que o companheiro o tinha deixado. Segundo depois se viu, uma aneurisma rompeu-lhe o coração.

Encontrou-se a sua papeleira cheia de cartas abomináveis, e os poucos livros que compunham a sua pequena biblioteca, eram o que havia de mais obsceno, 

Poder-se-ia multiplicar os exemplos deste gênero, sem contar os milhares de acidentes que quotidianamente, por assim dizer, fazem passar repentinamente da vida à morte; por exemplo: os acidentes de caminho de ferro e de carruagem, as quedas de cavalo, os acidentes da caça e do mar, os naufrágios, etc.

Eles mostram, com mais eloquência do que todos os raciocínios, que o homem deve sempre estar preparado para comparecer diante de Deus, e por isso não deve pôr em risco a sua eternidade; e que aquele, que vive em estado de pecado mortal e não pensa em reconciliar-se com Deus por meio da confissão e pelo arrependimento, é um louco que dança à beira do abismo, é três vezes louco.

"Não compreendo, dizia S. Tomás, como um homem em estado de pecado mortal é capaz de rir e de folgar." Expõe-se, com a alegria no coração, a experimentar, mau grado seu, a altura destas tremendas palavras do Apostolo S. Paulo: "É horrível cair vivo nas mãos de Deus!"