Aproveitando as notas de um retiro de D. Manuel de Almeida Trindade, antigo bispo de Aveiro no seu livro Apontamentos de retiros, Coimbra 2001 em que foi comentado o livro chamado Seis Asas dos Serafins, da autoria de S. Boaventura, vamos fazer a comparação de tudo isso com o conto do anjo a levar o pecador ao encontro das diversas virtudes, começando pela virtude da justiça, continuando pelas restantes até acabar na virtude da misericórdia, a única que soube acolher e salvar o pecador.

Cada asa do serafim representa uma virtude que cada um de nós deve imitar o melhor possível, como vamos ver.

A primeira asa do serafim é a virtude da justiça, a virtude que nos leva a ser justos, tendo o fogo do zelo da glória de Deus e do bem do próximo necessitado. Assim quem tiver a virtude desta asa evita ligar pouco à virtude e contentar-se com pouca vida espiritual, evita ligar mais a si que aos outros e arrumar as responsabilidades mais para as costas dos outros do que para a sua falta de interesse.

A segunda asa do serafim é a da misericórdia. Quem tiver esta virtude terá uma alma de redentor e salvador, procurando descobrir uma esperança de saída para a pessoa em crise e evitando dizer-lhe que não há mais nada a fazer para a sua salvação.

A terceira asa do serafim é ter-se paciência, evitando arrumar-se devido ás dificuldades da cruz da vida, isto é, evitando o desistir e fugir para outro modo de vida, evitando ainda, quando as coisas não correm como se queria, responder áspero às pessoas que criticam ou vingar-se delas ou afastando-as para outro cargo.

A quarta asa do serafim é a do bom exemplo que a pessoa deve dar, evitando querer ser mais que os outros lá por estar no cargo de chefe ou maior que os outros lá por não estar no cargo de chefe ou por ter mais cultura, indo ao ponto de os outros até terem receio de chegar à sua beira.

A quinta asa do serafim é a virtude da prudência ou virtude do equilíbrio. Esta virtude leva a ligar-se a todas as virtudes e não apenas a ligar-se a todas as virtudes e não apenas a uma virtude ou outra, chegando-se a cair no defeito de a exagerar por se ter esquecido as outras e ela se tornar mesmo um defeito como é a bondade exagerada em fraqueza, o zelo exagerado que passou a ser precipitação, a justiça exagerada que se tomou assim crueldade.

A sexta asa do serafim é o gosto de pensar ou meditar em Deus e nas coisas divinas, ou seja a devoção ou espírito de oração.

Procurando imitar estas diversas virtudes representadas pelas asas dos anjos chamados serafins, estamos a aproveitar da espiritualidade angélica, de acordo com as comparações de S. Boaventura.

No conto do anjo a conduzir o pecador, viu-se mesmo como o anjo reconhecia ser justo haver o bem da virtude, o anjo teve paciência em acompanhar sempre o pecador até conseguir-lhe a misericórdia.

O anjo deu um exemplo impecável que todos os pais e educadores devem imitar. O anjo em todos os encontros com as virtudes foi sempre equilibrado, viu sempre a razão que cada virtude tinha de queixa contra o pecador, dando sempre bons exemplos em tudo isto, mostrando sempre a sua devoção por Deus e tudo o que aproxima de Deus.

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Os anjos, quando os homens estavam no domínio do pecado no Antigo Testamento, não tinham aquele grande carinho pelos homens por serem pecadores. Mas, depois de serem remidos por Cristo Salvador, passaram a ser muito acarinhados, segundo pensa S. Isidoro de Sevilha e S. Tomás de Aquino. Embora a natureza humana seja inferior à natureza angélica, já a natureza humana de Cristo, por ser de Jesus/Deus, passou a ter uma dignidade superior à dignidade angélica. O mesmo aconteceu com a Virgem Maria, que por ser Mãe de Jesus/Deus e ainda por ser imaculada, passou a estar acima dos anjos e abaixo de Deus e por isso se chama a Rainha dos Anjos.

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Conhecida a fraca espiritualidade no Ocidente, aparte notáveis excepções, não é de admirar, por isso, falar-se mais de demónios do que anjos, enquanto no Oriente os anjos são mais lembrados. Como adverte S. Paulo (2 Cor 11,14), por vezes o demónio disfarça-se de anjo de luz. Infelizmente, no Ocidente já quase não se fala de demónio, supondo-se até que não existe mesmo. Na Bíblia o demónio, que é um anjo mau, é referido com vários nomes: Belzebu, Belial, espírito imundo, satanás, tentador, maligno, chagão, serpente, leão, diabo, Anti-Cristo. É excelente sobre esta matéria o livro de Georges Hulie, O Diabo hoje, S. Paulo 1999. Neste nosso livrinho não trataremos propriamente dos demónios mas sim dos anjos. O demónio favorece a agitação e a dispersão na vida para nos afastar de Deus. Deus até quer que vamos ocupar no céu os lugares vagos abandonados pelos anjos maus. A oração é que faz vencer a dispersão e banalidade favorecida pelo demónio.

É preciso termos fé, para nos apercebermos dos anjos, pois é com os olhos ou a luz da fé de Deus que temos consciência dos anjos e assim é que as nossas necessidades sobem nas asas dos anjos até Deus e a ajuda da graça divina desce até nós nas asas deles e pela mesma razão as nossas orações fazem com que os anjos nos venham visitar e rezar é evitar a banalidade e fugir à dispersão. Por isso é que uma pessoa a rezar sozinha nunca está só mas sim acompanhada dos anjos como diz S. Clemente de Alexandria e assim devemos fazer bem as orações sem distracção nem tendo outras preocupações naquele momento para o anjo não ter de as levar para Deus com tristeza por estarem mal feitas. A nossa oração, acompanhada do anjo cheio de alegria pela nossa oração bem feita, torna-se melhor ainda como é o caso, por exemplo, duma pessoa a ver ao longe com o auxílio e acompanhamento dum binóculo para ver melhor.

É certo que os anjos não nos tiram a cruz da vida mas dão-nos coragem e consolação para a enfrentar e vencer como fizeram a Cristo na sua agonia no Jardim das Oliveiras. O anjo da guarda é sempre o portador do pensamento e vocação de Deus para nós. No dizer de Jean Guitton, o arcanjo Gabriel pediu na anunciação a Maria o seu sim e é este mesmo sim que o nosso anjo da guarda está a pedir a nós a todos os momentos e horas no decorrer da nossa vida.

Não devemos pensar apenas na ajuda das outras pessoas e santos para nós mas também ainda na ajuda dos anjos da guarda dessas pessoas e desses santos. Assim, ao pensarmos na dedicação do bispo visível, devemos pensar no bispo invisível que é o anjo dele e o mesmo dizia S. Roberto Belarmino a respeito dos reis, do Papa, dizendo mesmo que havia dois reis (o rei e o anjo dele), dois papas (o papa visível de Roma e o Papa invisível que era o seu anjo).

Orígenes no séc. II dizia: "Quando os fiéis estão reunidos numa função religiosa, temos duas igrejas: a dos homens e a dos anjos. E é de ver que estes presidem às reuniões daqueles". Assim a liturgia celeste está, como diz Salvaneschi, unida à da Terra, o que lembra a escada dourada da terra ao céu por onde desciam e subiam os anjos. Se as pessoas consagradas, por provarem neste mundo já a vida celeste, são ou devem ser "anjos terrestes" para os outros, ainda assim têm o seu anjo celeste invisível.

Diz S. Pedro Damião que devemos viver sempre como se estivéssemos a sentir a presença dos anjos, seguindo o que se harmoniza com a vida angélica e aborrecendo tudo aquilo que daí nos afasta. Mas o mesmo santo lembrava ainda, como já dizia S. Paulo (Col 2, 18-19), que não víssemos nos anjos uma espécie de deuses pois, se precisamos dos anjos, temos sempre também muitíssima necessidade de Deus, pois os anjos estão à nossa volta mas sempre fora dela e só Deus é que pode habitar dentro dela, no nosso coração.

Os anjos são muitíssimos como diz a Bíblia (Mat. 26,53 Hebreus 12,23 e 13.14). Confiemos tudo ao anjo da guarda e não vamos pedir aos anjos superiores como serafins, etc., pondo de lado o anjo da guarda. Os anjos da guarda e os outros anjos não gostam destas manhas, pois os anjos colaboram todos uns com os outros.

S. Francisco de Sales dizer haver uma coisa boa que os anjos não podem fazer e os homens podem: é fazer sacrifícios.

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Se, ao rezarmos, os anjos estão à nossa beira, por maioria de razão estão na oração litúrgica como é a missa e os sacramentos, etc. Os anjos são mestres da liturgia e a liturgia da terra também participa da liturgia celeste como diz a Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II (n.º8). Diz o salmo 137: cantar-Vos-ei, Senhor, na presença dos anjos.

Na festa de S. Miguel e S. Gabriel a 18 de Novembro na igreja bizantina costuma-se cantar na procissão: "Vós seres espirituais, só espírito sem corpo, cantai com lábios flamejantes o canto do três vezes santo ao Mestro divino dizendo: Santo Deus, Deus Pai sem princípio, Deus de Santidade e da Fortaleza, Deus Filho coeterno, santo e imortal, Deus Espírito Santo glorificado com o Pai e o Filho".

Diz S. João Crisóstomo que o altar está povoado de anjos durante a celebração da missa. E como são belas as igrejas que têm o sacrário cercado de imagens ou pinturas de anjos!

Eis as palavras de S. João Crisóstomo: "Os anjos rodeiam o sacerdote quando se aproxima do altar, o templo e o espaço à volta do altar está povoado de anjos como soldados na presença do rei".

Por isso, na missa bizantina, o celebrante diz já antes de entrar no santuário: "Soberano Deus, Nosso Senhor que criaste no céu os coros e exércitos dos anjos e arcanjos ao serviço da vossa glória, fazei que nesta nossa entrada os santos anjos nos acompanhem a celebrar e a glorificar a vossa bondade".

Quando Deus apareceu incarnado na pessoa do Filho entre os homens, estão os anjos que lidam de mais perto com os homens (os anjos das jerarquias inferiores como são as Dominações, Virtudes, Potestades e Principados, Arcanjos e Anjos) cantam agora na missa aquele canto que então cantaram em Belém.

"Glória a Deus nas alturas

e Paz na terra aos homens por Ele amados" (Luc. 2,14).

Eis como este belíssimo canto litúrgico, autêntico hino à Santíssima Trindade (um ampliado "Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo") foi infelizmente macaqueado e se usa na missa de várias igrejas:

"Quero louvar-Te mais e sempre mais (bis),

Buscar Tua vontade, Tua graça conhecer,

Quero louvar-Te

As aves do céu cantam para Ti

Os animais do campo reflectem o Teu poder.

Quero cantar, quero levantar as mãos para Ti!

Quero seguir-Te só a Ti, Senhor,

Quero amar-Te só a Ti, Senhor,

E proclamar-Te nosso Salvador".

A Santíssima Trindade foi posta de lado tal como os muçulmanos que não a admitem!

Neste ponto tinha razão Ali Agca, que tentou matar o Papa em Roma, ao falar de certo catolicismo que "renega a Bíblia" (Jornal de Notícias de 11-07-2000, p. 17)

Nas liturgias orientais há o canto dos querubins antes do ofertório na missa: "nós que misticamente representamos os querubins e cantamos o hino d"o Três vezes santo" à vivificante Trindade, pomos de lado todas as nossas preocupações mundanas para receber o rei invisível do universo, acompanhado pelo seu exército de anjos". Assim o oferetório entra no ambiente celeste.

As virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade parecem condizer com as 3 séries ou 3 jerarquias de coros de anjos. Assim, a virtude da Fé lembra os coros dos anjos, arcanjos e principados; a virtude da Esperança lembra os coros angélicos da fortaleza (Dominações, virtudes e Potestades) e a virtude da Caridade lembra os coros (junto de Deus) dos tronos, querubins e serafins. Por sua vez a Fé (ligada à Liturgia da Palavra na Missa) lembra na vida espiritual o grau inicial da purificação, a Esperança lembra a iluminação e a Caridade lembra o grau de perfeição ou união.

Os prefácios das missas costumam no fim fazer alusão aos anjos.

Na missa os coros angélicos dos serafins, querubins e tronos cantam:

"Santo, Santo, Santo

Senhor Deus do Universo!

O céu e a terra proclamam a vossa glória" (Isaías 6.2)

Como diz S. Ambrósio, "cantamos nós os homens com os serafins que estão de pé, estendemos juntamente com eles as nossas asas e voamos a seu lado à volta do trono do Rei dos reis (...nesta altura) que ninguém esteja apegado, a pensamentos terrenos mas sim desprendido de tudo o que é humano e totalmente presente no céu como se estivesse de pé ao lado do trono da glória de Deus, cantando com os serafins o louvor santíssimo à glória" da majestade de Deus. Realmente "o sol eterno inflamou os serafins, irradiou os querubins com magnificência e revestiu os tronos de esplendor. A luz chegou às Dominações, Virtudes e Potestades e depois aos vales dos Principados, ao esplendor dos Arcanjos e à planície dos anjos". Como diz S. Pedro Juliano Eymard, "vinde à adoração para desempenhardes o papel dos anjos".

Como é triste ver este celestial cântico bíblico assim macaqueado em certas igrejas nas missas:

a) "Deus é santo, Deus é forte,

Deus é bom e poderoso

Terras e céu cantam os seus louvores

Viva o Senhor que entre nós está!

Ao Senhor nosso Deus

Todo o mundo bendiz,

Todo o mundo proclama

e cantando lhe diz:

Santo, santo, santo é o Senhor (bis)

Vede as flores do campo.

Vede as aves do céu,

Vede os rios e os montes

cantam hinos a Deus."

b) [supressão de "Senhor Deus do Universo", "o céu e a terra proclamam a vossa glória"]

O Senhor é santo

O Senhor é nosso Deus,

O Senhor é nosso Pai.

Que o seu reino de amor se estenda sobre a terra.

Bendito o que vem em nome do Senhor

Bendito o que vem em nome do Senhor,

Hosana, Hossana, Hossana".

Diz S. Ambrósio: "Durante o tempo de sacrifício eucarístico os anjos rodeiam o sacerdote, todo o santuário especialmente ao redor do altar está cheio de exércitos celestiais em honra d'Aquele que se faz presente no altar no pão e vinho transformados (…) e uma "multidão de anjos revestidos de vestes brilhantes a inclinarem-se até ao chão à volta do altar mais ou menos como soldados na presença do Rei".

S. Brígida e a beata Ângela de Foligno diziam que uns anjos estão á volta do celebrante e outros estão a rodear a hóstia e o vinho consagrados.

Quanto à comunhão, S. Pedro Julião Eymard: os anjos, apesar da sua pureza, não podem comungar, "o verdadeiro amante que deseja amar a Deus quanto merece ser amado, gostaria de amar com o coração de todos os anjos". S. Afonso Maria de Ligório dizia: não invejo a glória dos serafins mas sim o seu amor pelo seu Deus e meu Deus. S. Pedro Julião Eymard acrescenta ainda: ao comungarmos, ficamos acima dos anjos, não por a nossa natureza passar a valer mais que a natureza angélica mas sim pela honra que é comungar [… e até] os anjos estão à nossa volta a honrar-nos. S. Maria Madalena de Pazzi dizia que nós, ao comungar, ficávamos a ser uma espécie de "anjos terrestes". Notar que a dignidade sacerdotal não "existe nos anjos"e por isso os anjos olham para ela de modo especial e assim os sacerdotes, e até os religiosos consagrados, devem parecer-se muito com os anjos no louvor a Deus como dizia S. Hildegarda de Bingen, que afirmava ainda: "quando um sacerdote, com as vestes sagradas se aproxima do altar para celebrar os divinos mistérios, desce de repente um brilho luminoso do céu: desceram os anjos e a luz rodeou o altar. É que no sacrifício da missa o homem recebe o pão cujo sabor não pode ser provado pelos anjos que vêem a Deus".

Era assim que rezava S. Afonso Maria de Ligório aos anjos: "santos serafins, que ardeis docemente de amor pelo nosso Senhor, também meu, fazei que eu arda também de amor. O Senhor do céu desceu ao Santíssimo Sacramento do altar não por causa do vosso amor, santos serafins, mas sim por causa do seu amor por mim. Inflamai-me santos serafins, com o vosso próprio amor para eu amar Jesus convosco. Fazei-me conhecer a medida do vosso amor, para crescer em mim o desejo de amar ao Senhor". Dizia o Santo Cura d'Ars: "Oh! Como o anjo da guarda é feliz quando acompanha uma alma bela à Sagrada Mesa"! Importa dizer com Salvaneschi: "Fazei que o coração se torne prece, a prece passe a ser um canto e o canto a ser luz. Dai, Senhor, às palavras o palpite da longíqua infância espiritual. Dai à oração a recordação da pureza matutina" e "que o coração saiba pedir como fazem as crianças".

Quanto à liturgia das Horas, o Papa João XXIII aconselhava a pedir a assistência dos anjos da guarda à recitação das Horas. S. Leonardo de Porto Maurício diz: "os santos têm consciência de os anjos estarem a oferecer a Deus as orações na recitação da Liturgia das Horas". S. Bernardo contava a anedota segundo a qual os anjos apontam o aproveitamento da oração das pessoas, escrevendo com ouro ou prata ou tinta ou água conforme a devoção das pessoas, havendo casos de não escreverem nada (caso de pessoas distraídas a rezar, apenas de corpo presente).

O homem, mesmo sem ser sacerdote ou religioso consagrado, já é parecido com Deus, porque foi criado à sua imagem e semelhança (Gén, 1.26), semelhança esta ainda mais aumentada pela graça no seu baptismo e outros sacramentos e vida santificada. Mas os anjos são imagens mais parecidas com Deus do que os homens e, por isso, eles podem ajudar-nos a sermos mais filhos de Deus e daí a importância, no dizer de S. Rábano Mauro (abade do mosteiro de Fulda), de nós servimos a Deus pela obediência e louvamos o Senhor pela gratidão e louvor de acção de graças, formando nós, por assim dizer, uma espécie de 10 º coro de anjos embora terrestes, pois pela imitação dos anjos através da fé, esperança e caridade, eles nos ajudaram a sermos mais parecidos com Cristo. Como diz S. Bernardo: "os anjos da paz exigem de nós a unidade e a paz. De outra maneira não há nada que os ofenda tanto e provoque a sua indignação como as querelas e escândalo entre nós".

S. Francisco de Assis ao ser-lhe concedida a indulgência de Porciúncula, afirmou não precisar de documento, dizendo assim: "o meu escrito (documento) será Maria, Cristo é o notário e os santos anjos são as testemunhas". Os anjos, que vivem entre Deus e os santos e nós, não nos fazem sombra, pois eles mesmos são raios de luz de Deus para nós, a sua luz é reflexo da luz de Deus.

S. Luíz de Gonzaga diz que não devemos fazer diante dos anjos o que não faríamos diante dos homens.

Segundo S. Boaventura, os anjos do céu clamam, sem parar, à Virgem Maria, sua rainha: "Santa, Santa Maria, Virgem Mãe de Deus", "Ave, Maria". E S. Bernardino observa que os anjos, ao verem Maria a entrar no céu, Lhe cantavam assim: "levantai, portas do céu, os vossos umbrais levantai-vos , portas antigas, que vai entrar a Rainha da glória".

S. Pedro Julião Eymard diz que, se Maria por ser Mãe Imaculada de Deus sendo sempre Virgem é a Rainha dos anjos, também a Igreja, por se parecer com Maria, é até certo ponto também rainha e servida pelos anjos. E, como já foi dito, nós, membros da Igreja faríamos o 10.º coro de anjos (terrestes) como também diz S. Boaventura.

Nós, a repararmos a Jesus nas Horas Santas estamos a parecer-nos com o anjo que confortou Jesus (Luc. 22.43) no Jardim das Oliveiras na sua agonia.

Entre os santos muito devotos dos anjos, temos, por exemplo, S. Teresa de Jesus, chamada a Serafina do Carmelo, S. Gregório Magno chamado o "doutor dos anjos", S. Tomás de Aquino, chamado o "doutor angélico", S. Francisco de Assis conhecido por o Santo Seráfico.

Já antigamente Pedro de Berulle (1575 – 1629) dizia que devíamos ser anjos visíveis, associados aos anjos visíveis. Se os anjos louvam, sem parar, a Deus, ao contrário de nós, nós ao menos façamos do nosso trabalho oração. S. Carlos Borromeu, na sua oração para bem morrer dizia: "meu querido anjo da guarda […] dizei a Jesus nesse momento o que talvez eu já não serei capaz de dizer". No hino de S. Luís de Gonzaga vinha esta oração para ser dita 9 vezes em honra dos 9 coros de anjos: "santo Deus, todo poderoso e imortal, tende piedade de nós".

Ignacio Maria Suarez Ricondo, no seu livro acima referido, trata duma forma pobre de viver o culto dos anjos, levada a cabo por religiões esotéricas e sobretudo pela religião da Nova Era (ou New Age) e ainda pela magia e ocultismos. Nesta maneira de encarar os anjos, eles só trazem benefícios materiais aos homens, nem sequer são tidos como mensageiros de Deus nem têm interesse em guiar as pessoas para a santidade divina. São considerados como uma espécie de energias materiais (e não pessoas puramente espirituais) apenas para dar ânimo e benefícios às pessoas e também eles fazem parte do mundo material. Haziel escreveu vários livros a propagar estas doutrinas diminuídas e deformadas como O Nosso Anjo da Guarda Existe, Os Poderes do Anjo da Guarda, Comunicar com o seu Anjo da Guarda. No primeiro destes livros, publicado em 2000, diz na p.14 que os anjos também têm sexo, havendo assim anjos e anjas e depois traz muitos nomes de anjos, quase todos desconhecidos na Bíblia, e cujos benefícios às pessoas consistem na saúde, dinheiro, trabalho e sorte no namoro e casamento, nada havendo quanto à santificação e aproximação a Deus. Muita gente tem-se deixado encantar por esta religião atraente e fácil.

Já Anselm Grun, no seu livro Cada Pessoa tem um Anjo, Petrópolis 2000, não se deixa levar por essa religião fácil e procura seguir o que diz a Bíblia, dizendo: "Os anjos são mensageiros de Deus. Eles apontam para Deus. Abrem os nossos olhos para o mistério de Deus. Estabelecem a ligação entre o céu e a terra. Sobem e descem a escada de Jaco(b), a fim de estabelecer a mensagem divina em nossos corações". Acrescenta seguidamente que o mundo dos anjos cria um ambiente de beleza e bondade, sabedoria e graça entre os homens e Deus, o que é importante até para a psicologia das crianças e ainda dos adultos, referindo que os conhecimentos problemáticos, duvidosos ou ambíguos sobre os anjos, tudo à margem da Bíblia, "querem saber mais do que podemos saber".