1 – Princípio da lenda dos 3 santos monges que foram ao Paraíso Terreal, atraídos pelo encanto dum ramo de suaves frutos que vinha nas águas do rio de Sião desde o Paraíso Terreal.

Paraíso Terreal, situado neste mundo na zona do nascente está no monte mais alto do mundo, donde nascem 4 rios chamados Sião, Pisão, Tigre e Eufrates. Na margem do rio Sião havia um convento de monges, muito amigos de Deus, levando uma verdadeira vida de anjos. Um belo dia, 3 dos seus monges andavam ali num jardim junto ao rio a lavar as mãos e os pés pois estava muito calor como é costume haver nas regiões do nascente e aconteceu com surpresa, que viram arrastado pelas águas do rio Sião um ramo de árvore, muito variado e de diversas cores. Uma folha parecia ser de ouro batido, outra era como que da cor da prata, outra de azul celeste, além das cores verde, vermelha e branca. O ramo estava carregado de frutos deliciosos e maduros para comer.

Os 3 monges pegaram no ramo, apreciaram a sua beleza, deram graças e louvores à grandeza e poder de Deus e admiraram muitíssimo a maravilhosa árvore donde saíra aquele ramo. Contemplaram, em meditação as maravilhas de Deus derramando até lágrimas de devoção pelas grandezas do Senhor, cada um deles até chegou a pensar no íntimo do seu coração: realmente deve ser santo e sagrado o lugar donde vem este ramo. Até chorávamos de alegria ao imaginar como será a felicidade de Deus com os anjos, patriarcas, profetas e todos os outros santos. Todos os 3 monges sentiam de igual forma. Um deles chegou a dizer: vamos pela margem do rio acima até esse santíssimo lugar de Deus. Ao ouvir isto, ficam todos mais animados e com mais devoção, rezando a Deus que lhes concedesse o que agora tanto desejavam.

Feita a oração, seguiram em nome de Deus, caminhando depressa, tal era o fogo do amor divino que tinham, que até nem disseram nada a quem estava no convento. Durante a viagem encontravam ervas cheias de maná que aproveitavam para comer e eram mais doces e saborosas que todas as coisas de comer no mundo. Mas mais doce ainda era o desejo que tinham de ver o tal santíssimo lugar, parecendo-lhes até por isso, leve e agradável o cansaço da caminhada. Andaram a caminhar um ano inteiro, encontrando árvores com frutos muito doces e belos para comer. Tantos que até vergavam a cair no chão. Iam tão contentes que não sentiam as dificuldades da viagem. Iam, com a alegria, tão fora de si, que até pareciam ir quase a voar, sem tocar com os pés em terra.

E assim chegaram ao pé do monte em cujo cimo está o paraíso terreal, começando a ouvir lá o canto dos anjos que muita alegria lhes dava. A sua alegria era tanta que quase não davam conta de si, estando sempre a louvar e a bendizer a Deus por tantas maravilhas que iam vendo. O monte estava cheio de árvores de frutos muito agradáveis e doces para comer além de belíssimos para a vista, estando o chão todo cheio de ervas santas de agradável aroma e todas elas carregadas de flores. A extenção da altura do monte é de 100 milhas.

Quanto mais caminhavamos no monte, mais heras e árvores de maior beleza e de frutos mais suavíssimos encontrávamos e eram tão agradáveis que crescia na boca o apetite de os provar. A beleza e o canto das aves era tão belo, doce e agradável assim como tudo o mais como fontes e rios, que andavam ali os 3 monges como que já esquecidos deste mundo. Não havia ali animal nem maligno nem feroz mas todos eles eram mansos e lindos. A temperatura era muito suave, nem frio nem calor, não se vendo naquele monte espiritual nem silvas nem era podre.

Não se cansavam com tanta alegria mas até se sentiam mais vivos e assim chegaram à porta do Paraíso Terreal mas a porta estava fechada e viram um anjo da categoria dos querubins a guardar a porta. Então os monges sentaram-se a olhar para este anjo admirando com todo o gosto o esplendor e claridade que saíam do rosto do anjo e ficando quase de boca aberta a admirar a sua tão grande beleza. Estiveram ali 5 dias e 5 noites sem se mexerem, tal a alegria e admiração com que estavam a ver um anjo cujo rosto parecia ter a luz do sol sete vezes mais. Passados os 5 dias, o anjo perguntou-lhes porque estavam ali. Responderam os monges que, queriam entrar no paraíso terreal, estando lá 3 dias, se ele deixasse.

2 – O anjo-guarda do paraíso terreal deixa-os entrar e eles encontram lá Enoc e Elias que lhes vão mostrar coisas muito importantes e lindas.

O anjo abre-lhes a porta do paraíso e os monges entram, começando a ouvir uma música muito harmoniosa que mais uma vez os fez esquecer a terra donde eram: Estando assim na entrada do paraíso, tão satisfeitos, já não tinham preocupações de coisa melhor.

Estando neste gosto e alegria, acabam de ver dois velhinhos, muito brilhantes, com o cabelo e barba branquíssimos como neve. Eram os antigos patriarcas Enoc e Elias que Deus tinha posto no paraíso terreal para lá viverem até ao fim do mundo e darem testemunho de Cristo quanto à incarnação, paixão e morte, ressurreição e ascenção de Jesus e ainda Jesus a julgar os vivos e os mortos no dia do Juízo Final. Ao verem os monges, Enoc e Elias saudaram-nos com muito respeito e simpatia, dizendo-lhes: que estais aqui a fazer? Os monges responderam: santos e amigos patriarcas, nós viemos ver este lugar. Disseram Enoc e Elias: dai muitas graças a Deus, por vos ter concedido poderdes vir ver o paraíso, pois ninguém mais, sendo vivo, pode cá vir ver. Deus pôs-nos aqui para darmos testemunho da vida de Cristo, dos seus milagres, da sua morte e ressurreição e da sua segunda vinda no fim do mundo a julgar vivos e mortos. Também temos a missão de desmascarar o Anti-Cristo e os seus erros até morrermos um dia. Pessoas aqui vivas só somos nós. De resto, para aqui só as almas depois de purificadas no purgatório e glorificadas por Deus.

Já que estais aqui por graça de Deus, vou pois mostrar-vos as coisas maravilhosas deste santíssimo paraíso que são de tanta admiração que ninguém é capaz de o saber contar ou imaginar.

Então Enoc e Elias pegaram nos monges pela mão e foram mostrar-lhe o paraíso, ouviram então o canto doce e amoroso dos anjos, caindo mesmo por terra diante de tanta beleza. Levantando para Deus os olhos, as mãos e o coração, dão graças ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. A seguir, vêem uma fonte de água muito límpida, a ponto de não envelhecer quem bebesse dela, ficando até mais novo quem fosse velho ao atrasar 33 anos e meio na idade. Viram depois, a árvore na qual pecaram Adão e Eva, ao comerem do fruto proibido que lhes trouxe a morte eterna. Viram ainda uma outra árvore que era a da nossa salvação e da qual o anjo-guarda do paraíso tinha tirado uma ranca, dando-a a Set, filho de Adão para conseguir depois a libertação de seu pai e da raça humana, pois de tal ranca seria feita a cruz em que foi crucificado Cristo, ficando nós com a sua morte na cruz salvos da morte eterna. Então os monges, ao verem esta árvore donde se formaria depois mais tarde a cruz, ajoelharam-se em adoração e com grande devoção, dando graças a Deus, com muitas lágrimas por toda esta misericórdia e piedade de nosso Senhor para com a humanidade inteira.

Em seguida vêem uma outra árvore. Quem comesse do seu fruto não envelhecia e, se estivesse doente, ficava curado. Era a árvore da vida. Avista-se a seguir uma outra árvore, de muita grandeza, com folhas enormes de variadas cores, com frutos que pareciam pinhas e cuja cor lembrava o caso do catassol. Quem comesse estes frutos tão saborosos nunca mais tinha fome e sede – os ramos vergavam-se quase até ao chão. Todas as árvores do paraíso terreal estavam sempre floridas e com fruto.

As aves eram todas mansas e tinham um cantar tão agradável que nunca ninguém tinha ouvido igual ou parecido. Avista-se uma campinha, aí de 5 milhas de extensão, cheia de ervas e flores de todas as cores que se podem imaginar, além de árvores à volta e no meio e que tinham virtudes especiais. As pedras que lá se viam eram claras, brilhantes e de todas as cores como as pedras preciosas.

Enoc e Elias dizem aos monges: nesta campina estão as amostras de todas as árvores e ervas de todo o paraíso terreal. No meio está uma fonte que tira toda a doença, cansaço e qualquer outro defeito e o seu aroma espalha-se por todo o paraíso e, só com este cheiro tão agradável, as pessoas até nem sentiam vontade de comer nem beber.

As coisas agradáveis do paraíso são tantas que é impossível contá-las todas. O mesmo se diz do seu aroma, que até substitui o comer e o beber. É sem conta a variedade de árvores e ervas e das suas cores, que parece estarmos a ver ouro batido, prata pura, roxo, roxo e azul e misturas de cores, o que também acontece com os frutos.

Há lá aves também de todas as cores, que é uma beleza e alegria vê-las naquelas árvores do paraíso. Nada lá de coisas más como vermes, animais daninhos. Nunca havia noite mas era sempre dia. Não era preciso contar os dias. Não havia mudanças de tempo, nem calor nem frio mas sempre uma temperatura agradável.

Havia 4 fontes de água viva que formavam 4 rios que iam pelo mundo. Além disso, havia uma outra fonte, muito grande, cheia de peixinhos a cantar, que só dava prazer ouvir, o que acontecia na ocasião em que os anjos cantavam a liturgia das Horas.

Finalmente vêem no paraíso terreal a árvore da graça, muito grande, com frutos saborosíssimos, toda cheia de avezinhas a cantar tão bem que até parece o canto dos anjos nos 7 momentos da liturgia das Horas.

Os 3 monges, a ver e a ouvir estes e tantas outras coisas com tanta alegria, até lhes parecia estar ali apenas há 3 dias, quando Enoc e Elias terminaram a visita ao paraíso dizendo finalmente estas palavras aos 3 monges: agora, amigos, ide na paz de Deus para o vosso convento, pois já estivestes aqui bastante tempo e Deus quere-vos lá a viver uma vida beata e santa.

3 – Os 3 monges, julgando que só estiveram 3 dias no paraíso terreal, tinham estado lá durante 300 anos. Quando se está com gosto, o tempo corre mais depressa. Enoc e Elias mandaram-nos regressar ao convento.

Os monges disseram, em resposta a Enoc e Elias, deixai-nos, ó santos patriarcas Enoc e Elias, ficar aqui até fazermos 7 dias. A chorar, acrescentaram: ao menos, mais um dia, pois ainda não estão bem 3 dias caídos. Enoc e Elias disseram-lhes: estais muito enganados. Vós já estais aqui já passa de 300 anos! Então os monges levantam os olhos, as mãos e o coração para o céu, dizendo: Senhor, como é belo e agradável estar convosco no paraíso, com os vossos anjos e vossa Mãe Santíssima. Que alegria contemplar os apóstolos, Jesus e todos os vossos santos!

Enoc e Elias dizem-lhes: andai na graça de Deus, que em pouco tempo chegareis a uma vida beata e santa. Dizem os monges em resposta: como pode ser estarmos aqui há 300 anos, se nos parece termos a mesma idade que quando viemos para aqui? Responderam Enoc e Elias: é que vós comeste daquela árvore e bebeste daquela fonte que não deixam envelhecer.

Dizem os monges: a ser assim o termos estado aqui 300 anos, já não vamos encontrar lá os nossos companheiros que lá ficaram, quando nós viemos.

Dizem Enoc e Elias: os corpos deles já passaram a ser cinza no cemitério mas as suas almas já estão na vida eterna da bem-aventurança há 200 anos. Agora no convento já lá está outra gente.

Dizem os monges: santíssimos patriarcas Enoc e Elias, se nós regressarmos lá, os que lá estão não acreditarão que nós pertencíamos a esse convento.

Dizem Enoc e Elias: vós podeis ir e fareis assim, por meio desta prova e sinal: dizei-lhes para irem até ao altar-mor e no missal e no livro da História da Ordem estão escritos o dia, a hora e o ano em que vós viestes para aqui e que depois de 40 dias ireis morrer para o mundo, sendo 99 as vossas almas recebidas na vida eterna e beata entre os anjos do céu. Ide, pois, embora, não andando a empatar tempo por aqui e por acolá como fizeram Adão e Eva ao saírem expulsos do paraízo terreal.

Então os monges regressaram convencidos e animados embora no meio de lágrimas, dando graças a Deus. Enoc e Elias abençoaram-nos, confortando-lhes as almas com a vida divina.

4 – Os monges regressaram ao mosteiro e mostraram aos que lá estavam agora, que tinham saído de lá há 300 anos.

Ao regressarem, viram as pegadas de Adão e Eva quando foram expulsos do paraíso, como já dissera Enoc e Elias. Começaram a chorar por a humanidade ter perdido tanto bem, devido ao pecado original, e a miséria a que chegou, tendo, para isso, Jesus vindo à terra para salvar os homens com a sua paixão e morte na árvore da cruz.

Chegam ao convento e a porta até estava aberta. Entraram na igreja e junto do altar-mor louvavam a Deus com lágrimas, pelos benefícios recebidos e esperando a hora de morrer para se encontrarem no outro paraíso melhor do céu. O seu fervor era tanto que os outros frades do convento deram pelo caso, vindo até à capela e dizendo para os 3 monges acabados de chegar: vós chegastes há pouquinho aqui e atreveis-vos, para mais, a dizer que este é o vosso convento, quando nós já aqui estamos há perto de 80 anos e nunca vos vimos aqui. Então como é?

Responderam os 3 monges: nós já cá estávamos antes de vós e saímos daqui já lá vão mais de 300 anos, pois saímos em visita ao paraíso terreal, tendo já falecido os nossos restantes companheiros que aqui ficaram e já estão na vida eterna e beata do céu, estando agora neste convento outra gente nova.

Pegai no missal e lá vereis escrito a hora, o dia, e o mês e ano da nossa saída para o paraíso terreal. E ainda vos daremos uma outra prova: nós os três, dentro de 40 dias, seremos visitados pela morte, para seguirmos para o paraíso do céu, que é ainda melhor que o paraíso terreal onde estivemos mais de 300 anos tão bem que até nos parecia ter sido só 3 dias! Estamos à espera de os nossos corpos passarem a cinzas e as nossas almas à vida eterna com Deus.

O abade do convento e os outros monges admiraram-se e verificaram pelo missal ser mesmo verdade mesmo. Até os 3 monges lhe pareciam ter apenas 30 anos!

Os 3 monges disseram ao abade do convento: É uma maravilha do poder de Deus e a Deus nada é impossível. Estivemos no paraíso terreal e vimos o anjo querubim e os santos patriarcas Enoc e Elias anteriores ao tempo de Cristo e participámos da felicidade do paraíso terrestre, da sua comida e bebida, ouvindo o canto dos anjos, provando o fruto da árvore da vida que não deixa envelhecer nem adoecer e bebendo ainda da fonte santíssima para continuarmos jovens.

Então o abade e seus monges, que eram 100, ajoelharam-se, chorando de devoção e prestando honras aos 3 monges. Durante os 40 dias, os 3 monges não sabiam senão falar do paraíso terreal e os outros ouviam-nos com grande devoção e amor divino. Então o abade mandou dar de comer e beber aos 3 monges mas disseram que não precisavam, porque, com a sua estadia no paraíso terreal, deixaram de ter necessidade dessas coisas.

5 - Ao fim de 40 dias faleceram, tendo as suas almas seguido para Deus na vida eterna.

O abade e seus monges, com grande devoção e lágrimas nos olhos, estando de joelhos diante do altar, assistiram ao cumprimento da profecia feita por Enoc e Elias a respeito do falecimento dos 3 monges. Os corpos dos falecidos derramavam agradável aroma quando vieram os anjos a levar as suas almas ao seio de Deus.

Depois o abade mandou fazer um belíssimo altar para se cantar sempre missa em honra dos 3 monges e os corpos dos 3 ficariam encerrados dentro desse altar.

Depois, a exemplo destes 3 monges, o abade com os seus monges procuraram levar também uma vida o mais possível santa para um dia se poderem encontrar todos no céu na companhia destes 3 monges acabados de chegar ao seio de Deus.

Assim nos conduza também a nós o nosso Salvador Jesus Cristo que vive e reina em todos os séculos. Amén.