CAPITULO I

Sobre o homem miserável, desterrado do paraíso terreal e da bem-aventurança do paraíso espiritual que é a morada e o jardim da boa consciência.

Eu, pecador, carregado de miséria, desterrado do paraíso terreal das delícias mais doces, devido ao pecado original, lançado no vale de lágrimas e misérias do mundo, estou aqui a viver rodeado de desgraças, aflições sem conta e com falta de tantas coisas. Além do grande mal, cada vez mais agravado, das grandes preocupações para sustentar o corpo, ainda tenho a aflição e miséria maior em ter a minha alma desterrada do paraíso espiritual das almas cristãs nesta vida, do qual elas passam para o paraíso celestial.

5) Este paraíso espiritual da alma é o jardim e a morada da boa consciência com tanta abundância de paz e harmonia com a virtude da castidade, com a devoção e ainda com a oração. Nesse jardim floresce a humildade no terreno do temor de Deus e brilha a pureza no céu do amor de Deus. Este ambiente de pureza de coração tem a alegria da paz de Jesus e lá a fé vive satisfeita no ambiente da verdade. A justiça dispõe e ordena tudo com brandura e a temperança regula todas as coisas com ordem e harmonia. Nesse jardim e paraíso espiritual a sabedoria dedica-se a ensinar, a fortaleza faz animar e a abestinência limpa a sujeira do pecado. Neste paraíso espiritual está o reino de Deus e com todas as virtudes das quais a humildade e a paciência são rainhas. Nesta vida a alma da pessoa virtuosa já é um paraíso espiritual.

6) Eu, com a minha miséria, estava fora deste paraíso de delícias como um desterrado lançado para o fundo mais baixo da vida do pecado não tendo, pois, paz nem sossego na minha alma que andava esfrangalhada pelas inclinações sujas da sexualidade, nas quais se abrasava, vivendo todo esse ambiente. O meu espírito estava escravo do desejo e sujeira dos gostos sexuais, não querendo saber dos valores espirituais e ligando só ao que, afinal, era a minha desgraça.

7) Eu andava afastado, pois, da paz divina vivendo só para o que viria a ser a minha perdição. Não tinha vontade de fazer qualquer bem fosse qual fosse. Parecia já andar na vida do inferno, pois já me parecia estar a senti-lo neste mundo, tão cercado eu estava das trevas do mal, dando-me a impressão de que já estava a viver no meio dessas trevas.

CAPITULO II

8) Nesta vida de miséria, eu tinha o costume de ir até a um campo muito bonito, com muita erva e flores de cheiro muito agradável, a fim de fugir um pouco a este ambiente desgraçado de vida de pecado e miséria, mas o certo é que esta vida de escravidão moral continuava na minha consciência e a escravizar-me por todos os lados. Perto desse mesmo campo estava um bosque fechado, formado de árvores muito belas com pássaros a cantar com muita doçura.

9) Quando eu ia a esse campo ouvir os pássaros a cantar e a ver as suas belas flores, rezei muitas vezes esta oração a Deus:

Senhor, tende pena de mim, tende piedade.

Terei quem me ajude a sair da escuridão desta vida de trevas e morte?

O canto das aves parecia-me dar esta resposta:

- Sossega, que a graça de Deus te há-de valer através de Jesus.

Depois, ao olhar para o lado direito, vejo um jovem muito bonito, com um vestuário de fogo a reluzir muito. Tinha uma cara tão brilhante como o sol a nascer no tempo de verão. Na cinta levava um cordão de ouro e numa mão tinha uma espada muito luzidia de aço e pintada com manchas de ouro. Na cabeça usava uma grinalda de pedras preciosas, tendo nos pés asas de luz.

10) Eu, espantado e admirado ao ver um jovem assim, atrevi-me a ir até à beira dele e perguntar-lhe que canto era aquele, tão lindo, dos pássaros do bosque.

Ele respondeu-me assim: estes pássaros são os santos doutores que escreveram a Sagrada Escritura. Eles estão em boas condições para te darem conforto e alegria de viver e muitas vezes já te têm avisado e aconselhado e até te ameaçaram vezes sem conta e isto só para teu bem.

Tu sabes bem disso. Tu, que tens andado estragado pelos vícios e boa-vai-ela, não quisestes saber do que eles te diziam, fugindo sempre à emenda e ao bom comportamento. Começa, pois, a ligar já à doutrina dos santos doutores, emendando-te e tendo confiança na misericórdia divina, já que Deus tanto quer livrar da miséria quem é miserável. O Senhor até o deseja mais que os próprios miseráveis. Deus convida-os tanto a que Lhe peçam a sua misericórdia.

11) Certamente Deus não faria este convite, se não estivesse interessado em conceder a misericórdia e dar o seu perdão, pois é Ele mesmo que o diz por estas palavras: pedi e recebereis. O mal de isto não acontecer está na vergonha e descuido dos homens em recorrer à sua misericórdia, pois Deus até dá mais do que Lhe pedimos. O Senhor tem uma piedade maior que o desejo da própria pessoa em sair da miséria. A misericórdia do Senhor é capaz de dar aos homens o que eles até nem sequer se atrevem a pedir. A sua misericórdia é sempre útil a todas as pessoas e sempre precisa para todas as acções, pois a misericórdia do Senhor só sabe ter piedade e perdão, olha, meu amigo, procura ter fé e esperança na misericórdia do Senhor, deixa essa tristeza que te leva ao desespero, foge de te enterrares nesse inferno do desespero e lembra-te de que o Senhor é recto e justo.

12) Não facilites nos pecados nem os julgues com menos gravidade do que a que têm. Mas, mais do que isso, deves principalmente ver que o Senhor é piedoso, por isso não desesperes. Procura mas é teres receio da tua fraqueza, confiando, por isso, sempre na misericórdia do Senhor e da Virgem Maria, sua Mãe Bendita. Ela é a mãe da misericórdia. Maria é muito louvada por todas as gerações, devido às suas virtudes. Todas as pessoas estão encantadas com a sua virgindade e admiradas pela sua humildade. Mas a sua misericórdia, essa é mais doce e saborosa para os miseráveis que, por isso, a ela se agarram com o maior amor e desta misericórdia de Maria eles nunca se esquecem e até a invocam mais que as outras virtudes da Virgem Santíssima.

A tua alma, meu amigo, está muito seca e esmirrada, recorre, por isso, já a beber desta tão grande fonte de misericórdia que é a Virgem Santa Maria, pois Ela é a consoladora dos aflitos e a mãe dos desamparados.

13) Eu, triste e miserável pecador, ao ouvir estas palavras daquele jovem a brilhar de luz, fiquei um pouco mais animado e fui então capaz de lhe dizer isto:

- Senhor, tudo o que eu possa merecer ou receber de misericórdia, é só por dom e graça de Deus. Mas eu queria um conselho, pois eu já estou a ver alguma salvação para a minha vida, devido, portanto, à misericórdia do Senhor e da sua Mãe Bendita que nunca deixa de atender a quem recorre a Ela nas suas aflições.

CAPÍTULO III

14) Ao acabar de dizer isto, ganhei ainda mais coragem e acrescentei:

- Senhor, rogo-te, por amor de Deus, que me digas quem és, pois vejo que te interessas muito por mim, desejando e trabalhando para meu bem.

Ele respondeu-me assim:

- Amigo, não me conheces?

Respondi eu:

- De certeza que não, pois nunca te vi nem ninguém parecido contigo.

Ele então continuou:

- É certo que me não vistes mas, se te lembrares bem, deves recordar-te de teres tido muitas vezes um pressentimento de mim, pois eu tenho andado sempre na tua companhia desde o dia do teu nascimento, tenho-me dedicado sempre a guardar-te e a despertar-te para te levantares da lama e do sono do pecado em que tens caído tantas vezes. Muitas vezes na noite da tua vida te fui dando boas ideias para te comportares bem. Tenho trabalhado sempre a afastar de ti os maus espíritos, dando-te luz e certezas nas tuas horas de dúvida na vida. Tenho sido teu guia para evitares errar, fazendo-o com a maior prontidão.

16) Procurei ajudar-te na luta contra os inimigos da alma colaborando nesse teu trabalho pelo bem, a fim de ficares bem firme na virtude e muitas vezes te lembrei os pecados que fizeste, para sentires vergonha deles. Mostrei-te a bondade de Deus, a fim de teres uma vida recta, ajudando-te a arrumar o que te impedia de servires melhor a Deus. Tantas vezes te visitei para não pecares e quantas vezes te fiz diminuir a atracção das tentações, a fim de não caíres nelas.

17) Rezei ao Senhor, para alcançar merecimentos para ti e para mim. Ficas agora assim a saber que eu sou o teu anjo da guarda, que te fui dado por Deus, a fim de fazeres tudo o que te acabei de dizer, tendo eu feito da minha parte tudo o que me era possível. Por mim, não houve falhas ou faltas neste assunto, se bem te lembras. Mas tu foste um miserável, um rebelde, um fraco e um malicioso, por não teres querido aproveitar toda a minha ajuda e só gostaste de ligar ao anjo mau que trabalha contra Deus, contra mim e também contra ti. Deus encarregou-me de ti e a maneira como te comportaste comigo, só me deu tristeza com a ingratidão dos teus pecados. Eu, por isso, bem razão tinha para te abandonar mas, mesmo assim, ainda tive pena de ti, pois eu também fico contente com o teu bem. Por estar assim tão ligado a ti, sofro também com a miséria a que chegaste. Apesar das tuas ingratidões, ainda quero continuar a ser o teu anjo da guarda, guiando-te pelo caminho que te venha trazer verdadeiramente consolação e remédio para as tuas misérias e aflições, se fores capaz de deixares de ser rebelde como fostes até aqui.

18) Ao ouvir isto, eu fiquei muito espantado e atrapalhado sem saber o que havia de dizer, caindo até por terra como morto.

O meu anjo da guarda levantou-me e disse-me:

- Coitado, como tu és falho de força de vontade! Põe-te de pé e firma-te bem.

Fiquei mais animado com estas suas palavras e, diante daquele cheiro agradável vindo da sua boca, senti-me melhor, ficando mesmo de pé. Então, em seguida, prostrei-me em terra para venerar o meu anjo da guarda numa atitude, por assim dizer, de quase adoração. Ele levantou-me outra vez e eu, de joelhos, acabei por dizer-lhe:

- Ó santo anjo do Senhor e meu anjo da guarda rogo-te, pela piedade de Deus, que me salves, defendas e me governes, que eu consagro-me todo a ti.

E acrescentei:

- Rogo-te, Senhor, que me digas a razão por que usas essas vestes de fogo a reluzir e o motivo por que tens uma espada na mão além de uma vara de ouro, grinalda e asas nos pés e na cintura.

19) O anjo respondeu-me assim:

- A coroa das pedras preciosas que eu e os outros anjos temos na cabeça, representa a grande riqueza de todas as nossas virtudes. As vestes de fogo mostram o ardor da nossa caridade e da nossa boa vontade. Estas vestes são reluzentes, porque nós temos luz para iluminar o entendimento das pessoas. A cintura de ouro quer dizer que nós, os anjos, estamos bem ligados uns aos outros pelas virtudes e tendo um só querer bem seguro e um só coração. As asas nos pés querem dizer que nós, ao irmos à terra tratar do bem e da virtude, somos leves e podemos levantar logo sem ficarmos presos ao mundo mas estando sempre desprendidos para voarmos a todo o momento para as alturas do ideal de Deus. A vara na mão mostra que nós dirigimos as coisas que estão abaixo do céu, fazendo-as andar pelo caminho do bem. A espada na outra mão significa o poder de castigar a maldade por ordem e poder de Deus.

CAPITULO IV

(As 4 virtudes morais ou cardeais)

20) Depois que o anjo do Senhor e meu anjo da guarda acabou de dar a explicação, eu pedi-lhe para me guiar e encaminhar de forma a eu vir a encontrar paz e consolação para as minhas tristezas além de arranjar remédio para os meus males e sofrimentos da minha alma e aflições do meu coração.

Ele então levou-me pela mão por um caminho estreito e apertado naquele deserto, caminho todo cheio de ervas e flores muito lindas, mas também com espinhos e pedras miúdas e afiadas que causavam grande dor nos pés. Apesar de ir calçado, senti, mesmo assim, sofrimento a caminhar, devido a esses espinhos e pedras miúdas, além de me baterem no rosto e no resto do corpo os ramos das árvores que eram bastantes, muito chegadas umas às outras e encostadas ao caminho.

21) Apesar destes incómodos da viagem por caminho tão difícil, eu sentia uma grande consolação pela esperança que me tinha dado o anjo e ainda por ver aquelas lindas flores, muito graciosas e de cheiro muito agradável além dos formosos frutos das árvores no meio daqueles espinhos. O anjo seguia comigo como um jovem. Todo contente sem ter qualquer dificuldade ou aborrecimento com os espinhos.

Continuamos a andar muito e acabamos por entrar numa bela campina muito linda onde andava uma senhora muito bem apresentada mas também com um aspecto muito impressionante. Era realmente linda, um vestuário de duas cores. Metade das vestes era de cor preta e a outra metade era branca, tendo na cabeça uma coroa de muitas pedras preciosas e na mão direita uma régua muito direitinha.

22) Então eu perguntei ao anjo quem era aquela senhora tão formosa mas ao mesmo tempo também muito impressionante a ponto de chegar a meter medo. Ele disse-me que era a Virtude da Justiça, que causa espanto aos maus mas para os bons é destribuidora de recompensa e graça. As duas cores do seu vestuário querem dizer o seguinte: a cor preta significa a aflição e a dor que a justiça dá como castigo aos maus e a cor branca mostra a alegria que ele concede como recompensa aos bons. A pedra preciosa que a justiça tem na coroa e que é muito linda para se ver mas queima quem a apertar, significa que a justiça causa contentamento aos bons mas queima os maus com a correção do castigo. A régua direitinha que vem na mão quer dizer que a justiça dá muito direitinho a cada um o que lhe pertence como paga do seu comportamento.

23) Ao ouvir isto, ajoelhei-me diante da virtude da justiça, pedindo-lhe consolação e remédio para as minhas misérias e pecados. Ela, com uma cara de meter medo, respondeu-me assim toda áspera:

- Homem miserável, não mereces de mim, qualquer remédio nem consolação. Tu é só com misericórdia que podes ser salvo e eu sou só Justiça para te dar o que mereces e tu só soubestes pecar, ser muito malicioso e todo preguiçoso para o bem, qualquer que ele fosse.

24) Então o anjo levou-me pela mão para a frente. Caminhámos muito, indo por outro caminho, tal como tínhamos feito com o primeiro. Fomos ter então a uma outra campina muito linda, onde estava uma outra donzela toda formosura e delicadeza, com uma coroa de ouro recheada de pedras preciosas na cabeça, toda vestida de branco e com cordas de chicote na mão.

25) A donzela estava encostada a um belo estrado, dando a impressão de ter uma saúde delicada. Então eu perguntei ao anjo quem ela era. Ele respondeu-me que era a Virtude da Temperança. Explicou-me que a coroa que ela tinha na cabeça servia para arrefecer qualquer coisa quente e, por isso, esta virtude faz, por esse meio, abrandar os ardores da sexualidade. A brandura e a abstinência que esta donzela representa, é a razão de ela ser magra e de saúde delicada, precisando por vezes de estar encostada ao estrado. Os chicotes que tem na mão são para amansar e dar para baixo nos atrevimentos sexuais que tentem aparecer. O vestuário branco que ela usa, é para dizer que a temperança só gosta de coisas com simplicidade e sem outras manhas e misturas pelo meio.

26) Então eu pedi, com muito respeito e humildade, à donzela da virtude da esperança, o favor de me ajudar na minha vida. Ela disse-me logo que não, pois eu só lhe tinha feito muito mal juntamente com as inimigas dela e que eram as bebedeiras, comezainas, abusos sexuais e demais pecados à volta disso, acrescentando ela ainda que era mesmo impossível qualquer ajuda, porque eu, em toda a minha vida passada, ligava só a quem andava de mal com ela.

27) Então o anjo pega-me novamente pela mão e seguimos por um novo caminho muito grande como o primeiro, acabando por chegarmos à beira duma torre muito alta. Lá em cima estava uma senhora muito formosa e bem apresentada, com um corpo de muita harmonia, tendo na cabeça uma coroa de muitas pedras preciosas, usando um vestuário reluzente de cor preta com outras cores de permeio e tendo na mão um escudo de ouro de cor vermelha.

28) Então eu perguntei ao anjo:

- Quem é aquela senhora?

Ele disse-me que era a Virtude da Fortaleza e que as pedras preciosas da sua coroa tinham o poder de fazer vencedores os homens nos combates e canseiras da vida, pois nisso é que estava a virtude da fortaleza, ao tornar as pessoas vitoriosas nas lutas espirituais. As vestes pretas, com outras de permeio, significam que a fortaleza aguenta com a paciência todas as contrariedades e injúrias, da mesma maneira que a cor preta ao fazer esquecer as outras cores de permeio. A mistura das outras cores quer significar os vários e muitos trabalhos que o coração, cheio de fortaleza, é capaz de suportar com paciência. O escudo vermelho mostra o esforço de martírio da fortaleza a defender-se das tentações inimigas.

29) Então eu pedi a esta senhora ajuda e ela deu-me esta resposta:

- Homem de coração amimalhado, sem força de vontade para nada, é impossível qualquer ajuda, já que nunca te importaste de mim, tão afastado sempre andaste do meu ideal. A distância de ti a mim é como a da altura desta torre até ao «fundego» onde andas. Põe-te a andar, acabou a conversa.

30) Depois de ela me bater assim com a porta na cara, eu e o meu anjo começamos a andar por um outro caminho muito grande e muito áspero, acabando por chegarmos a uma tenda muito rica e linda numa grande campina. As portas abriam-se com o vento, podendo eu assim ver lá dentro uma formosa senhora assentada numa cadeira, dando a impressão de gostar de trabalhar. Tinha na cabeça uma coroa de prata com pedras preciosas, vestia de verde-escuro e tinha na mão uma vara de madeira muito linda e trabalhada.

31) Perguntei neste momento ao meu anjo da guarda quem era esta senhora e ele disse-me que era a Virtude da Prudência que torna o homem sábio e entendido naquilo que deve fazer para salvar a sua alma, ensinando-lhe como se deve comportar em tudo o que fizer. É uma senhora muito cuidadosa em tudo. Tem uma coroa de prata, feita de metal de bom som, pois a prudência, ensinando com muita sabedoria, dá grande fama às pessoas fazendo soar ao longe o seu valor. As pedras preciosas da sua coroa têm o poder de fazer a pessoa saber o que diz e o poder de a tornar graciosa e bem preparada para o que for necessário realizar. A cor verde-escura mostra, pela parte verde, a graça e satisfação da virtude da prudência e, pela parte escura a cautela a ter-se, pois nem tudo na vida é fácil de compreender. A vara na mão quer dizer que a prudência guia todos os juízes e todas as pessoas na arte de compreender as diversas situações na vida.

32) Então eu pedi-lhe o favor de se interessar por mim com alguma solução e remédio para os problemas da minha miserável vida. Ela então respondeu-me dizendo que já me tinha dado grandes ensinamentos de sabedoria de que eu nunca fizera caso e, por isso, já estava farta e cansada e, portanto, que eu andasse, não empatando mais tempo.

Fiquei então desanimado com isto e apetecia-me até, depois de todas estas andanças por caminhos tão longos como difíceis, voltar à mesma vida de antes. Mas o meu anjo da guarda opôs-se, não aceitando, e continuou a levar-me consigo, dando-me sempre esperanças de melhor.

33) Então lá fomos ambos por um caminho muito longo e cheio de fragas e penedos, tendo ainda de passar por sítios perigosos e atravessar várias ribeiras. Eu só sentia tristeza em tudo isto. A minha única consolação era a companhia do meu anjo da guarda além do belo canto das aves por aquele deserto. Também via de vez em quando muitos animais ferozes que me metiam muito medo mas o meu anjo da guarda era a minha defesa e apoio contra as ameaças deles.

CAPÍTULO V

(As 3 virtudes teologais)

34) Continuando por aquele deserto, chegámos a uma casa de 3 cantos, muito bonita e muito bem lavrada de pedra de mármore branco, tendo um telhado da cor do céu com estrelas de ouro. Tinha pedras chamadas jaspes de muitas cores e em cada canto uma linda cadeira de marfim com ouro luzidio. Em cada uma destas três cadeiras estava uma donzela muito formosa, todas elas com vestuário semelhante de muitas e variadas cores, tendo mantos de ouro e coroas douradas com pedras preciosas na cabeça.

35) Destas três donzelas, uma tinha uma pedra esmeralda muito verde na coroa, a outra tinha na sua coroa uma pedra safira cor do céu e a terceira possuía uma pedra rubi, na sua própria coroa.

Entramos ambos onde elas estavam. Eu fiz com todo o respeito e humildade, uma saudação a cada uma delas mas elas nem para mim olharam. Só ligavam ao meu companheiro, que era o meu anjo da guarda, com cuja presença elas se sentiam contentes. Eu, que não era ali ninguém, bem sabia que não merecia.

36) Depois disto perguntei ao meu anjo da guarda quem eram estas três donzelas. Ele disse-me que a donzela com a pedra esmeralda na coroa, era a Virtude da Fé, pois a esmeralda é a pedra com mais verdura e a virtude da fé nas almas amadas de Deus nunca está seca mas sempre viva, quer dizer, está sempre verde. A donzela com a pedra safira da cor do céu é a Virtude da Esperança, pois é para o céu e realidades celestiais que a Esperança conduz. Finalmente a terceir donzela, com a pedra rubi, da cor do fogo, é a Virtude da Caridade, pois esta virtude arde como um fogo no amor a Deus.

37) Então eu prostrei-me em terra diante de cada uma destas três virtudes, pedindo-lhes com toda a humildade que me ajudassem nas minhas muitas misérias e tristezas. Eu estava mesmo fiado que agora sempre encontraria piedade nestas três Virtudes Teologais, já que até aqui não a pudera alcançar nas outras quatro virtudes cardeais. Mas, para meu espanto e surpresa, elas responderam-me agora ainda com mais rigor que as outras a cuja porta já tinha batido sem nada conseguir.

A Virtude da Fé falou-me assim: então tu mataste-me na tua alma com o teu mau comportamento, desfazendo e perdendo a fé em Deus por causa dos teus pecados e não tens vergonha de apareceres agora? Não te posso de forma alguma valer.

Depois diz a Virtude da Esperança: nenhum conforto te posso dar, pois a esperança que tu sempre sonhaste foi a das vaidades do mundo e nunca a esperança de Deus e do Céu.

Por último ouvi a Virtude da Caridade afirmar: não te posso também valer em nada, porque o teu único amor foi o mundo e as suas coisas materiais. O que quiseste é o que tens agora. Vai para onde andaste.

38) Ao acabar de ouvir tudo isto, vejo, sem nunca o suspeitar, que tudo foi perdido pela água abaixo. Já nem sabia o que havia de dizer ou fazer. Pensei voltar para a vida que tinha antes, para essa miséria que era ainda um resto de vida, melhor sempre que este nada de agora. Mas o meu anjo da guarda não me deixou desistir nem desesperar mas ainda me fala dum outra possível, esperança e que era a da misericórdia do Senhor. Então pega-me pela mão pois via como eu estava tão desanimado, e continua a amparar-me sempre e assim lá fomos continuando uma nova viagem mas mais difícil por caminhos cheios de dificuldades que eram penedos, tenho ainda de atravessar com grande medo muitas pontes sobre rios muito fundos, tudo isto nos maiores perigos e receios nesta estrada da vida crucificada.

39) Finalmente chegamos a um jardim de lindas árvores com muitos variados frutos e com muitas fontes de água limpa a brilhar. Perto duma formosa fonte estava uma videira de uvas brancas, junto da qual estava uma donzela muito atenciosa e de muitos bons modos, vestida de verde com o maior número possível de cruzes douradas no vestido. Na cabeça tinha uma coroa de ouro com as pedras preciosas chamadas jacintos. Numa mão tinha um ramo muito verde de oliveira com azeitonas maduras e na outra mão estava uma tacinha. O manto que ela usava dava até para cobrir várias pessoas. Ao chegarmos à beira, ela mostrou bons modos e atendeu-nos com muito boa disposição.

40) Eu perguntei ao meu anjo da guarda quem era esta senhora. Ele disse-me:

- É a Misericórdia. Foi ela que trouxe do céu para a terra o Filho de Deus que, por causa disso, se tornou homem e até foi vendido para remir os pobres pecadores. Ela levou o Filho de Deus a humilhar-se para levar os pés aos homens. A cruz de ouro que ela usa representa Jesus Redentor e Salvador dos homens. O manto que a cobre com muita folga, é para dar também acolhimento e amparo aos infelizes e desgraçados. As cruzes verdes de ouro significam a esperança da paz e alegria oferecida às pessoas aflitas e preocupadas como ainda a consolação dada às pessoas carregadas de amarguras. As pedras de jacinto destinam-se a confortar e a tirar as tristezas e todas as desconfianças. A coroa com as suas pedras é remédio para os que sofrem assim como tudo o que traz nas mãos.

A Misericórdia tem muito poder diante de Deus a ponto de chegar a levar o Senhor a alterar as sentenças da sua justiça, tal é o poder e a vitória da misericórdia.

41) Eu, que estava tão em baixo e decaído de miséria, ao ouvir isto, só soube cair logo de joelhos diante da Virtude de Misericórdia e pedir-lhe a sua ajuda como sendo a última esperança que eu podia ter agora. Então ela, toda atenciosa e cheia de compaixão por mim, disse-me:

- Olha, filho, eu vou ajudar-te e até irei contigo à presença de Deus pedir por ti, rogando ao Senhor perdão e consolação para a tua alma tão esfrangalhada. Eu bem sei que a tua vida passada não o merece mas eu vou pedir a Deus e fazer tudo para que o Senhor não olhe para a sua justiça mas só olhe para a sua misericórdia, derramando a sua graça com abundância sobre o vazio ressequido e esmirrado da tua vida, que é um triste farrapo de miséria, a fim de ficares curado dessa lepra miserável. Eu sei que já consegui do Senhor coisas mais difíceis do que esta. Por isso, sei agora que vai realmente ser possível e tudo farei para que o Senhor ouça e atenda da melhor vontade o que Lhe vou pedir por ti.

42) Mal acabou de dizer isto, ela vem ao meu encontro pega-me na mão e o meu anjo da guarda, que nunca me abandonou no meu calvário da minha vida inteira, pega-me também na outra mão e lá vou eu levado por eles para um jardim de verdadeiras delícias, cheio de árvores carregadas de frutos e plantas todas a florir.